Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Romances nacionais recentes abordam semelhanças entre Brasil e Irlanda

Livros de Luisa Geisler, 'De Espaços Abandonados', e Nara Vidal, 'Sorte', fazem travessia entre os países

Mateus Baldi*, Especial para o Estado

07 Julho 2018 | 16h00

Maria Alice, protagonista do novo romance de Luisa Geisler, é míope e vai até Dublin em busca da mãe desaparecida. No caminho, encontra brasileiros passando aperto no país de Joyce. Já Margaret Cunningham, protagonista do primeiro romance de Nara Vidal, é pobre e vai ao Brasil para fugir da grande fome que assolou a Irlanda em 1827. Para além de um retrato da condição humana, De Espaços Abandonados e Sorte tratam de mulheres fortes sobrevivendo em um mundo de opressão social, religiosa ou racial. Mas não só. Explorando as diversas possibilidades que um romance oferece, seja em termos de estrutura ou linguagem, Luisa – que fez mestrado na Irlanda – e Nara – que mora em Londres há mais de dez anos – conseguiram criar obras que persistem mesmo após a leitura. Finalizar seus livros é pensar ter esgotado o texto, nunca o pensamento. Por e-mail, elas comentaram ao Aliás o processo de obras tão singulares.

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Por que a Irlanda como fio condutor?

Luisa: O livro surgiu não tanto pela Irlanda em si, mas pela alta quantidade de brasileiros, a comunidade que eu notava no país desde os anos 2000. Um amigo foi para lá antes do crash de 2008, ouvindo promessas de que ganharia dinheiro e de que mandaria tudo para casa. Quando o visitei, ele trabalhava como riquixá e ia à igreja coletar cesta básica. É claro que existe a mística-padrão da Irlanda, os leprechauns, a cerveja, James Joyce, Beckett, e isso me encantou desde sempre. Mas existe uma ligação forte Brasil-Irlanda que eu nunca tinha percebido. São países que têm fama de incrivelmente felizes e são bem ferrados. Quanto mais você presta atenção neles, mais ferrados ficam. Essa relação me interessou mais do que a Irlanda sozinha em si. Não fosse por isso, eu poderia muito bem escrever um livro que se passasse na Rússia, na Inglaterra, na Argentina. Mais do que a Irlanda, o que me cativou, o que me fez querer contar uma história, foram nossos emigrantes.

Nara: Eu me interessei por um momento da história praticamente ignorado nos livros. Durante o ano de 1827, alguns navios saíram da Irlanda diretamente para o Rio de Janeiro trazendo irlandeses miseráveis em busca de prosperidade, fugidos da fome da batata. Utilizar a Irlanda como pano de fundo para a primeira parte do romance não foi coincidência ou uma escolha aleatória. O país carrega muitas marcas em comum com o Brasil. A opressão católica é uma das características mais fortes e evidentes. E essa opressão se rasteja na narrativa não só através da Margareth, mas da Mariava, a mulher negra que também é marginalizada em toda a má sorte que viveu.

Os dois romances apresentam uma polifonia – seja nos imigrantes da Luisa, seja no deslocamento que Nara vai fazendo ao longo da narrativa. Como foi a construção das vozes?

Luisa: Na verdade foi uma solução para um problema, mais do que uma opção narrativa desde o início. Quanto mais estruturava e pensava no livro, menos eu o via como algo passível de ter um narrador neutro onisciente em terceira pessoa. Cada personagem é uma Dublin, é um universo, e isso acaba se refletindo nas vozes.

Nara: As primeiras duas partes são histórias contadas do ponto de vista da personagem principal. Fiz questão de destacá-la como a narradora porque o romance se passa num período histórico que nos foi retratado e contado exclusivamente por homens e classes dominantes. A parte final do livro é contada em terceira pessoa. Os personagens principais também se deslocam. Passam a ser dois meninos, rapazes, homens que viram lenda. Ter um período histórico bem marcado, ou seja, século 19, significou ter a liberdade de inventar a sorte que teve cada personagem fundamentada no que foi documentado até agora. O fato de não sabermos de histórias de mulheres e negros, pois não viraram nomes de ruas, me faz pensar nas violências vividas por eles.

‘De Espaços Abandonados' é maior que ‘Sorte’, mas contém diversas formas textuais. ‘Sorte’, por sua vez, tem uma história profunda em apenas cem páginas. Como vocês chegaram a essas estruturas textuais? 

Luisa: Por mais que o De Espaços Abandonados seja longo em termos de páginas, ele é um livro curto em laudas. Eu precisava de muitas páginas porque precisava de silêncio no livro. É um livro sobre abandono, sobre deixar coisas incompletas, sobre perseguir compulsivamente fios soltos. Eu não poderia fazer isso preenchendo cada linha.

Nara: O tamanho, a brevidade do romance pode ser uma tentativa minha de gerar reflexão, ao invés de conclusão. Questionamentos e reticências ao invés de esclarecimento, pontos finais. Afinal, a Mariava e a Margareth estão vivas em meio ao do racismo, quando jovens negros são mortos indiscriminadamente, e da opressão religiosa, quando homens decidem leis que dizem respeito ao nosso corpo. É uma narrativa de fim impossível que deve se aprofundar e não se estender.

*Mateus Baldi é escritor, roteirista e fundador da plataforma literária 'Resenha de Bolso' 

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