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Rosa Montero narra a vida de Marie Curie em novo livro

'A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver' surgiu após a escritora ler os diários que a cientista escreveu após a repentina morte de seu marido

Vinicius Jatobá*, Especial para o Estado

08 de junho de 2019 | 16h00

O acaso convida acidentes fortuitos, e de uma encomenda o fluente e coloquial romance A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver surgiu: após ler os diários que a grande cientista Marie Curie escreveu após a repentina morte de seu marido com o intuito de compor um prefácio, Rosa Montero conseguiu acessar tramos de pequenas e singelas histórias até então soterrados de seu próprio luto e transformá-lo em uma narrativa envolvente. O resultado é todo Rosa Montero: humor, ironia, com uma incessante busca por detalhes.

A leitura do livro tem um efeito libertador: a morte, façanha misteriosa, não tem menos mistérios que as coincidências da vida. Em Rosa Montero o luto dói, mas não tanto e tem até afagos insuspeitos; o que embala imensa dor é a vida, que abraça caprichosa a irracionalidade dos dias, e nos larga sem aviso. Não é de se espantar o tão imediato interesse de Rosa Montero por Marie Curie. Rosa Montero escreve sobre alheamento e fantasia, e seu grande livro A Louca da Casa (que merece uma reedição) investe sua energia em decifrar as relações irracionais entre o que sentimos e o que fazemos com esses sentimentos no mundo. O filé mignon do banquete da escrita de Rosa Montero é a irracionalidade, e seus efeitos humorísticos e complicadores.

À primeira vista ninguém impõe uma estatura de marmórea racionalidade mais imponente que Marie Curie, ganhadora de dois prêmios Nobel, e figura totêmica da cultura científica de seu tempo. Rosa Montero, porém, é graciosa alcoviteira: busca para além da carranca fria de Marie Curie das fotos uma ramagem, e encontra floresta: paixões, arroubos, amantes, fúria, passeios de bicicleta, teimosias de rebite, lanches no parque. É uma personagem perfeita para Rosa Montero. pois antagoniza com a típica personagem que encontramos em seus livros.

Em abril de 1906, Pierre Curie morreu atropelado por uma carruagem. Como uma forma de lidar com a torrente de emoções, Marie Curie escreveu um diário. A leitura desse diário fez de Montero mais leitora que autora. A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver é tanto a história da vida de Marie Curie da pobreza polonesa até a consagração em Paris. É impossível não se tornar admirador de Curie após a leitura do livro: personalidade instigante complexa e contraditória, com uma inteligência impossível de ignorar, apesar do irrespirável ambiente misógino da comunidade científica, sua geografia interior e sua ação no mundo estão longe de ter a apatia e a frieza que Albert Einstein cravou numa descrição em uma carta famosa fartamente reproduzida. Marie Curie é uma locomotiva; e a descrição de sua vida, tão aventurosa e cravada de peripécias, e de superação, são a substância essencial da equação do romance.

O outro lado da equação do livro é a própria experiência de luto de Rosa Montero, que é discreta, quase invisível. Quando comparado ao espetáculo de auto-exposição tão celebrado na literatura contemporânea, o livro de Montero empalidece: ela não parece ter qualquer interesse em pôr em cena todo grafismo de sua dor, que também é a dor fatal de seu companheiro e ansiedade de amigos próximos. Sua abordagem do falecimento de seu marido é mais subtração que discrição. Transparência, nome técnico que camufla um tipo de expectativa agressiva de assentimento ilimitado que põem sob suspeita qualquer tentativa de preservar a privacidade, esse sagrado Graal contemporâneo, recebe saudável tratamento no livro de Montero. É ignorado. No livro, o seu luto é descrito mais por meio daquilo em que ela se interessa no luto de Marie Curie, e de forma poderosa entende-se a dor de Montero pelo que ela escolhe citar e tergiversar e digredir do diário de Marie Curie, que são os momentos luminosos: o erotismo dos abraços da alcova de casados, os cheiros do cotidiano, pequenas discussões, fantasmagorias em que os mortos retornam, a sinergia do laboratório científico agora mais vazio. Montero, elegante e emocional, fala de si falando de outro e por outro, receita perolar de vaso literário que nunca quebra. 

*VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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