Ivan Alvarado/Reuters
Ivan Alvarado/Reuters

Romance de Mario Vargas Llosa e peça de Reinhard Lettau examinam ditadores da América Latina

'Tempos Ásperos' mostra o golpe patrocinado pela C.I.A. na Guatemala em 1954 e 'Breakfast Conversation in Miami' é uma sátira aos déspotas cucarachas

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2020 | 16h00

A sistemática humilhação dos generais da ativa pelo “mau soldado” (apud Ernesto Geisel) que há 22 meses dá as ordens no Palácio do Planalto intriga cada vez mais o comentariado político, para não falar dos psicanalistas, os mais abalizados intérpretes das perturbações mentais do presidente. 

O mínimo que se pode dizer dos militares, no momento, é que eles, mesmo sem protagonizar um golpe de Estado, voltaram à berlinda, uns porque humilhados pelo ex-capitão, outros porque premiados com uma boquinha no governo (6.157 oficiais, pela última contagem, fora os 1.249 lotados no sistema de Saúde). Mas não apenas por isso.

Destaques também nas livrarias, com o novo romance histórico de Mario Vargas Llosa Tempos Ásperos, sobre o golpe patrocinado pela C.I.A. na Guatemala em 1954, soube esta semana que pretendem encenar de novo uma peça (Breakfast Conversation in Miami) articulada em torno de sucessivos cafés da manhã de um grupo de ex-ditadores militares latino-americanos exilados em Miami.

Sua existência me foi revelada em 1984, por Paul Berman, crítico do semanário The Village Voice, que me deu a dica (“Você que vive sob uma ditadura militar merece se divertir às custas de meia dúzia de gorilas exilados”) e o local do espetáculo: The American Place Theater. Nossa ditadura estava já nos estertores; minha catarse foi redobrada.

Escrita no final dos anos 70 por um alemão, Reinhard Lettau (1929-1996), é uma sátira aos déspotas cucarachas cuja cafonice só não nos horroriza mais do que sua rapacidade e sua vocação homicida. Meia dúzia da espécie, clones do trio Batista-Somoza-Pinochet e quem mais se encaixe no estereótipo (bigode, óculos escuros etc), remoem em patéticos desayunos em Miami a nostalgia do poder e a vida mansa que lhes asseguram as fortunas estocadas em bancos suíços e outros paraísos fiscais. 

À espera de um indulto que lhes permita voltar e nunca chega, falam pelos cotovelos e, enfaticamente, sobre atentados políticos, torturas e obsessões paralelas. Desdenham da democracia (“uma superstição baseada em estatísticas”, rosna um dos generais) e se perdem em questões que só na cabeça deles não são irrelevantes.

Qual o uniforme ideal para um ditador? Os ministros civis também devem vestir farda? Quantos ministros devem passar as férias na companhia do presidente, para diminuir as chances de um golpe de Estado? 

A certa altura, um dos comensais admite, vexado, que o único recurso natural de seu país é o terremoto. O efeito cômico dessa confissão é tão devastador quanto o anúncio das mudanças radicais impostas pelo ditador de Bananas, a comédia de Woody Allen. Reavivo a memória de vocês: o ditador, general Emilio Vargas, mandachuva da republiqueta sul-americana de San Marcos, decretava o sueco como língua oficial do país e obrigava os homens a vestir a cueca sempre do lado de fora das calças. 

Menos pelo Vargas do que pelo Emilio (nosso presidente na época era o general Emilio Garrastazu Médici), Bananas foi proibido pela Censura. 

De vez em quando os ex-ditadores da peça são interrompidos por um professor de Harvard, que cumpre a dupla função de sofisticar um pouco a tertúlia com jargões políticos e manter os milicos a par dos últimos lances das telenovelas que, “por força das circunstâncias”, tiveram de abandonar ainda nos primeiros capítulos.

Com boa vivência de EUA, onde deu aulas de literatura alemã em San Diego e teve uma filha que virou cantora de jazz, Reinhard Lettau também foi contista e um persistente inimigo do grupo editorial Springer. Sua comédia é uma mistura de Bananas com Primavera para Hitler, de Mel Brooks, e Top Girls, a cáustica psicanálise grupal da britânica Caryl Churchill.

Um de seus momentos mais divertidos é quando um dos ditadores admite que em seu governo havia censura, “mas ninguém notou porque os jornais nunca tocaram nesse assunto.” Como não lembrar do general Médici gabando-se de seu governo, o mais repressivo e sanguinário da ditadura militar, ser “o mais calmo de toda a República”? Ou de Bolsonaro vangloriando-se de haver extirpado a corrupção no País? Ou, ainda, de Trump, autossagrando-se como o presidente mais antirracista da América?

Lettau incorporou ao espetáculo alguns episódios bizarros do folclore político bananeiro. Em 1979, o general Carlos Humberto Romero foi destronado em El Salvador por, entre outras coisas, fraudar eleições na marra e à luz do sol sequestrando as urnas. Deposto por telefone, virou personagem de uma piada popularíssima na América Central, que Lettau anexou a seu texto e sempre vale a pena recordar. 

Estava Romero num bote salva-vidas, com o então presidente americano Jimmy Carter e o papa, quando o bote começou a fazer água. Carter foi o primeiro a notar: “Precisamos aliviar o peso do bote, do contrário todos morreremos afogados.” E emendou: “Acho que eu devo ficar no bote porque, afinal de contas, sou o presidente do país mais poderoso do mundo.” O Papa interveio: “Nada disso, meu filho. Se apenas um de nós merece ficar, esse alguém tem de ser eu, que sou o líder espiritual da maior Igreja do planeta”. 

Já meio impaciente, o general tirou os óculos escuros, alisou com a mão o bigodinho, e em posição de sentido da cintura para cima, pois se algum deles se levantasse o bote fatalmente viraria, propôs: “Como sou o maior democrata a bordo, sugiro que façamos uma votação para decidir quem fica no bote.” Proposta aceita, eleição feita. O general ganhou por oito votos. 

 

Tudo o que sabemos sobre:
literaturateatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.