Companhia das Letras
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'Rondon acreditava plenamente na doutrina de ordem e progresso', diz biógrafo

Em livro, jornalista americano Larry Rother faz retrato do Marechal Rondon, militar pacifista e defensor dos índios

Sérgio Medeiros*, Especial para o Estado

11 de maio de 2019 | 16h00

Em Rondon, uma Biografia, o jornalista norte-americano Larry Rohter escreve que “Rondon desponta como uma figura maiúscula e inspiradora – em alguns aspectos, um homem de sua era, mas em outros ainda muito à frente de seu tempo”. Baixo, franzino e descendente de índios, Cândido Rondon foi explorador e cientista, tendo realizado ao longo de uma vida muito ativa proezas que o transformaram em herói nacional. É também lembrado hoje por ter sido um dos maiores defensores dos direitos indígenas durante a primeira metade do século 20.

O poeta e dramaturgo Paul Claudel, que serviu como embaixador francês no Brasil, comparou Rondon a uma “figura dos Evangelhos”, e o físico Albert Einstein propôs seu nome para o Nobel da Paz, ao descobrir que ele era um general pacifista, talvez o único do mundo. A vida desse símbolo do espírito empreendedor brasileiro resistiu incólume, conforme salienta Larry Rohter, a várias tentativas de difamação, como quando, por motivos políticos, foi preso no Rio Grande do Sul acompanhado de um índio jovem (levava-o a um hospital) -- divulgou-se então, atendendo a interesses de Getúlio Vargas, a insinuação de que Rondon era homossexual e pedófilo. Aliás, a tensa e conflituosa relação de Rondon com o Estado Novo, período durante o qual a sua reputação correu mais perigo, é a parte mais saborosa (e atual) desta nova biografia do grande mato-grossense.

“Para Rondon, a exploração sempre foi uma maneira de descobrir limites – tanto geográficos quanto pessoais – e depois ultrapassá-los”, defende o biógrafo. E continua: “Cada expedição parecia mais audaciosa e ambiciosa que a anterior”, pois o limite da resistência humana era o que se testava. Por isso, ao lado de Theodore Roosevelt, ex-presidente dos Estados Unidos e renomado naturalista, Rondon acabou realizando uma expedição científica “pelo interior selvagem do Brasil”, do rio Apa, no sul do antigo Mato Grosso, até o rio da Dúvida, na Floresta Amazônica, entre 1913 e 1914, a qual Rohter afirma ter sido uma das maiores façanhas dos tempos modernos.

O senhor afirma que os esforços de Rondon tornaram as regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil mais acessíveis, fazendo com que grandes empresas e pequenos agricultores afluíssem ao interior. Mas essas forças econômicas acabaram por expulsar os povos indígenas de suas terras. As leis criadas por Rondon para protegê-los não foram efetivas?

Como positivista, Rondon acreditava plenamente na doutrina de “ordem e progresso” como destino inevitável do ser humano. Escrevia nos seus diários que ”a ciência, arte e indústria hão de transformar a Terra em paraíso, para todos os humanos, sem distinção de raças, crenças, nações.” Hoje é fácil dizer que estava sendo ingênuo, muito ingênuo, mas o motor de todas as atividades públicas de Rondon ao decorrer dos anos foi justamente esta fé. Então, para Rondon, a integração da Amazônia e o Centro-Oeste com o resto do país por via das linhas telegráficas, estradas, pontes, mapeamento de rios, assentamentos, etc. seria um passo na direção daquele paraíso terrestre. Ele confiou na boa índole do brasileiro e sonhava num Brasil em que os indígenas e os “civilizados” brancos viveriam em harmonia, um ao lado do outro, aprendendo um do outro, baixo a tutela de positivistas esclarecidos. Mas os resultados foram bem diferentes, apesar dos esforços do Serviço de Proteção aos Índios, fundado por Rondon em 1910 e liderado por ele. O estado brasileiro não tinha nem os recursos financeiros nem a vontade política para cumprir com os acordos que o próprio Rondon havia negociado com os povos indígenas -- ou de implementar a aproximação não violenta pregada por ele. Com o passar das décadas, Rondon percebeu que a política dele não daria nunca os resultados esperados, e deu uma guinada fundamental durante a ditadura varguista. Sendo ele mesmo de ascendência bororo, terena e guaná, ele se identificava com os povos indígenas, assumindo publicamente sua identidade bororo em meados dos anos 40. Sentia que estava perdendo a batalha, e queria a todo custo preservar ao máximo o que restava da cultura e vida tradicional indígena. Passou, então, a defender o autoisolamento dos povos indígenas, para protegê-los da rapina dos “civilizados.” Foi precisamente este impulso que levou Rondon a propor a criação do Parque Indígena do Xingu no começo da década de 50.

