EDUARDO MARTINS
EDUARDO MARTINS

Romance de estreia de Natalia Borges Polesso questiona a normalidade

Vencedora do Jabuti de contos em 2016 por 'Amora', jovem autora gaúcha trata da relação entre duas mulheres, uma delas epilética

Sérgio Tavares*, Especial para o Estado

22 de agosto de 2019 | 09h00

Controle é a primeira incursão na narrativa longa da gaúcha Natalia Borges Polesso, autora do volume de contos Amora, que venceu o prêmio Jabuti, em 2016, explorando gradações dos relacionamentos homoafetivos entre mulheres. De certa maneira, o romance se debruça sobre a mesma temática, contudo enquadrá-lo num subgênero, ainda que se constate seu poder de visibilidade e valor representativo, é estreitar a amplitude do aspecto humano que permeia sua história, abrangendo questões universais ligadas a trauma, solidão, amizade, superação, liberdade e autoaceitação.

A trama se inicia nos anos 1990, em Campo Bom, cidade do interior do Rio Grande do Sul, e tem como protagonista Maria Fernanda (ou Nanda). Na companhia da melhor amiga Joana e dos amigos Davi e Alexandre, ela passa pelas experiências físicas e subjetivas da adolescência, referentes às mudanças no corpo, às relações interpessoais em casa e no colégio, à descoberta da música e de bandas, e como a chegada do walkman vai converter certas canções em trilha sonora dos dias cambiantes de uma geração.

Nanda é atrevida e de forte personalidade, assim não se curva ao desafio de um garoto em disputar uma corrida numa pista caseira de bicicross. Durante uma manobra ousada, porém, ela perde o controle da bicicleta e bate feio a cabeça, despertando uma condição de epilepsia que desestabiliza sua conexão com o mundo por completo. 

As crises de convulsão (e, sobretudo, o medo constante de tê-las) dinamitam as hastes do seu convívio social ao ponto de se sentir segura apenas na concha de proteção erguida pelos pais, levando-a, inevitavelmente, ao isolamento. Para de frequentar as aulas, torna-se vítima de bullying (é chamada de “mina do tremelico”). Sua rotina limita-se a cumprir os preceitos ardilosos da doença.

No observatório cego do seu quarto, a vida galopa do lado de fora. A adolescência matura em vida adulta. Seus amigos fazem vestibular, ingressam na faculdade. Passam-se anos, uma década, e ela se encerra num espaço de fundo emocional no qual seu único amparo passa a ser a música, em especial as canções do grupo britânico New Order e o simbolismo autorreferencial da figura do músico Ian Curtis, que também sofria de epilepsia.

Polesso tem uma escrita macia, em tom informal, com frases bem ordenadas que empreendem um dinamismo entre o curso dos fatos e estados de consciência. Narrado em primeira pessoa, o texto se sustenta na legitimidade e no magnetismo da voz de sua personagem, que vai modulando através do tempo e envolvendo o leitor no drama extraído desse processo desolador de formação, muitas vezes com a intimidade do relato testemunhal. 

Neste caso, confissões de medo, de culpa e de insegurança se combinam a trechos de composições, de modo a firmar um comportamento ambiguamente pueril e adulto. Da fita cassete para o CD, chegando aos anos 2000, com a febre dos programas de download de música e os chats virtuais, a protagonista formula um sentido de existência que depende da condução alheia, baseado nas experiências daqueles que estão distantes ou que não sucumbiram às tentativas de afastamento.

A mais resistente é Joana, fiel escudeira e derradeiro elo com as pessoas do passado e as possibilidades do presente. A amiga sempre a incentiva a tomar as rédeas da própria vida, dar o primeiro passo para fora daquela situação-limite, ao mesmo tempo que preserva a matriz lúdica da infância, quando brincam de “lutinha” sobre a cama, aninham-se para ouvir música, ombreiam-se para tirar cifras no violão. Ocorre que, agora, elas se aproximam dos 30 anos, e Nanda começa a sentir uma eletricidade estranha no contato com Joana; a quentura do corpo da amiga lhe invade com sensações e pensamentos difusos, que ganharão intensidade depois que um terceiro personagem (A Bizarre Love Triangle, para fazer menção à canção do New Order) põe à prova os contornos do que antes era chamado de amizade.

Polesso conduz com sensibilidade o surgimento dessa nova direção sentimental sobre o outro, posicionando os efeitos das descobertas e das autodescobertas na linha tênue que separa afeto e desejo. Não há erotismo ou fervura sexual. As chaves que enredam esses momentos singelos de interação são a do carinho, a do respeito, a do companheirismo, deslocando qualquer tentativa de declaração óbvia em movimentos tácitos, evasivos.

Paralelamente aos caminhos centrais do enredo, a autora tece uma segunda camada na qual articula, como sagacidade e sutileza, uma comparação entre a condição de epilepsia e o peso de expor socialmente a homossexualidade. A certa altura, quando reflete sobre os anos perdidos por conta da medicação pesada, em razão do assombro das crises, a personagem se revolta contra a palavra “normal”; com o fato de os especialistas afirmarem que poderia levar uma vida normal.

Em tempos de desprezo e preconceito pela pluralidade sexual, é necessário (embora não obrigatório) que um livro que traz uma doença como dispositivo de discriminação mostre que doente é aquele que se presta a ameaçar a liberdade alheia. Controle, assim, pode ser apreendido pelo apelo e pelas nuances que definem a temática lésbica, no entanto as tensões que impulsionam sua narrativa estabelecem questões mais vastas que se relacionam a aceitação do próprio corpo, a superação de limites e, sobretudo, a compreensão de que, para amar o outro, é fundamental, primeiro, amar a si.

*SÉRGIO TAVARES É ESCRITOR E CRÍTICO LITERÁRIO

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