Roberto Serra/The New York Times
Roberto Serra/The New York Times

Romance metalinguístico de Waldecy Tenório evoca Umberto Eco

'O Manuscrito de la Maga' enreda suspense em torno de um livro perdido há vários séculos

Faustino da Rocha Rodrigues*, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2019 | 16h00

Publicado recentemente pela Desconcertos Editora, O Manuscrito de La Maga estimula um interessante diálogo dentro da ficção ao mobilizar clássicos. Enredando um suspense em torno de um livro perdido há vários séculos, Waldecy Tenório escreve sobre a escrita de uma obra. 

Em meio a tantos títulos mencionados, com suas histórias e personagens característicos, fica clara a admiração pessoal de Tenório por titãs da literatura mundial. Esse é o caso de Cortázar – sobretudo com O Jogo da Amarelinha, de onde emerge La Maga em sua trama – e, essencialmente, Umberto Eco, com o notório O Nome da Rosa.

É curioso o artifício utilizado pelo autor para contar a história. Durante todo o tempo a literatura universal é evocada como gênero artístico maior. Como tentativa de demonstrar essa devoção, constrói uma narrativa em que desponta a construção de um livro, aquele mesmo que está sendo lido: O Manuscrito de La Maga. Não por acaso o subtítulo: Uma Investigação Bibliográfica. 

Ao lê-lo, notamos o cuidado do autor com os seus admirados clássicos literários. La Maga, a instigante dama de Cortázar, é apenas a primeira. Outro exemplo é Maigret, o inquieto inspetor policial dos romances de Simenon. Ao recorrer aos personagens clássicos, Tenório lhes dá voz, permitindo com que comentem e reflitam as próprias obras das quais fazem parte. Talvez, nesse caso, esteja presente a veia docente do autor, licenciado em Letras Clássicas. Com o recurso, confere-nos uma possibilidade de entendimento da literatura que vai além do próprio romance. 

A inquietação de Maigret, em grande medida, funciona como uma espécie de fio condutor para a resolução do enredo. A angústia do leitor se depara com a frieza do detetive parisiense. Isso porque o enredo de O Manuscrito de La Maga é povoado pelo suspense em torno da busca de um livro perdido de Santo Agostinho, De Pulcro et Apto (O Belo e o Conveniente). É La Maga quem inicia a busca com o protagonista Gabriel Blue, narrador, recorrendo à investigação policial. 

Como em muitos romances policiais, o interessante não é a tensão gerada com o encontro da obra perdida. A procura, nesse caso, como um bom livro de suspense, se sobrepõe e povoa a imaginação do leitor. É a busca pela literatura perdida que faz com que a obra seja confeccionada. Desse modo, Tenório sugere que a literatura é um permanente processo de construção, exigindo ao mesmo tempo um conhecimento mínimo de diálogo com a contemporaneidade, imaginação e História – Agostinho e diversos outros autores de seu quilate são bem situados na trama. 

Esse processo de construção, conforme sugere o livro, pode transcender a própria obra literária. A possibilidade de tal avanço se dá com a literatura. Assim é que Tenório retrabalha O Nome da Rosa, de Eco, insinuando até mesmo a sua continuação e um novo desfecho. Agostinho, autor da suposta obra perdida, como sabemos, é um dos fundadores do cristianismo, sendo, portanto, histórica e filosoficamente, um dos responsáveis pela configuração do universo cristão-ocidental como o conhecemos. Remeter a ele uma obra literária perdida, que, consoante sugerido pelo livro de Tenório, significa exigir uma visão mais ampla da literatura. Sendo mais preciso, se o cristianismo foi, definitivamente, um dos elementos responsáveis pela constituição de nossa sociedade tal como a conhecemos, a literatura estaria inevitavelmente presente nas vidas comuns – nas mesmas proporções em que estão os hábitos cristãos. 

Como dissemos, Tenório indica a necessidade de um conhecimento mínimo da História, da realidade e da contemporaneidade. Sem isso, o indivíduo, quem escreve ou lê, seria incapaz de desenvolver a imaginação necessária para a confecção e leitura de uma obra literária, seja ela qual for. A mobilização do leitor, feita em O Manuscrito de La Maga, ocorre justamente nesse sentido, tentando sensibilizar para fatos que são aparentemente supérfluos, simples, ignorados, mas que se fazem tão presentes como a nossa respiração. 

Gabriel Blue é crítico e professor de literatura aparentemente resignado – disso à apatia, falta pouco. La Maga, por sua vez, amante das letras, curiosa e, como descreveu Cortázar, instigante. Maigret, blasé, porém, inquieto na busca da solução de uma investigação. Tais elementos são fundamentais para a mobilização de uma escrita, da construção da dinâmica de uma narrativa rápida. O suspense na trama funciona como artifício para mobilizar o leitor em meio às infindáveis referências e citações a obras literárias. Gabriel Blue deve escrever uma obra sobre uma obra perdida. É possível fazê-lo? Bem, La Maga sentencia que, se o livro não existe, é preciso criá-lo.

Tenório brinca com o leitor. Isso porque não estamos diante da realidade. Antes de qualquer coisa, temos em nossas mãos nada mais nada menos do que... literatura. Neste ponto, não importa se o livro de Agostinho realmente existiu. Não importa se os fatos de O Nome da Rosa são verdadeiros. O que importa, antes de qualquer coisa, é a validade dada à literatura – a ficção. 

Nesse contexto, Tenório preocupa-se sobretudo em conferir um certo aspecto de realidade aos personagens clássicos. E, em boa parte, consegue. Pegamo-nos, ao longo da leitura, questionando a existência de Guilherme de Baskerville e Adso de Melk, criações de Eco, da queima proposital do segundo volume da Poética, de Aristóteles, e, inevitavelmente, da existência da obra perdida de Santo Agostinho. Eis a inferência ao diálogo com a realidade da criação das obras literárias citadas. É como trabalhar a ficção dentro da ficção.

É comum que as influências literárias de um autor não estejam tão evidentes em suas obras. Tenório, contrariamente, faz questão de frisar quem o influenciou. Por isso passeia por livros como O Nome da Rosa. Enfim, Tenório é ousado. Trabalha com a literatura no âmbito da ficção na ficção. Confere a ela a possibilidade de interpretação da realidade da escrita, da criação literária.

imultaneamente, sugere formas de lermos obras tomadas como clássicas, reposicionando, ao mesmo tempo que reforçando, esse seu caráter de clássico. Uma literatura da literatura.

*FAUSTINO DA ROCHA RODRIGUES É JORNALISTA, CIENTISTA SOCIAL E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS

Tudo o que sabemos sobre:
literaturaWaldecy Tenóriolivro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.