Madinin Arts
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Romance fundador da literatura haitiana moderna chega ao Brasil

'Senhores do Orvalho', de Jacques Roumain, mescla mito e história no Haiti

Caio Sarack*, Especial para o Estadão

05 de dezembro de 2020 | 16h00

O primeiro gesto literário que me chamou a atenção em Senhores do Orvalho, de Jacques Roumain, foi a familiaridade distante do narrador. A personagem que regressou para sua terra natal faz com que o narrador observador perceba uma proximidade teimosa, mas nunca vivida plenamente. "Com uma olhada, o homem saudou de novo aquela paisagem reencontrada (...) Quando somos de um lugar, se nascemos nele, digamos, nativo-natal, pois bem, nós o temos nos olhos, na pele, nas mãos com a cabeleira de suas árvores, a carne de sua terra, os ossos de suas pedras, o sangue de seus rios, seu céu, seu sabor, seus homens e suas mulheres, é uma presença indelével no coração" (p. 22). Que vínculo é este que a personagem tem com este lugar, afinal? Tão forte na beleza das comparações feitas pelo narrador, mas produz em nós leitores o desajeitado de alguém que precisa tatear demais a coisa com que teria intimidade.

Lendo o posfácio da professora Eurídice Figueiredo e sua estratégia expositiva, percebi que a coincidência de receber "Senhores do orvalho" para resenhar e minha história intelectual de leitor encontravam-se sem método. Estar diante de uma obra fundadora da literatura haitiana e poder reconhecer nela expedientes da literatura latino-americana e europeia do século 20 reacendem os problemas essenciais da escrita crítica sobre literatura. Há como analisar uma obra sem que extraviemos conceitos exóticos a ela? Ou ainda: há como fazê-lo?

As demandas que recebem os resenhistas e críticos são todas elas mediadas por um trabalho nada abstrato, acredito eu. Desde os causos do professor Antonio Candido que tinha de se virar para dar conta dos muitos livros que tinha de resenhar para os jornais em suas notas literárias junto a todas as obrigações de professor e intelectual, sempre permanecemos – dentro e fora deste tempo – na esteira do trabalho acumulado. A discussão sobre a tarefa mesma do crítico não é sem motivo, lidar com a ignorância diante de um objeto é uma sensação para a qual não fomos preparados mesmo que seja inevitável. 

Produzir uma leitura que aprecia as dimensões estéticas e também éticas de um livro pode ser ao mesmo tempo muito bem segura, haja vista a própria aura da arte que se dobra e desdobra às formas e conformações da cultura massificada, e acaba por acalmar a expectativa do leitor de críticas e resenhas hoje em dia; ou ao contrário, muito belicosa por conta do papel cultural da identidade social de autorias fora do cânone e suas demandas por reconhecimento. O crítico diz muito para nada (no caso da cultura massificada) ou o crítico diz pouco sem merecer (no caso das demandas de reconhecimento de autores fora do cânone).

Para além de pensar sobre o processo de leitura e crítica desta bela edição que tenho em mãos do Senhores do Orvalho (Carambaia, 2020) do escritor haitiano Jacques Roumain, este texto tem um papel inusitado e subterrâneo de crônica, porque emularia – segundo este que lhes escreve – uma experiência apropriada pelo livro: o desconforto em terra natal.

Sinto-me como Jacques Roumain diante de seu povo haitiano, eu e ele estamos mais próximos – em um sentido específico, claro – do que ambos estamos da negritude haitiana que ele tenta compreender e dar forma. O autor, o leitor-crítico e as personagens criam um círculo estranho de parentesco. Eurídice nos escreve que Jacques Romain foi estudar na Europa, fundador do Partido Comunista haitiano, fundou Centro de Etnologia (1941) no Haiti com o interesse similar ao das vanguardas modernistas (primitivo e negritude vistos pelo olhar do ocidente). O filho de negociante foi estudar para então olhar a si mesmo como um estrangeiro. 

A diferença e semelhança entre a posição do narrador e a do autor transpassam este romance haitiano, mas também traz num só golpe todo o debate da ciência da literatura: Romain não é Manuel (protagonista de Senhores do Orvalho), mas Romain assume a matéria nacional do Haiti tal como Manuel: distante há muito tempo, reconhece-se na terra natal, mas guarda um desconforto com ela; ao mesmo tempo nostálgico e científico. Pela procura em estar de volta à sua terra, Romain surge para mim (leitor e crítico) como um narrador participante e espectador distanciado, não há como vê-lo de outro modo.

O interesse dessa aproximação entre mim e Jacques Roumain surge também matizado: não temos o horror conservador pelo apagamento das tradições ancestrais das terras natais (Brasil ou Haiti), mas reconhecemos suas forças. Ler Senhores do Orvalho, livro da década de 1940, não nutre o discurso nacionalista que reivindica uma essência haitiana legítima, mas como pontuou um vizinho dominicano, professor Pedro Henrique Ureña, em seu A utopia da América, "A universalidade não é a desnaturalização: no mundo da utopia não deverão desaparecer as diferenças que surgem do clima, da língua, das tradições, mas todas estas diferenças, em vez de significar divisão e discórdia, deverão combinar-se como diversos matizes da unidade humana". 

Ao lermos a bela literatura de Jacques Roumain não somos tomados pelo elogio às tradições e cores locais como diferenças intransponíveis, ao contrário, notamos o sentido humano diante das coisas da vida, dos choques supersticiosos, das violências e carinhos cotidianos. Somos como a mãe de Manuel, que recebe o filho depois de muito tempo e que lhe diz: 

"– Não quero mais te ouvir – disse Délira, balançando a cabeça. – Tuas palavras parecem a verdade e a verdade talvez seja um pecado." (p.35).

*CAIO SARACK É MESTRE EM FILOSOFIA PELA USP, PROFESSOR DO INSTITUTO SIDARTA E DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DO MORUMBI

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