Valéria Gonçalvez/Estadão
Valéria Gonçalvez/Estadão

Romance histórico narra tentativa de golpe a Juscelino Kubitschek

Em 'O Último Tiro da Guanabara', Bruna Meneguetti reúne influências da literatura latino-americana à fantasia

Ana Rüsche*, Especial para o Estado

09 Fevereiro 2019 | 16h00

Com minúcias e reviravoltas, O Último Tiro da Guanabara narra a crise política que antecede a posse de Juscelino Kubitschek em 1955, um ano após o suicídio de Getúlio Vargas. Preservando fatos e principais personalidades, o romance de Bruna Meneguetti constrói um alicerce firme para narrar a inacreditável ofensiva do Exército contra um navio da Marinha em plena luz do dia na Baía da Guanabara – no navio, estava o então presidente (por apenas quatro dias) e conspirador Carlos Luz – para que fosse garantida a posse de JK. O livro será lançado hoje, 9, às 17h, com a presença da autora, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima (R. Henrique Schaumann, 777). No domingo, 10, Bruna Meneguetti oferece um workshop sobre inscrições em editais literários, no mesmo local, a partir das 15h.

O romance é apresentado do ponto de vista do personagem Isaías Monteiro. Cego, o protagonista possui um dom fantástico e fatídico: prever o futuro. Diante de um cenário político, em que o porvir se altera a cada hora, Isaías procura salvar a vida da amiga de infância Cecília, cuja sorte parece atrelada aos rumos do golpe preventivo do Marechal Lott. Para piorar, Isaías nunca se interessou por política.

A obra situa-se no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. A maior parte das ações passa-se no espaço privado – quem lê penetra nas rodas de conversas de coquetéis e escutar conchavos pelas quinas do Palácio do Catete. Em uma técnica de revelar vozes subalternas, a autora penetra nas brechas da historiografia e revela personagens esquecidas: mulheres, trabalhadores, soldados, todos peças-chave na configuração do romance.

Preenchendo, assim, as frestas da historiografia tradicional, Meneguetti traz para o primeiro plano ações de personagens reais, a exemplo da futura primeira-dama Sarah Kubitschek e do motorista Geraldo Ribeiro, apelidado de Platão (na vida real, Platão irá morrer no mesmo acidente que vitimou JK, em 1976, então pretenso candidato se houvesse a restituição ao regime democrático). Ao mesmo tempo, a autora insere personagens fictícias, como a jornalista Penélope Barros e a articuladora Brasiliana Silva, atendendo à demanda feminista ao gosto do século 21. Na obra, mulheres são responsáveis por articular diálogos, transacionar informações sigilosas e realizar ações arriscadas, incluindo um final no melhor estilo thriller. Se cabe uma crítica a essa técnica, talvez seja o fato de que nem nos dias de hoje homens em posição de poder ouviriam com tanta atenção conselhos vindo de mulheres. Outro aspecto contemporâneo da narrativa é a preocupação em salientar o capacitismo e o racismo da época, refletindo-os no agora. 

Meneguetti reforça, então, o romance histórico na literatura brasileira. Com diálogos retirados, muitas vezes, da íntegra de discursos reais, frisa a linha tênue da democracia brasileira e as batalhas ambíguas para se assegurar processos eleitorais. Um retrato do Rio de Janeiro no qual, diante de um bombardeio, as rádios não trazem notícias e somente tocam músicas agradáveis.

Em sua reconstituição histórica, retoma a tradição de obras que trazem como centrais vozes invisíveis para a historiografia clássica, a exemplo de Desmundo, de Ana Miranda (1996), e Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves (2007). Também trabalha, em um contínuo, a examinar temas históricos presentes em Agosto, de Rubem Fonseca (1990), e O Marechal de Costas, de José Luiz Passos (2016). Do panorama latino-americano, Meneguetti apresenta influências pontuais do “romance de ditador” ao trazer toques caricaturescos a Carlos Lacerda, Carlos Luz e, até mesmo, ao Marechal Lott. Esse subgênero explora as idiossincrasias do autoritarismo com criações satíricas, inverídicas e fantasiosas, mas não por isso menos críticas. Exemplos dessa linhagem são o precursor O Senhor Presidente, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias (1946), Eu, o Supremo, do paraguaio Augusto Roa Bastos (1974), e O Outono do Patriarca, do colombiano Gabriel García Márquez (1975). Menos usual, Meneguetti recorre à literatura fantástica. Embora o tratamento todo da trama seja rigorosamente realista, até mesmo exaustivo nas minúcias historiográficas, o motor da narrativa gira em torno do elemento fantástico: a capacidade de prever o futuro. A figura do vidente cego é central para a justificativa dos acontecimentos históricos. 

Nada mais em sintonia com fantasismo, termo cunhado por Bruno Anselmi Matangrano para expressar a tendência atual no Brasil de valorizar o fantástico na literatura. Quando Fredric Jameson se pergunta “o romance histórico ainda é possível?”, frisa a necessidade de se produzir mais invenção (Novos Estudos Cebrap, n. 77, 2007). No contexto irrealista brasileiro, em uma historiografia enrolada e pouco crível, com frequentes camadas de tensão entre o discurso oficial e os acontecidos, talvez imiscuir o fantástico literário seja uma chave imaginativa útil para, a partir da reconstituição do passado, explicar o agora.

O Último Tiro da Guanabara é o terceiro livro de Bruna Meneguetti, vencedor de edital da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. É publicado pela Reformatório, editora que, desde 2013, se dedica à literatura contemporânea brasileira, abrigando livros de contos, poesia e romances, dando guarida a autores menos conhecidos ou a obras mais experimentais, perfazendo o papel fundamental de incentivar a semeadura de formas menos prováveis na literatura brasileira. O novo livro de Meneguetti é um exemplo dos caminhos viáveis por onde nossa prosa pode ainda vaguear.

*ANA RÜSCHE É AUTORA DE ‘DO AMOR’ (EDITORA QUELÔNIO) E ‘FURIOSA’. MANTÉM O PODCAST ‘INCÊNDIO NA ESCRIVANINHA’ 

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