Nas questões indígenas, Roosevelt e Rondon divergiam. Mas na biografia de Rondon você afirma que, na volta aos Estados Unidos, Roosevelt reviu algumas de suas posições, sob a influência do pensamento de Rondon.

Caubói no Velho-Oeste antes de entrar na política, Roosevelt não tinha opinião muito favorável do índio quando entrou na Casa Branca. Mas a descida do rio da Dúvida ao lado de Rondon abriu os olhos dele, e ele passou a entender que o famoso lema de 

Rondon, “morrer se preciso for, matar nunca” poderia sim render resultados positivos. No livro que escreveu depois da expedição de 1913-1914, por exemplo, o Roosevelt, naquela altura ganhador do Prêmio Nobel da Paz, comenta, maravilhado, sobre uma reunião de 

Rondon com chefes Paresí, no papel de mediador de uma disputa com os Nambikwára. Observando Rondon sentado numa rede, com ”uma criança indígena aconchegada solenemente junto a ele,” Roosevelt chegou à conclusão que a diplomacia não violenta levada a cabo pela Comissão Rondon era uma ferramenta muito útil em entabular relações amistosas com povos indígenas tidos como hostis. Confiou tanto na política e prestígio pessoal de Rondon que deixou o filho Kermit ir sozinho a uma aldeia Nambikwára, onde foi recebido “com a máxima cordialidade” e voltou com um grupo de guerreiros que Roosevelt descreve como “ousado e amistoso, afável.” A expedição acabou estropeando a saúde de Roosevelt, e ele nunca voltou ao poder. Então não há como saber se ele teria lidado com a questão indígena num terceiro mandato. Mas as cartas e ensaios de Roosevelt escritos depois da expedição com 

Rondon mostram que ele havia absorvido pelo menos um pouco do espírito pacífico rondoniano. “Os índios devem ser tratados com compreensão inteligente e solidária, tanto quanto com justiça e determinação,” declarou em 1915, Graças ao “tratamento justo, bondoso e compreensivo” implementado por Rondon e “a incansável consideração e bom temperamento” dele, os povos que “eram no começo por demais hostis e desconfiados” se transformaram em “leais amigos do governo.”

Rondon teve uma curiosa relação com o cinema, sobretudo depois da Expedição Científica Roosevelt-Rondon de 1913-14, até esperava fortalecer as finanças do Serviço de Proteção ao Índio com a receita de um filme... Poderia comentar isso?

A relação estreita e intensa de Rondon com o cinema foi uma das maiores surpresas que emergiu das minhas pesquisas sobre a vida e a obra dele. Sempre disposto a adotar novas tecnologias, Rondon desde o início viu o valor do cinema como instrumento para espalhar suas ideias e valores positivistas. Sobretudo, queria mostrar para o brasileiro morador das grandes cidades na costa que tanto o caboclo do interior como os povos indígenas eram brasileiros também e não uma gente estranha, à parte da vida nacional. Quer dizer, ele queria educar o brasileiro através do cinema, e com isso criar uma massa popular que apoiaria os projetos dele. Eu diria até que Rondon foi pioneiro no uso de filmagens no trabalho de campo. Um ano depois da expedição com Roosevelt, por exemplo, fez uma série de palestras em grandes teatros em que combinava suas palavras escritas com fotos e filmes, coisa inédita na época. A Comissão Rondon já havia feito filmes etnográficos sobre os ritos e a vida cotidiana dos povos indígenas, filmes consultados ainda hoje. São filmagens feitas quase uma década antes do filme americano considerado o primeiro filme etnográfico na história do cinema. Talvez o episódio mais pitoresco seria a viagem de Luiz Thomaz Reis, o cinegrafista de Rondon, a Nova Iorque em 1917, com o objetivo de vender os filmes da Comissão no mercado americano, arrecadando dinheiro para suplementar o parco orçamento do Serviço de Proteção aos Índios; foi ajudado nesse empreendimento por ninguém menos que Theodore Roosevelt. A censura americana não gostou da ideia de exibir imagens de índios nus, e o esforço não deu em nada. Mas acho muito interessante o mero fato de Reis e Rondon terem negociado os direitos com Louis B. Mayer e o precursor do que viria a ser o estúdio MGM. Quem diria?

