Romance de Fernando Molica retrata a ditadura pelos olhos de um menino do subúrbio

Comentarista político e jornalista, obra de Molica é a crônica de um país fraturado

Mateus Baldi - Especial para o Estadão

No começo dos anos 1970, o pai de Francisco compra um carro cuja primeira coisa impressionante é o banco dianteiro – “imenso, contínuo, sem aquela divisão de onde, no fusca, brotava a alavanca usada para a troca de marchas”. “Marco de uma vida que melhorava à custa de muita dedicação e trabalho”, o Opala representa uma ascensão de status que teve início na mudança de um apartamento de dois quartos para uma casa de frente de rua. 

Estamos em Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro, e a ditadura militar entra em sua fase mais sanguinária. Jovens são presos e torturados, guerrilheiros morrem no coração do país e a propaganda do governo investe pesado em lemas – “Brasil, ame-o ou deixe-o” – e bravatas, como as obras faraônicas – a rodovia Transamazônica – e o milagre brasileiro.

O jornalista e comentarista Fernando Molica lança seu novo romance, 'Elefantes no Céu de Piedade' Foto: Alice Vergueiro

Não há aqui nenhuma intelligentsia carioca, jovens dispostos a mudar o mundo com a música e suas leituras muito intelectuais, muito cultas, cheias de um vocabulário que diz todo o blablablá revolucionário capaz de mover as montanhas. Há Francisco, seu pai, sua mãe, sua irmã e uma aridez de subúrbio, que pouco a pouco vai se incendiando, sufocante, rompendo com o destino de ser “mais prudente, seguro e lucrativo acreditar no poder”. Essa uniformidade torta, de uma rebeldia asfixiada e envolta por figuras como a prima Marisa, falada na vizinhança porque “gostava muito de rapazes”, será chacoalhada quando a casa de Francisco servir de abrigo para o primo Carlos Alberto. A presença de Cacá, vindo do Espírito Santo por estar muito doente, acaba por estremecer de vez o que só precisava de um empurrãozinho – o confronto pais versus filhos versus primo, a irmã com uma quedinha por Cacá, o silêncio diante dos amigos da vizinhança; não demora para ficar clara a doença do primo e as inevitáveis diferenças entre aquela família, conformista, e as inflamações da juventude.

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Escrito com sobriedade e afeto transbordante, Elefantes no Céu de Piedade é a crônica de um país fraturado – ontem como hoje. Fernando Molica parece usar toda a sua experiência como comentarista político para trazer as sutilezas do cotidiano que ressoam no Brasil pela lente do período mais cruel e vergonhoso da nossa história. Há aqui uma falsa paz, um sentimento de tremor que corre por baixo do texto como um rastilho de pólvora. E essa tensão, portanto, reside muito mais em si mesma do que nas possíveis consequências de sua existência. É como se Molica disparasse um alarme que nunca para de tocar, ribombando nas mais de 160 páginas feito um grito de desespero.

O ministro da Justiça, Luis Antônio Gama e Silva, e o locutor da Agência Nacional, Alberto Curi, durante o anúncio e leitura do Ato Institucional Número 5 (AI-5) em  13 de dezembro de 1968. Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo

O excesso de descrições, poupando a curiosidade do leitor, talvez possam amainar o efeito duro, áspero, de seguir Francisco e suas inquietações de menino, porém nunca, não neste Brasil, impedem que nos preocupemos de forma genuína. Se a obviedade das trocas com o primo faz parte do jogo dramático que envolve Piedade – porque não poderiam ser diferentes –, o final não se furta a ser maduro: Fernando Molica assume o que precisa ser grave e espanta quaisquer resquícios de imaturidade.

