Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Romance ‘Eliete’ trata do hiato entre o real e mundo digital com protagonista que entra no Tinder

Dulce Maria Cardoso analisa três gerações de mulheres portuguesas marcadas pela ditadura de Salazar

Giovana Proença, Especial para o Estadão

06 de agosto de 2022 | 16h00

À moda de Flaubert, Dulce Maria Cardoso afirma: “Eliete sou eu”. Mas, não só ela. A autora acredita ser todas as personagens que já escreveu. O mais curioso é que as leitoras também abraçam a identificação. Não faltam mensagens à Dulce: “Somos todas Eliete”.

O primeiro volume da trilogia Eliete: a Vida Normal chega ao Brasil pela Todavia e poderia ser uma parábola moderna sobre a domesticidade. Mas, o banal logo é desfeito. Em um fingimento que remete a Fernando Pessoa, Eliete cria uma persona que navega no Tinder. O catalisador da mudança é a doença da avó. Junto à mãe, as três gerações alimentam uma relação ímpar de amor e ressentimento. 

O romance tem ainda outra camada: as cicatrizes do salazarismo. Ao todo, a ditadura portuguesa perdurou por quase cinco décadas. Dulce transfigura em sua trama o assunto, pouco tratado na literatura no país. “Quando há uma duração tão prolongada, as próprias vítimas deixam de ter consciência de que são vítimas e deixam de utilizar isso como ficção”, afirma a autora, que respondeu por áudio às perguntas do Aliás

Em Eliete, as personagens são confrontadas pelas consequências do regime salazarista. Por que você quis explorar a temática da ditadura portuguesa?

Agora é mais claro do que quando eu estava escrevendo o romance, publicado em 2018 em Portugal. Eu já pressentia que seria assim, nós estávamos passando por uma mudança ideológica. Eu quis investigar o que era esse normal, que nós entendíamos e julgávamos como garantido. Não existia extrema-direita no parlamento português. Em um curto período, agora ela é a terceira maior força política. Julgava-se que Portugal, por ter tido uma Revolução há tão pouco tempo, estava imune à extrema-direita, apesar de ela avançar em todo o mundo. Mas, quando eu escrevo, nunca tenho só uma intenção. Algo que eu possa dizer: “Quis fazer isso”.

Eliete, sua protagonista, é também a narradora do romance. O uso da primeira pessoa pode ser arriscado, pois toda a história passa pela ótica da personagem. Qual foi a sua intenção com essa escolha?

Como diz Flaubert: Eliete sou eu. Ou melhor, Eliete também sou eu. Porque não sou só Eliete, sou todas as personagens que já criei. Escrever na primeira pessoa tem a ver com a maneira como a voz me aparece. Não há uma resposta racional. Acho que esse é um dos deslumbramentos da escrita: a possibilidade de experimentar ser outro, mantendo o eu. Eu poderia ter tido a vida da Eliete. Uma coisa que me agradou depois que escrevi o romance foi receber mensagens de mulheres dizendo: “Eu sou Eliete”, “Eu poderia ser Eliete”, “Somos todas Eliete”. 

Um dos grandes trunfos do romance é o modo como são tocados os laços familiares. Como foi construir esses afetos que ultrapassam diferentes gerações de uma família?

Flannery O’ Connor, escritora norte-americana, disse que quem sobrevive à infância tem matéria para escrever para o resto da vida. Eu digo que é quem sobrevive à família. Quase tudo que é verdadeiramente importante se passa em família. Não apenas por ser a pequena célula constitutiva e uma espécie de laboratório da sociedade, mas também porque é no seio familiar que acontece a melhor demonstração de amor, mas também de ódio e de crueldade. Não há nada mais cruel do que o desamor em família. É uma condição de sangue, muitos de nós não escolheriam aquelas pessoas, mas estamos condicionados a amá-las profundamente. É natural que eu esteja sempre à volta da família e de suas tensões. Não há família que não passe por essa montanha-russa de sentimentos, de afetos que vão do amor ao ódio. 

Para fugir da realidade, Eliete finge ser outra pessoa. Mas, seria a vida doméstica, que ela considera banal, também um papel a ser representado?

Todos nós representamos papéis em nossas vidas. Faz parte da convenção social. Aceitamos os papéis que os outros nos atribuem e os papéis que atribuímos aos outros, depois há uma espécie de teatrinho em funcionamento. A literatura espelha isso, a Eliete também representa um papel, que depois parece descarrilar. Penso que cada um de nós, em determinado momento da vida, também passa por isso, porque há sempre coisas que fazemos que são muito diferentes do papel que nos atribuíram. É bastante perturbador uma pessoa cumprir, por toda a vida, o que os outros esperam que ela faça. Penso que é um caso de sociopatia. 

O subtítulo do livro (‘A vida normal’) chama atenção por conter uma ironia. Nada é ordinário na vida de Eliete. É possível uma vida estar completamente dentro da normalidade?

Visto de perto, ninguém é normal. Cada vez menos se sabe o que a normalidade. O que é visto como normal por algum grupo não é o mesmo para o grupo ao lado, que tem hábitos muito diferentes. Cada vez mais, estamos desunidos, o esforço que temos não é para nos unirmos, mas sim para arranjar diferenças intransponíveis para nos separar. Por isso, o conceito de normalidade é cada vez mais estranho. 

ELIETE: A VIDA NORMAL 

DULCE MARIA CARDOSO 

EDITORA: TODAVIA 

432 PÁGINAS - R$ 69,90 / R$ 44,90 (E-BOOK) 

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