Euclides da Cunha e Rondon se conheceram no Rio de Janeiro na juventude (ambos frequentaram a mesma academia militar) e se tornaram amigos íntimos. No livro À Margem da História, que o primeiro escreveu, nota-se, como você sublinha, uma influência de Rondon.

A amizade entre Rondon e Euclides da Cunha nasceu no segundo ano deles na academia militar, quando ambos estudaram matemática com Benjamin Constant. Um ano depois, em 1887, os dois se tornaram fundadores de uma revista literária chamada “A Família Acadêmica,” com Rondon no papel de coeditor (com o futuro chanceler Lauro Müller) e Euclides como colaborador. Isso levou a um relacionamento de companheirismo e confiança mútua ainda mais íntimo, em que Rondon foi o redator de alguns dos primeiros poemas e ensaios de Euclides. Mas além de serem amigos, Rondon e Euclides também eram compadres. Rondon foi o padrinho de Sólon, o primeiro filho de Euclides, e quando Euclides foi morto por Dilermando de Assis, amante da mulher dele, em 1909, o adolescente Sólon se juntou à família de Rondon. Dois anos mais tarde, para tirá-lo de um ambiente de zombaria permanente, o Sólon acompanhou Rondon numa de suas expedições na Amazônia, e acabou ficando por lá como delegado policial pelo resto da vida. Curiosamente, em 1925, quando Rondon comandava as tropas lutando contra os rebeldes tenentistas liderados por Luiz Carlos Prestes e Miguel Costa no Paraná, o então capitão Dilermando foi um dos seus oficiais subalternos. É bem possível, ou até provável, que Rondon tenha sido o primeiro caboclo que Euclides conhecia de verdade; pelo menos é isso que pensa a historiadora americana Susanna Hecht, autora de um livro sobre Euclides na Amazônia. Diz ela: “A duradoura proximidade [de Euclides] com Cândido 

Rondon desde os tempos juntos na praia Vermelha afetou suas opiniões sobre os índios,” opiniões expostas no livro que você menciona. ”Sugere um leitor consciencioso e bem informado da história nativa, muito incomum para a época.”

No seu livro, você afirma que o positivismo se tornou a influência mais importante da vida de Rondon. Parece que os princípios fundamentais do positivismo atraíam Rondon porque pregavam a crença na igualdade essencial dos seres humanos. Mas o positivismo também lhe fechou algumas portas. Poderia comentar isso?

Sim, a obstinada lealdade de Rondon para com o positivismo acabou fechando-lhe muitas portas. O positivismo brasileiro proibia terminantemente a aceitação de qualquer cargo político eleito, e Rondon, como adepto fiel da “Religião da Humanidade,” teve de recusar muitas ofertas de cargos importantes, como deputado, senador, e governador de Mato Grosso. Também declinou postos de ministro, e em duas ocasiões rejeitou pedidos de encabeçar movimentos golpistas militares que pretendiam derrubar um presidente civil, eleito pelo povo. “O mais retrógrado governo é preferível à mais progressista revolução,” dizia, citando as palavras de Auguste Comte, fundador do positivismo. Isso é muito louvável, mas a insistência de Rondon em se afastar da política partidária da Primeira República acabou, no meu ver, tendo um efeito “boomerang”. Em vez de ser uma voz alta e poderosa no Congresso, insistindo na necessidade de garantir os direitos dos povos indígenas e lutando pelo bem-estar dos habitantes do interior, foi reduzido à condição de mendigo, sempre suplicando do Congresso um aumento no orçamento minguado do Serviço de Proteção aos Índios e da Comissão de Linhas Telegráficas. E quando não aceitou o posto de governador do seu estado natal, que aconteceu? Entrou no lugar dele um padre salesiano, desafeto de Rondon, quem acabou minando toda a obra dele no estado. O positivismo, então, sempre foi uma faca de dois gumes para Rondon. Sim, o lema positivista de ”viver para outrem” norteou toda a vida dele, desde um casamento feliz de 57 anos e a vida em família até o comportamento oficial dele com militar reto e patriótico. Também motivou a imensa coragem, abnegação e dedicação que ele sempre demonstrou nas expedições e, como você indica, fez dele um humanista de primeira ordem. Mas teve um custo também: um Rondon mais flexível talvez tenha conseguido realizar ainda mais para o Brasil.

*SÉRGIO MEDEIROS É PROFESSOR DE LITERATURA NA UFSC E POETA. LANÇARÁ EM MAIO OS LIVROS CALIGRAFIAS AMERÍNDIAS (MEDUSA) E OS CAMINHOS E O RIO (ILUMINURAS). 

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