Avery Jensen/National Book Festival
Avery Jensen/National Book Festival

Romance de mistério de Louise Penny imagina o mundo pós-covid

Spoiler: as coisas ainda estão muito complicadas depois da pandemia

Carol Memmott, The Washington Post

03 de setembro de 2021 | 10h00

Um dos livros mais esperados é State of Terror (Estado de Terror, em tradução livre), um thriller político coescrito por Hillary Clinton e a escritora canadense Louise Penny. Até sua publicação, em outubro, os fãs de Penny podem se deleitar com The Madness of Crowds (A Loucura das Massas, em tradução livre), 17º livro da adorada série assinada por ela focada no Inspetor Chefe Armand Gamache. Mas fica o aviso: The Madness of Crowds não é uma válvula de escape. O vilarejo bucólico de Three Pines, onde a maior parte dos romances de Louise Penny são ambientados, não foi poupado da covid-19.

Este seu mais recente romance oferece pouca coisa no sentido de um bálsamo reconfortante para os nervos em frangalhos depois de meses de isolamento e quarentena. Os arrepios não vêm das geladas temperaturas de inverno no Quebec, mas da trama distópica e da desconfortável lembrança dos piores dias da pandemia.

Lares de idosos foram duramente castigados pela covid-19 e suas populações vulneráveis morreram em números recorde. Um fato que ocorreu de verdade no Canadá e supomos que Penny ficou tão comovida por essas perdas dolorosas - ela dedica o livro aos trabalhadores da linha de frente do combate à covid-19 - que decidiu inserir a tragédia em 'The Madness of Crowds'.

Quando a história começa, tudo parece bem. É final de dezembro e os moradores de Three Pines estão em festa. Ao contrário da vida real, a pandemia acabou e o bistrô, a livraria e a padaria do local estão abertas, com as festividades de fim de ano se realizando. É durante este período de esperança renovada que Gamache é chamado para oferecer segurança para uma palestra na faculdade local. Como chefe do departamento de homicídios da Sûreté du Quebec, é um pedido inusitado, mas ele aceita prontamente.

A palestrante convidada é Abigail Robinson, uma controvertida estatística contratada pelo governo canadense para analisar dados relacionados à pandemia no país. De acordo com sua análise, os doentes e idosos estavam usando demais os recursos do país durante a pandemia. Em outras palavras, aquelas pessoas mais vulneráveis ao novo coronavírus, que de qualquer maneira morreriam logo, estavam sobrecarregando as finanças públicas, os suprimentos médicos e pessoal da saúde. Trata-se, diz ela, “de uma crise intensificada, mas não criada, pela pandemia”.

A solução que ela fornece é terrível, mas não sem precedentes. E é melhor que os leitores descubram sua recomendação por meio de Gamache, que presenciou em primeira mão os mortos e moribundos nos asilos. O que ele viu o marcou e “foi uma vergonha que ele carregaria por toda a vida. Não que ele tenha abandonado essas pessoas, mas Quebec abandonou. Os quebequenses abandonaram. E ele, como um oficial veterano da polícia, não percebeu mais cedo que isso poderia ocorrer numa pandemia”.

Enfurecido e assustado, Gamache pede ao diretor da faculdade para cancelar o evento. Ele é acusado de repressão da livre expressão e o evento continua. Não surpreende que o aparecimento de Abigail Robinson desencadeia o caos e há uma tentativa contra a vida da professora.

Gamache precisa descobrir quem está por trás do ataque e se essa pessoa também é culpada de um assassinato ocorrido logo depois. E o mais importante, têm de elucidar os motivos. Ele tem relação com a diatribe de Robinson? Trata-se de um assassinato por vingança, um caso de identidade trocada ou alguém decidiu tomar medidas extremas para impedir que as ideias de Robinson contaminem o mundo?

Os melhores thrillers e histórias de mistério estão no nível de romances sociais, dando aos leitores a oportunidade de confrontar problemas difíceis à nossa frente. Os romances de Louise Penny sempre são orientados por isso (como também o amor da família e amigos).

'The Madness of Crowds' talvez seja um dos trabalhos mais sombrios da escritora, mas ainda nos sentimos aliviados diante da beleza natural de Three Pines e seus singulares moradores que adoraríamos ter como vizinhos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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