Monica Zarattini/Estadão
Monica Zarattini/Estadão

Romance de Colm Tóibín ficcionaliza a polêmica vida de Thomas Mann

Escritor alemão premiado com o Nobel de Literatura em 1929 foi autor de 'A Montanha Mágica' e 'Doutor Fausto', mas teve uma vida moralmente conturbada

Dennis Drabelle, Especial ao The Washington Post

24 de setembro de 2021 | 15h00

O crítico americano Malcolm Cowley resumiu a ficção do escritor alemão Thomas Mann como “uma intrincada estrutura formal” levada a seu limite. O próprio Mann, que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1929, chamou sua técnica de “completa”. Ele colocou tantos detalhes físicos e acuidade psicológica em seus romances que alguns leitores evitam produções robustas como Os Buddenbrooks, A Montanha Mágica e Doutor Fausto, sem falar nos quatro volumes de José e seus Irmãos.

Com esse pano de fundo, o escritor irlandês Colm Tóibín escreveu um romance incisivo e espirituoso que mostra a boa companhia que o vencedor do Nobel e sua família devem ter sido.

Tóibín já havia feito isso uma vez em seu romance O Mestre: seguir um grande escritor - Henry James, nesse caso - enquanto ele trabalha e relaxa. O que James e Mann têm em comum, além do esforço que exigem dos leitores, é uma relação tensa com sua homossexualidade. James temia soltar as rédeas de suas inclinações - ou, na verdade, colocar qualquer rédea. O Mann de Tóíbin é menos reprimido.

Na escola, Tom tem experiências com alguns de seus amigos; como adulto observa os homens bonitos que cruzam seu caminho. Vejam, isso não é ficar espiando por trás do muro. Mann comporta-se de forma tão aberta que quando ainda era solteiro, um colega escritor aborda o assunto em um café. “Todos nessa mesa sabem que casamento não é pra você. Todos que seguem seus olhos sabem onde eles pousam”. Apesar disso, Mann casa-se com a atraente e inteligente Katia Pringsheim, com quem terá seis filhos. Ele arrisca-se com sua novela Morte em Veneza - a história de um compositor envelhecido cuja paixão por um belo menino tem consequências fatais - mas na época de sua publicação em 1912, a importância de Mann era tanta que poucos leitores observaram como a narrativa era autorreferente.

Uma das filhas de Mann chega a perguntar à sua mãe por que ela se casou com um homem assim. “Meu pai era um mulherengo”, Katia responde. “Ele não conseguia se segurar. Queria toda mulher que via. Não tive esse problema com seu pai”.

Os filhos de Mann olham para ele com admiração e ressentimento. Seu apelido surge com seu primeiro filho, Klaus, cujos pesadelos Thomas aliviava dizendo ser um “mágico famoso” muito temido pelos fantasmas (Estranhamente, Tóibín não menciona a história de terror de Mann Mario e o Mágico nesse caso). Klaus e seus irmãos são muito inteligentes, e alguns deles vão publicar seus próprios livros. Tóibín parece determinado a dar o devido valor aos filhos, algo que seu pai nunca conseguiu fazer. Na verdade, enquanto o próprio Mann permanece bastante opaco, Klaus, sua irmã Erika e seus quatro outros irmãos aparecem extremamente vivos.  

Mais adiante no romance, após o suicídio de Klaus, o filho mais novo, Michael, escreve uma carta ao pai para repreendê-lo por não comparecer ao funeral: “Você é um grande homem. Sua humanidade é amplamente apreciada e aplaudida… Não deve incomodá-lo, é provável, que esses sentimentos de adulação não sejam compartilhados por nenhum de seus filhos. Quando me distanciei do túmulo de meu irmão, queria que soubesse como me senti profundamente triste por ele.”

Onde quer que a família Mann morasse - Munique, Princeton, Los Angeles ou Suíça - recebiam convidados ilustres, entre eles, Alma Mahler, viúva do compositor Gustav, que falava o que quisesse. Aqui ela aparece na mesa de jantar da família, refletindo sobre seu marido famoso: “Acho que as pessoas que dizem que estão doentes têm o dever de estarem realmente doentes. Se Gustav tivesse uma espinha no nariz, tinha a certeza de que era o fim. E suponho que ele foi firme em suas convicções uma vez que morreu jovem”.

Outra presença fascinante é Agnes Meyer, esposa de Eugene Meyer, que publicou o Washington Post durante as décadas de 1930 e 1940. Quando Hitler chega ao poder, os Manns sabem que precisam emigrar, sobretudo porque Katia era judia; eles aceitam a ajuda de Agnes para se estabelecerem na América mas zombam dela pelas costas. Os Roosevelts entram no jogo divertindo os Manns na Casa Branca:

“Pessoalmente, [Agnes], é assustadora”, Franklin diz. “Mas pelo telefone, é uma cantora de ópera”

“Tivemos que ir a uma ópera recentemente”, Eleanor explica, “por isso o presidente ainda está assustado com esse horror todo”

Romancistas que escrevem sobre acontecimentos históricos e pessoas reais geralmente destacam seus afastamentos dos fatos em si, se é que existem. Tóibín não seguiu essa prática em O Mágico, mas esse resenhista pode afirmar que a abordagem de Tóibín sobre Mann coincide com a de Anthony Heilbut em seu astuto Thomas Mann: Eros and Literature, que faz parte da lista de fontes secundárias que Tóibín achou “útil”.

Em mais de 500 páginas, O Mágico é da estatura de Mann, e galopa não apenas na força da prosa graciosa de Tóibín, mas também porque o leitor mal pode esperar pela próxima palavra de um membro da família ou convidado.  Christopher Isherwood, Albert Einstein, Bertolt Brecht e outros iluminados aparecem, e na sua ausência, um ou outro Mann certamente irá compensar.

No final, Tóibín nos lembra de que seu protagonista iluminou-se em seu último romance, o ousado Confissões de Felix Krull, publicado pouco antes de sua morte em 1955. Preparando-se para escrevê-lo, Mann reflete que Felix (latim para “feliz”) deveria incorporar os pensamentos finais de seu criador sobre os homens: “ que [eles] nunca poderiam ser confiáveis, que poderiam mudar sua própria história de acordo com o vento, que suas vidas eram um contínuo, enervante e divertido esforço para parecerem plausíveis. E nisso reside, ele sentiu, o puro gênio da humanidade, e todo o pathos. Ninguém se encaixa melhor nessa descrição que o próprio Thomas Mann. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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