Daniel Boaventura/Divulgação
Daniel Boaventura/Divulgação

Romance narra jornada de homem e tartaruga para combater a solidão

Livro de Julia Dantas, escritora finalista do Prêmio São Paulo, fala da importância da escuta

Leonardo Piana, Especial para o Estadão

30 de julho de 2022 | 16h00

Sensível, desencantado e solitário, o porteiro Murilo aluga o apartamento de uma desconhecida, sem contrato nem garantias, onde —após várias tentativas de abrir a porta— encontra abandonada uma pequena tartaruga. Seu plano de seguir a rotina contando as semanas para uma viagem a Goiás, onde será possível consertar os erros que levaram ao fim de seu relacionamento, dá lugar a uma jornada improvável: encontrar quem possa ficar com o animal.

As indicações de possíveis hospedeiros para a tartaruga —que se chama Rodolfo, como descobrimos depois— vêm por e-mail, em correspondência do protagonista com Francesca, a proprietária do imóvel. Escritora hábil e misteriosa, Francesca se mostra uma grande contadora de histórias e desperta, nesse intercâmbio, o prazer de Murilo pela escrita, antes submerso em fracassos e desilusões, que vem à tona em pequenas incursões literárias.

É da jornada de Murilo com a tartaruga que emerge o estilo direto de Julia Dantas –esta, por sua vez, engenhosa narradora de encontros. Recém-lançado, Ela Se Chama Rodolfo (DBA, 2022), segundo livro da autora finalista do Prêmio São Paulo de Literatura com Ruína y Leveza (Não Editora, 2015), avança também como uma espécie de narrativa de estrada. Porém, se em Ruína y Leveza o trânsito das personagens se dá por diferentes países da América Latina, aqui acontece dentro de uma única cidade, uma Porto Alegre calorenta e distante dos cartões-postais.

Em meio à busca errante por alguém que aceite abrigar Rodolfo e a uma rotina morna de trabalho e bebedeira, o leitor acompanha os encontros e desencontros de Murilo. E talvez seja este o grande trunfo do livro: abrir-se para o acaso que nos leva a conhecer pequenas histórias —sonhos, afetos, perdas e fracassos— de personagens também transitórios.

É da universidade desses encontros com desconhecidos que vem a força de Ela Se Chama Rodolfo. São as histórias —aquelas aparentemente singelas e corriqueiras, mas recheadas de elementos fabulosos, se escutadas com atenção— o motor da vida de Murilo e das personagens que o circundam. Lembra-nos Phillipe Lejeune: “todos os homens que andam na rua são homens-narrativas, é por isso que conseguem parar em pé”. No tensionamento das relações de afeto e amizade do protagonista, origina-se o embate contra a solidão de alguém que parece buscá-la. Murilo precisa —e aprende a— olhar para o outro, inclusive para a tartaruga, e reconhecer o que é diferente de si, para só depois olhar para si mesmo.

Outras histórias chegam por e-mail, na mencionada interlocução do protagonista com Francesca. Para a narrativa, a correspondência é também um ganho. Esses elementos híbridos, dos fragmentos narrados em terceira pessoa e depois em primeira, com destinatário certo, resultam em uma leitura igualmente em trânsito, inquieta e difícil de largar.

Com a correspondência, o território do romance passa a ser ampliado pelos relatos das próprias personagens uma à outra, criando, de certa forma, a possibilidade de entrever uma segunda narrativa: aquela que é escrita por Murilo e Francesca. Desse modo, fica a impressão de acompanhar um texto no momento em que é escrito.

Também por isso Ela Se Chama Rodolfo é um romance com os olhos no presente. Dantas não tem medo de levar à literatura menções a esquemas de pirâmide, influenciadores de Instagram e tipos hipsters da época da faculdade. Na contramão, ao incorporar na narrativa esses códigos cotidianos, a autora firma um diálogo divertido com uma juventude ainda pouco representada na literatura brasileira —tardia (Murilo tem 36 anos), desiludida do futuro e com pouco dinheiro. Dessa forma, as personagens nascem com os pés no contemporâneo e absurdamente reconhecíveis. Ponto para “Rodolfo”.

Em última instância, chama a atenção que a busca por alguém que aceite abrigar a cativante tartaruga se estende para a procura do protagonista Murilo pelo seu próprio lugar no mundo. A despeito do destino de Murilo, reservado às páginas finais, e do mistério em torno de Francesca, que ficam aquém do que promete a narrativa, Ela Se Chama Rodolfo dá tom a uma espécie de errância para a autoaceitação.

No romance, Porto Alegre se transforma em um lugar menos solitário para Murilo, por meio dos encontros e das palavras dos outros. E, no fim das contas, os leitores de Dantas podem também se sentir mais próximos do mundo, porque reconhecem no outro a matéria de que somos feitos: história.

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