Arquivo pessoal/Facebook
Arquivo pessoal/Facebook

Ronaldo Correia de Brito retorna ao romance em 'Dora Sem Véu'

'Quero revelar uma história que foi apagada', diz autor, que fala sobre campos de concentração no sertão nos anos 1930

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2018 | 16h00

O escritor cearense Ronaldo Correia de Brito, 66, prêmio São Paulo de Literatura em 2009 com o romance Galileia, vinha tentando retomar a narrativa longa desde 2012, quando lançou Estive Lá Fora, focado num triângulo amoroso entre um estudante de Medicina, a namorada e um amigo. Agora, em Dora Sem Véu, seu terceiro romance, o autor volta ao agreste, universo de seus primeiros livros de contos – Faca (2003) e Livro dos Homens (2005) –, retomando não exatamente o caminho da literatura regionalista da primeira metade do século passado, mas elegendo uma nova trilha, a do drama contemporâneo que recorre aos elementos formais da tragédia clássica para espelhar uma sociedade mítica, a sertaneja, em confronto com a modernidade laica.

+Livro reconta a história da violência no Brasil

+'Estamos perdendo a guerra para o ódio', afirma o jornalista Jamil Chade

Médico cuja família seguiu seus passos, Ronaldo não raramente toma emprestado um personagem da vida real e o transplanta para a ficção. A impressão que se tem ao ler suas três narrativas longas é a de que o escritor construiu com elas um Bildungsroman. Porém, o que ele aproveita de sua experiência pessoal e das histórias de seus pacientes vai além de um relato autobiográfico. Em Dora Sem Véu, por exemplo, ele abdica do papel de narrador onisciente e faz um exercício flaubertiano ao assumir um narrador-personagem que é uma mulher, a socióloga Francisca, sexagenária e libertária como ele, que decide cumprir a promessa feita ao pai de partir para Juazeiro em busca da avó – a Dora do título. Ela, que não conheceu a avó, parte, então, num caminhão de romeiros ao lado do marido médico. Tal experiência, evoque-se, levou Ronaldo a Juazeiro do Norte anos atrás para entender esse universo de fé que resiste ao laicismo urbano.

“Por sugestão de um amigo, que leu Milagre em Juazeiro (um dos contos de Livro dos Homens), resolvi seguir seu conselho e ampliar a história”, conta Ronaldo. E ele foi mesmo além do conflito expresso no conto, colocando em discussão no atual romance a condição feminina no agreste patriarcal, o segregacionismo e o apartheid social num país dividido pela violência e a impossibilidade do trânsito interclassista num Brasil que desconhece sua história e repete os erros do passado no presente.

Dora Sem Véu fala dos campos de concentração que existiram no sertão nordestino nos anos 1930 – os chamados ‘currais do governo”, que confinavam flagelados da seca – e retrocede ainda mais na história, relembrando um episódio vergonhoso, o da expedição Thayer, liderada pelo zoólogo suíço Louis Agassiz entre 1865 e 1866. Agassiz, um criacionista que construiu sua carreira científica nos EUA e abraçou a teoria da degeneração racial, serviu ao propósito do governo norte-americano de ser livrar dos negros, seguindo o projeto de assentar ex-escravos do Tio Sam em terras amazônicas.

“Veja, aqueles currais do governo de 1932, que tinham como objetivo impedir que os flagelados da seca invadissem Fortaleza e outras cidades, não se diferenciavam em nada dos campos de concentração mantidos pelos nazistas, pois os sertanejos eram confinados em condições desumanas, tinham a cabeça raspada, passavam fome, morriam de doenças e eram vigiados por soldados”, conta Ronaldo. “Quero revelar uma história que foi apagada”, conclui, citando também a expedição imperialista e etnocêntrica liderada por Agassiz como uma herança maldita que plantou no Brasil a ideia de que a miscigenação entre as raças humanas leva à degenerescência.

Seu romance mostra como a ideia de supremacia marca as relações entre poderosos e destituídos, até mesmo entre Francisca, mulher de Afonso, e seu jovem e pobre amante, Wires. Costureiro (de lingerie feminina) em pleno sertão, ele questiona a suposta vocação igualitária e liberal da amante, que desconfia da honestidade e bons propósitos do rapaz.

“Outro aspecto que me interessa é como o ingresso do Nordeste na modernidade foi traumático, mudando sobretudo a relação com o passado.” As ruínas do engenho são só ruínas. Sobrou pouco do mundo que Ronaldo, natural de Saboeiro, no Ceará, conheceu na infância. A romaria de Francisca, de certo modo, é sua viagem pessoal aos tempos em que ouvia lendas locais e via a mãe escrever cartas para migrantes, exatamente como faz no filme Central do Brasil a personagem Isadora. “Minha mãe me ensinou a técnica da escrita, de ouvir as pessoas e anotar”.

Ele aperfeiçoou essa técnica, ouvindo histórias de pacientes. Wires é baseado num jovem atendido por ele no hospital. “Eu cuidei dele por três meses e descobri, para minha surpresa, que ser costureiro de lingerie no agreste era mais comum do que imaginava, por falta de trabalho como boiadeiro”. O contraponto do sensível e bissexual Wires é o rico Hermógenes, suspeito de ter assassinado três mulheres – cujo nome é um tributo a Grande Sertão:Veredas. “Há esse choque de ingresso em outro mundo que deixou o homem do agreste até mais violento”, reflete. “Wires seria, então, um símbolo da transformação da sexualidade nesse universo”, conclui. 

Mais conteúdo sobre:
Ronaldo Correia de Brito

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.