Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Romance narra o assassinato do pintor Almeida Júnior

Luiz Gastão Paes de Barros Leães mostra como o artista foi morto pelo próprio primo, com cuja mulher havia se relacionado

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2020 | 16h00

Em The Facts (1988), o norte-americano Philip Roth (1933-2018), a exemplo do alemão W. G. Sebald (1944-2001), cruza gêneros para investigar a distância – quase inexistente, segundo ele – entre uma obra de ficção e uma biografia. Não por acaso, o advogado e professor Luiz Gastão Paes de Barros Leães usa uma observação de Roth como epígrafe do post-scriptum de seu surpreendente Coitado do Tio Juquinha, livro em que rememora um crime envolvendo um parente distante, José de Almeida Sampaio, o “Juquinha” do título, primo e amigo do pintor José Ferraz de Almeida Júnior, a quem matou a golpes de faca no dia 13 de novembro de 1899.

Sampaio foi absolvido, após passar 97 dias encarcerado. Segundo o juiz, o réu não cometeu o crime com premeditação – Sampaio, enfurecido, avançou contra o pintor e o matou, após descobrir que sua esposa, Maria Laura do Amaral Gurgel, o traía com o artista. A despeito de ser uma história pública, ela jamais foi contada com tantos detalhes como no livro. O assassinato de Almeida Júnior foi, segundo o autor, o “fato nuclear” da vida de seu parente. Já consumido pelo Alzheimer, Sampaio, revela o escritor, repetiria até a morte: “Quantas vidas ele tivesse, quantas vidas eu tiraria”.

Como disse Susan Sontag sobre Sebald, há almas enlutadas que precisam alimentar sua obsessão pelos desaparecidos e ausentes para superar a conspiração do silêncio familiar que envolve o nome (impronunciável) de alguns mortos. Para a família de Paes de Barros Leães, José de Almeida Sampaio, o tio-bisavô do autor, era assim lembrado num “tom crispado, e depois de um longo suspiro”: “Coitado do tipo Juquinha!”

O escritor identificou em sua comovente história de dissolução um mistério que merecia ser desvendado. Repetiu, anos depois, o mesmo trajeto do tio-bisavô, que perambulou pelo centro de São Paulo até chegar à casa de Almeida Júnior (na Liberdade) no dia anterior à tragédia de Piracicaba (os dois eram amigos e ele frequentemente lá pernoitava). Por uma estranha premonição, escreve Paes de Barros Leães, ele sentiu (no anos 1960) que replicaria os passos do parente distante, num circuito de traços apagados e resgatados. Ele é, ao mesmo tempo, o narrador e o póstumo nessa jornada em que passado, presente e futuro se fundem, como nos livros de Patrick Modiano e Sebald – especialmente o alemão, que parece ver a história melhor que outros autores por estar excluído dela, fazendo uso de recursos híbridos como fotos e documentos reais transformados em elementos ficcionais.

Coitado do Tio Juquinha é ilustrado com fotos de época e reproduções de telas de Almeida Júnior relacionadas aos personagens da tragédia familiar narrada no livro. Já na capa, uma tela pintada por ele no ano de sua morte, Piquenique no Rio das Pedras (1899), evoca uma obra popular de Manet (Le Déjeuner sur l’herbe) e outra de Courbet, com o qual é frequentemente associado pela ousadia e espírito realista (ao introduzir na tela o caipira e buscar a cor local que tanto marcaria Tarsila). Nela, Almeida Júnior retrata pessoas da elite (a cultura) em contato com a natureza (a mata do sítio que dá nome ao quadro), colocando-se, deitado na relva, no centro da composição (atrás dele, de branco, está seu algoz, José Sampaio, abrindo uma garrafa de vinho).

