Walt Disney Pictures
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Romance histórico investiga as inspirações de C.S. Lewis em 'As Crônicas de Nárnia'

Obra de Patti Callahan ficcionaliza o período em que o autor de 'O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa’ viveu

Keishel Williams, The Washington Post

08 de novembro de 2021 | 10h00

Quando a autora Patti Callahan começou a mergulhar na vida de C.S. Lewis, foi por causa da esposa dele, muito mencionada, mas pouco estudada, a poeta e escritora Joy Davidman. Três anos depois de publicar seu primeiro romance histórico, Becoming Mrs. Lewis, Callahan retorna a esse solo fértil com Once Upon a Wardrobe, revisitando o ano que Lewis passou em Oxford, trabalhando em seu livro mais famoso, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa.

Situado em dezembro de 1950, o romance segue Margaret Louise Devonshire (Megs), uma cartesiana estudante de matemática e física, de 17 anos, que assume uma tarefa dada por George, seu irmão de 8 anos, que está muito doente. Ele quer que Megs faça uma pergunta ao autor do romance recém-lançado O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa: “De onde veio Nárnia?”

Por sorte, Megs frequenta o Somerville College, na Universidade de Oxford, a uma agradável caminhada de onde Mr. Lewis leciona, no Magdalen College para rapazes. Mas o amor de Megs pela lógica a faz questionar sua tarefa. Quando George explica que precisa saber se Nárnia – terra de castores falantes e de uma bruxa malvada – é real, Megs recua. “É um livro para crianças”, diz ela. “Claro que não é de verdade”.

Será? Como Mr. Lewis explica durante sua primeira visita à casa dele, “A razão é a maneira como chegamos à verdade, mas a imaginação é como encontramos o sentido”.

A cada nova visita, Mr. Lewis conta a Megs uma história sobre sua vida, até mesmo sobre a infância passada inventando histórias com seu irmão, Warnie. Quando Mr. Lewis fala sobre cuidar de crianças afetadas pela Segunda Guerra Mundial, Megs e George ficam maravilhados – será que esta seria a inspiração direta para O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa? O que começa como uma missão duvidosa para Megs logo a transforma. Cética, ela se recusa a reconhecer o importante papel que as histórias desempenham na vida humana. Mas, à medida que ela mesma se torna uma contadora de histórias, também começa a acreditar. “Meu coração se abriu num turbilhão de risos e ventos, varrendo de lado a lógica que me mantinha tão trancada”, diz ela. “A lógica não consegue me ajudar nas coisas que importam para a alma”.

Amor, compromisso, família e, acima de tudo, esperança são temas fortes no romance. Cada membro da família Devonshire demonstra uma terna lealdade um ao outro, mesmo quando as coisas parecem sombrias. Mamãe se dedica ao trabalho do jardim, e Megs sabe por quê: “Ela não pode manter George vivo, mas pode manter as flores e plantas que crescem sob seus cuidados”. Papai, cujo desenvolvimento de personagem é comparativamente plano, mostra um lado mais suave quando finalmente lê O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa e incentiva George a falar a respeito.

Desprovida de pirotecnias, a história se desenrola com facilidade, assumindo um tom infantil, principalmente nas passagens com o personagem de George. Algumas cenas são particularmente vivas: “O sol do meio da tarde se assenta feito uma gema de ovo num mar de azul claro, desbotado em tons de inverno”, escreve Callahan. “Os alunos entram e saem correndo do prédio, pequenas nuvens saindo de suas bocas ou cigarros ou ambos”.

Once Upon a Wardrobe é uma bela continuação de Becoming Mrs. Lewis. É uma carta de amor aos livros e às histórias com uma mensagem significativa. Megs e sua família aprendem que contos fantásticos são mais do que meras maneiras de apaziguar crianças pequenas. As histórias são o alimento para as almas que mais precisam de alegria e, às vezes, são a única coisa que pode nos ajudar a entender a vida. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Keishel Williams é resenhista, escritora e editora de arte e cultura.

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