MICHAEL COOPER/CANADIAN OPERA COMPANY
MICHAEL COOPER/CANADIAN OPERA COMPANY

Romance em versos de Aleksandr Puchkin ganha nova tradução

Uma das obras fundamentais da literatura russa, 'Eugênio Onêguin' é um desafio para tradutores e até Vladimir Nabokov sofreu para verter o livro

Irineu Franco Perpetuo*, Especial para o Estado

25 de maio de 2019 | 16h00

A pedra de toque da literatura russa está chegando ao Brasil pela metade. A Ateliê Editorial acaba de lançar o primeiro volume do seminal romance em versos Eugênio Onêguin, de Puchkin, em cuidadosa tradução de Alípio Correia de Franca Neto e Elena Vássina, uma edição bilíngue com o mais luxuoso revisor que qualquer livro dessa área poderia ter: o pai fundador dos estudos de russo no Brasil, e maior tradutor que já houve desse idioma para o português, Boris Schnaiderman (1917-2016).

Isso significa que temos os quatro primeiros dos oito capítulos do romance – a apresentação do personagem-título, a carta em que Tatiana se declara a ele e a posterior rejeição de Onêguin, com a ação interrompida às vésperas da funesta comemoração do dia do santo da moça. Felizmente, está prometido um segundo volume, que deve trazer não apenas a conclusão da obra, como apêndices com variantes do texto, a célebre e descartada Viagem de Onêguin, ensaios sobre a obra e um texto no qual os tradutores explicam os princípios teóricos e técnicas que nortearam suas escolhas.

Descendente de africanos, morto prematuramente em um duelo, Aleksandr Puchkin (1799-1837) é o caso mais flagrante de desequilíbrio na recepção literária de um escritor em sua terra natal e no Brasil. Se, por aqui, ele é bem menos reconhecido e festejado do que autores como Dostoievski, Tolstoi e Chekhov, na Rússia é objeto de culto e veneração – o “sol da poesia russa”, de importância equivalente a Shakespeare para os ingleses, Goethe para os alemães, Dante para os italianos, Camões e Cervantes para os ibéricos. “Puchkin é nosso tudo”, cravou o literato Apollon Grigoriev (1822-1864), em frase constantemente citada. Uma boa dimensão do peso e do significado de Puchkin para a cultura russa é dado no romance Parque Cultural, lançado no Brasil pela editora Kalinka, no qual Serguei Dovlatov (1941-1990) descreve, com ironia mordaz, sua experiência como guia de um parque temático inteiramente dedicado ao autor de Eugênio Onêguin.

Um dos motivos para a discrepância entre o reconhecimento de Puchkin na Rússia e fora dela é o fato de parte substancial de sua obra estar em versos, sempre mais difíceis de manterem a força ao serem vertidos para línguas estrangeiras. É o caso, por exemplo, de Onêguin, definido pelo crítico Vissarion Bielinski (1811-1848) como “enciclopédia da vida russa”, custando ao autor nove anos de trabalho. Em uma célebre análise, Roman Jakobson (1896-1982) disse que “cada imagem de Púchkin é de uma polissemia tão elástica, e de uma capacidade assimilatória tão espantosa, que ela se insere facilmente nos mais variados contextos”.

Embora tenha inspirado espetáculos de dança de John Cranko e Deborah Colker, um longa-metragem de Ralph Fiennes e a mais bela ópera de Tchaikovski, o romance em versos vem constituindo um desafio ingrato para tradutores de todos os idiomas. O mais monumental fracasso foi o de Vladimir Nabokov, perfeitamente bilíngue, que empreendeu uma monumental versão da obra para o inglês, cujas notas de rodapé e comentários ocupam mais de mil páginas – o tripo do texto traduzido. Com uma abordagem literalista, abrindo mão dos aspectos poéticos da obra, Nabokov realiza uma verdadeira “autópsia” do texto, indispensável aos estudiosos de Puchkin, mas sua tradução passa muito longe de recriar o encanto e a musicalidade propiciados pela leitura do original.

No Brasil, a Record lançou, em 2010, uma versão de Dário Moreira de Castro Alves, recebida com pouco alarde. Para ilustrar as diferenças entre aquela edição e a atual, reproduzimos o mesmo trecho da missiva de Tatiana a Onêguin. 

Na tradução anterior: “Mal tu entrastes, conheci./E a desmaiar, por dentro ardia,/Há de ser ele, já pensava!/Não é verdade que eu ouvia/Em plena calma o teu falar:/Quando eu aos pobres assistia/E, orando, alívio então pedia/Contra a angústia a me agitar?” E na versão nova: “Mal você entrou, soube de olhá-lo,/Senti calor, senti um abalo,/E disse mentalmente: 'Ei-lo'/Não foi verdade?, eu escutá-lo?/Ter-me falado na quietude,/Ao dar aos pobres um regalo/E orar para ter algum final o/Anseio da alma na inquietude?”

Ricamente anotada, a tradução de Correia e Vássina compartilha tem reflexões trazidas por Nabokov e pelo minucioso estudo realizado pelo semioticista Iuri Lotman (1922-1993). Resta torcer para que o lançamento do segundo volume não tarde, para que os leitores brasileiros possam desfrutar da obra-prima de Púchkin na íntegra.

*IRINEU FRANCO PERPETUO É TRADUTOR E CRÍTICO

Tudo o que sabemos sobre:
literaturaAleksandr Puchkin

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.