Renato Parada/Companhia das Letras
Renato Parada/Companhia das Letras

Romance de Javier A. Contreras narra a dor da perda de um filho

Vencedor do prêmio APCA, 'Crocodilo' trata da relação de um pai com o suicídio de seu filho

Mateus Baldi*, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2019 | 16h00

“Hoje, meu filho Pedro pulou da janela do seu apartamento.” Apoiado em uma epígrafe de Albert Camus, assim começa Crocodilo, novo romance de Javier Arancibia Contreras, vencedor do prêmio APCA de melhor romance em 2019. Desde o início pretendendo ser um estudo de caso sobre o suicídio e suas consequências em um mundo midiatizado – que se recusa a debater o tema –, o livro é um soco a longo prazo: nas quase 200 páginas de agonia, seu autor age como um boxeador cambaleante, que tem pressa, porém não urgência; aqui, as situações se sucedem aos atropelos, e só após termos vencido metade do percurso somos finalmente acertados.

Narrado pela voz pastosa e algo caxias de Ruy, jornalista veterano, Crocodilo expõe o que aconteceu nos sete dias que se seguiram ao suicídio. Cineasta promissor, Pedro morreu deixando família e amigos angustiados, mas é o pai quem não consegue se conformar. Disposto a recuperar a intimidade há muito perdida, Ruy mergulha a fundo no universo do filho para compreender quem era aquele homem e no que suas transformações agiram para o gesto final. Seca, porém nunca desprovida de afeto, a prosa de Javier Arancibia Contreras deseja analisar o mundo em que vivemos, como se Ruy estivesse retornando de um longo exílio, diferente daquele experimentado em Londres, após sofrer nas mãos da ditadura militar.

Isolado da família e dos amigos, o protagonista vivo de Crocodilo exerce uma espécie de dualidade com o protagonista morto. Se o filho aparentava vida e doses cavalares de empatia, Ruy está o tempo todo brigando com os amigos, enfiado em sua espiral de ressentimento e confusão. Documentarista audacioso, Pedro se ligou intimamente a moradores de rua e cresceu filmando a empregada de casa enquanto nutria uma estranha curiosidade pelo crocodilo do zoológico. 

No extremo oposto, Ruy parece um cadáver que esqueceram de enterrar. Seu périplo começa bem antes do suicídio, como se o fim do filho fosse apenas o despertar de uma longa agonia. Em certos momentos, sua voz irrita pela neutralidade – o excesso de ascetismo e apatia que o dominam fazem o leitor questionar o tempo inteiro se deve ou não simpatizar com alguém tão autopiedoso.

Invertendo o jogo literário, Contreras está menos interessado em elaborar diagnósticos e mais em construir personagens. Se Crocodilo é um estudo de caso, o suicídio é apenas o holofote que ilumina uma sociedade doente e seus párias – vivos e mortos. Da mãe amorosa ao psicólogo conformado, os personagens são vítimas da lente opaca de Ruy, legando a Pedro a tarefa de brilhar sozinho. Deslocar o eixo, portanto, torna-se fundamental para fruir a obra. Desviando-se o peso do pai e jogando-o para o filho, chegamos a uma posição satisfatória, onde é possível observar com distância segura o movimento no tabuleiro. Verdadeira estrela do livro, Pedro é entendido na medida em que compreendemos seu esvaziamento – a ausência de respostas se torna a própria resposta, ainda que para isso seja preciso atravessar a voz modorrenta de um pai que num capítulo curto repete quatro vezes “a verdade é que/a questão é que”, entre outros tiques que, se não impedem a leitura (é um bom livro), contribuem para afastar o leitor de quem ele deveria sentir empatia. 

Romance necessário para entendermos o que fizemos de nós mesmos, Crocodilo tem a verve dos bons escritores, e se equilibra nos próprios erros para cumprir o que promete: se há um protocolo, leia-o e rasgue. Ao fim da leitura, aliviado, o leitor agradece. 

*MATEUS BALDI É ESCRITOR E CRÍTICO LITERÁRIO. FUNDOU EM 2006 A PLATAFORMA DE CRÍTICAS DE LITERATURA 

CONTEMPORÂNEA ‘RESENHA DE BOLSO’

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