Da ‘fête galante’ representada nessa tela a uma outra pintura premonitória, pintada um ano antes, O Importuno (1898), as referências aos estreitos laços que o ligavam ao primo Juquinha passam pela obra de Almeida Júnior como páginas de um diário. Uma delas, Leitura (1892), seria mesmo o retrato de Maria Laura sentada, tendo ao fundo uma paisagem interiorana. Em O Importuno, alguém bate à porta do ateliê do pintor, que afasta a cortina para espiar o intruso (que nunca se vê, provavelmente por ser o próprio espectador, ou Juquinha), enquanto a modelo ajeita as roupas de baixo (na tela dentro da tela, uma mulher nua sugere que é a mesma que posa).

A sensualidade da cena se aplica a mais de uma modelo sexualmente assediada pelo pintor, a julgar por sua companheira e mãe de seu filho Rita Paula Ybarra (ele também teve filhos com a mulher de Juquinha, dois, segundo insinua Maria Laura numa carta ao pintor, em que traduz sua repulsa pelo marido, chamando-o de “imundo”). Tímido, mas não moralista, Almeida Júnior também retratou homens em poses sensuais – e o mais evidente dos exemplos é a tela O Derrubador Brasileiro (1879), em que o sexo do trabalhador mestiço desafia o olhar moralista numa composição quase lasciva.

É provável que José de Almeida Sampaio já soubesse da traição de sua mulher bem antes de ler as cartas endereçadas a Almeida Júnior. Na ocasião do crime, ele fez a citada (acima) viagem a São Paulo para resolver problemas com credores. Sua situação era desesperadora. O autor de Coitado do Tio Juquinha, seguindo a tática de Modiano, não se acanha em revelar ao leitor histórias que sabe sobre seu personagem. Mais precisamente, sobre o ressentimento e uma ponta de inveja do tio-bisavô: Almeida Júnior era um pintor de sucesso, cobrava 50 contos por um quadro e fazia sucesso com as mulheres, enquanto o fazendeiro estava falido, era considerado uma “praga” pela esposa e sentiu-se traído pelos dois, a companheira e o primo amigo, 11 anos mais velho e no qual projetava a figura paterna.

Impossível não pensar em Dom Casmurro, ainda de acordo com o escritor. O livro de Machado de Assis é de 1899, ano da morte de Almeida Júnior. A dissimulada Capitu real de Coitado do Tio Juquinha traiu, de fato, o ciumento Bento Santiago, mas o que interessa ao autor, além da história que se mescla à tragédia do irmão mais moço de sua bisavó materna, é que verdade e ficção demoram, mas finalmente se encontram. “A verdade emerge vagorosamente”, para lembrar mais uma vez Sebald. Em Austerlitz, sua obra-prima, o alemão defende que o tempo não existe, apenas várias histórias que se entrecruzam numa sofisticada forma de estereometria em que vivos e mortos compartilham o mesmo espaço. A narrativa – inventiva, marcada pelos espectros familiares – é quase uma prosa nascida do túmulo de tio Juquinha.

Esse aspecto espectral de escrita, que é também de Sebald, foi analisado pelo romancista e ensaísta inglês Geoff Dyer como uma maneira de exumar o corpo de uma literatura que coloca narrador e personagem em diferentes territórios. Sebald desejou escrever como um fantasma, pois sabia que nenhum ser vivo pode suportar o peso e o horror da História – e Austerlitz, ao tratar do Holocausto, é uma tragédia de eternos exilados, como a do protagonista do livro, Jacques Austerlitz, enviado ainda criança para a Inglaterra e vítima da síndrome do sobrevivente.

Ao recontar a vida do tio-bisavô, Luiz Gastão Paes de Barros Leães, um memorialista admirável como Pedro Nava, recorreu a parentes para identificar os fotografados num casamento, em 1912, mas de pouco valeu o auxílio. Eles eram e não eram ao mesmo tempo as pessoas que o autor conheceu. Luiz Gastão jamais encontrou seu tio Juquinha (ele morreu em 1930 e o escritor nasceu em 1936). Buscou nas fotos, recortes de jornais e cartas elementos para compor o personagem com o qual conviveu toda a vida. E escreveu um livro de alta sensibilidade.

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