Numa chave macro, temos aqui um livro de formação que aborda com coragem, em seu núcleo, a ditadura militar por uma ótica nem sempre privilegiada: o AI-5, sabemos, deu poder ao presidente tanto quanto ao guarda da esquina, e também a ditadura existia longe dos grandes centros, das grandes paisagens. O que Molica nos faz ver é a obrigatoriedade do desastre. A tragédia criada pelos militares independe dos dramas pequeno-burgueses ou da presença de um heroísmo guerrilheiro: um menino que vê sua família se despedaçar, questionando tudo e todos em busca de uma verdade menos cínica que aquela diariamente lhe transmitida, também é capaz de produzir um relato tão forte quanto todos os outros. Ainda bem.

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Comentarista político e jornalista, obra de Molica é a crônica de um país fraturado

Mateus Baldi - Especial para o Estadão

No começo dos anos 1970, o pai de Francisco compra um carro cuja primeira coisa impressionante é o banco dianteiro – “imenso, contínuo, sem aquela divisão de onde, no fusca, brotava a alavanca usada para a troca de marchas”. “Marco de uma vida que melhorava à custa de muita dedicação e trabalho”, o Opala representa uma ascensão de status que teve início na mudança de um apartamento de dois quartos para uma casa de frente de rua. 

Estamos em Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro, e a ditadura militar entra em sua fase mais sanguinária. Jovens são presos e torturados, guerrilheiros morrem no coração do país e a propaganda do governo investe pesado em lemas – “Brasil, ame-o ou deixe-o” – e bravatas, como as obras faraônicas – a rodovia Transamazônica – e o milagre brasileiro.

O jornalista e comentarista Fernando Molica lança seu novo romance, 'Elefantes no Céu de Piedade' Foto: Alice Vergueiro

Não há aqui nenhuma intelligentsia carioca, jovens dispostos a mudar o mundo com a música e suas leituras muito intelectuais, muito cultas, cheias de um vocabulário que diz todo o blablablá revolucionário capaz de mover as montanhas. Há Francisco, seu pai, sua mãe, sua irmã e uma aridez de subúrbio, que pouco a pouco vai se incendiando, sufocante, rompendo com o destino de ser “mais prudente, seguro e lucrativo acreditar no poder”. Essa uniformidade torta, de uma rebeldia asfixiada e envolta por figuras como a prima Marisa, falada na vizinhança porque “gostava muito de rapazes”, será chacoalhada quando a casa de Francisco servir de abrigo para o primo Carlos Alberto. A presença de Cacá, vindo do Espírito Santo por estar muito doente, acaba por estremecer de vez o que só precisava de um empurrãozinho – o confronto pais versus filhos versus primo, a irmã com uma quedinha por Cacá, o silêncio diante dos amigos da vizinhança; não demora para ficar clara a doença do primo e as inevitáveis diferenças entre aquela família, conformista, e as inflamações da juventude.

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O ministro da Justiça, Luis Antônio Gama e Silva, e o locutor da Agência Nacional, Alberto Curi, durante o anúncio e leitura do Ato Institucional Número 5 (AI-5) em  13 de dezembro de 1968. Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo

O excesso de descrições, poupando a curiosidade do leitor, talvez possam amainar o efeito duro, áspero, de seguir Francisco e suas inquietações de menino, porém nunca, não neste Brasil, impedem que nos preocupemos de forma genuína. Se a obviedade das trocas com o primo faz parte do jogo dramático que envolve Piedade – porque não poderiam ser diferentes –, o final não se furta a ser maduro: Fernando Molica assume o que precisa ser grave e espanta quaisquer resquícios de imaturidade.

Numa chave macro, temos aqui um livro de formação que aborda com coragem, em seu núcleo, a ditadura militar por uma ótica nem sempre privilegiada: o AI-5, sabemos, deu poder ao presidente tanto quanto ao guarda da esquina, e também a ditadura existia longe dos grandes centros, das grandes paisagens. O que Molica nos faz ver é a obrigatoriedade do desastre. A tragédia criada pelos militares independe dos dramas pequeno-burgueses ou da presença de um heroísmo guerrilheiro: um menino que vê sua família se despedaçar, questionando tudo e todos em busca de uma verdade menos cínica que aquela diariamente lhe transmitida, também é capaz de produzir um relato tão forte quanto todos os outros. Ainda bem.

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