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Rosa Montero narra vidas femininas notáveis em novo livro

'Nós, Mulheres' traz perfis de personalidades como Frida Kahlo e Simone de Beauvoir

Paulo Nogueira*, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2020 | 16h00

Desgraçadamente, a escritora Rosa Montero não é tão conhecida no Brasil como merecia – bem ao contrário de E. L. James, ainda mais desgraçadamente. Aos 70 anos, publicou 27 obras e entesourou prêmios disputados a tapa, como o Nacional das Letras Espanholas, em 2017. Como brilhantismo pouco é bobagem, tem uma ilustre carreira como cronista e jornalista (foi redatora chefe do El País) – sua técnica de entrevistas é estudada em universidades espanholas e latino-americanas. Desde que o marido morreu (o que lhe inspirou o pungente mas não mórbido A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver), em 2013, Rosa vive metade do ano em Cascais, Portugal. 

Nós, Mulheres são perfis biográficos de 16 mulheraças, de Agatha Christie a Alma Mahler, de George Sand a Mary Woolstonecraft, de Camille Claudel a Margaret Mead. A autora conjuga empatia com distanciamento crítico, numa prosa às vezes lírica porém jamais delicodoce. Para mim, é um dos livros do ano.

Rosa evita a hagiografia martiriológica: nada de banhar as biografadas na santimônia pia: “Não só não acredito que nós, mulheres, tenhamos de ser forçosamente admiráveis, como também reivindico que possamos ser tão más, tão tolas e tão arbitrárias como os homens às vezes o são. Almejo a verdadeira liberdade do ser, assumir nossa humanidade cabal e plena, com todas as suas luzes e suas sombras. Não obstante, todas elas, malvadas ou bondosas, infelizes ou felizes, derrotadas ou triunfantes, são pessoas bastante incomuns e têm vidas fascinantes.”

Bota fascinante nisso: Rosa tem um nariz de gourmet para o detalhe pitoresco mas também seminal. Como a biógrafa demonstra, sempre houve mulheres dando nó em pingo d’água, e não apenas após as conquistas recentes do feminismo: “Quanto mais adentramos o mar remoto do feminino, mais mulheres descobrimos: fortes ou delicadas, gloriosas ou insuportáveis, mas todas interessantes. As águas do esquecimento estão repletas de náufragas e basta embarcar para começar a vê-las.”

O feminismo da autora nunca descamba em misandria: “Com a Revolução Francesa um punhado de homens e mulheres compreendeu que a igualdade era para todos os indivíduos ou não era para ninguém: ‘Ou nenhum membro da espécie humana tem verdadeiros direitos, ou todos têm os mesmos; aquele que vota contra os direitos do outro, quaisquer que sejam sua religião, sua cor ou seu sexo, está abjurando os seus”. São palavras do iluminista Condorcet. Mas esse sonho de justiça durou pouco: com o Terror a mulher foi novamente encerrada em casa. Em junho de 1793, a feminista Théroigne foi apedrejada por um grupo de cidadãs; não morreu, mas perdeu a razão e passou o resto da vida num manicômio. Olympe foi guilhotinada em novembro de 1793 e os clubes de mulheres foram proibidos. Quanto a Condorcet, Robespierre o condenou à morte.”

Como é natural, Montero fala de espanholas, como Zenobia Camprubi, esposa de Juan Ramon Jimenez (Nobel de literatura), e Maria Lejárraga, mulher de Gregório Martinez Serra (dramaturgo badalado). Não se trata daquele papo furado de que atrás de grandes homens há grandes mulheres – mas sim que, por vezes, atrás de marmanjos bem meia-boca existem mulheres portentosas, em cujas ombros eles se empoleiram para parecerem mais altos. 

O perfil mais excruciante envolve duas mulheres, mãe e filha: Aurora e Hildegart Rodrigues, exemplo medonho do fanatismo utópico. Aurora escolheu o pai de Hildegard a dedo, transou com ele três vezes, engravidou e se mandou, dedicada a criar “a Primeira Mulher Livre”. Hilde nasceu em 1914 e antes dos três anos já escrevia corretamente; aos oito, falava quatro idiomas; aos treze, era vice-presidente da Juventude socialista e se correspondia que H. G. Wells e Ortega Y Gasset. Aos 18 anos, cursando Filosofia e Medicina, apaixonou-se por um rapaz e quis dar no pé para Londres, fugindo ao jugo da mãe, da qual era um fantoche: “Não consigo pensar em libertar ninguém que não tenha começado por libertar a si mesma.” Três dias antes da fuga, Aurora passa a noite em claro olhando a filha na cama. Quando o sol nasce, lhe dá quatro tiros à queima-roupa, um na cabeça e três no peito, e a jovem morre na hora. Sim, mulheres também podem ser feminicidas.

Rosa Montero sabe que o mérito, por mais admirável que seja, não exclui contradições dilacerantes. Como no caso de dois colossos do panteão feminino: Frida Kahlo e Simone de Beauvoir. A biógrafa assinala que a obra da pintora mexicana é duradoura, ao contrário dos murais realistas/socialistas de seu marido, Diego Rivera. Frida conseguiu se emancipar da fossilização propagandística, apesar da embaraçosa zoeira que foi sua vida política. Na cama dela (até hoje no museu em Coyocan) pairavam fotografias de Stalin e Mao (imaginem se fossem de Hitler...). Frida “ficou” com Trotsky, quando este se exilou no México, e acabou detida como suspeita depois que um agente stalinista matou o velho revolucionário com uma picaretada na cabeça. Três meses antes, David Siqueiros, outro muralista mexicano e parça de Frida e Rivera, participou de um atentado à metralhadora de que Trotsky escapou por um triz. Frida foi solta, mas se gabou de ter trazido Trotsky ao México só para o assassinarem. Como observa Rosa Montero, um mentira boboca, mas também repugnante. 

O outro titã esfíngico foi Simone de Beauvoir. A meu ver justificadamente, Montero despreza os romances de Simone, e valoriza sua não ficção (as Memórias, o Segundo Sexo e A Velhice). O constrangedor era a subserviência de Beauvoir a Sartre. Como ela informou um dos seus amantes, o escritor americano Nelson Algren (a quem escreveu cartas dizendo que adorava lavar a louça dele e lhe trazer os chinelos): “Cher, nada, nem você, nem minha vida, nem minha própria obra, está acima da obra de Sartre”

Montero não coloca o dedo na ferida: lanceta-a. Houve dois S e S. Publicamente, Simone e Sartre foram aqueles intelectuais iconoclastas e engajados (um engajamento quase sempre equívoco: foram pró-soviéticos até o fim, pois denunciar o Gulag era “fazer o jogo de mídia burguesa”).Visto de fora, esse casal (durou 51 anos), parecia um exemplo de outras formas possíveis de convivência, com honestidade e transparência. Só que não. “Depois aparecem a Simone e o Sartre privados, que emergiram, como uma espuma suja, com a publicação póstuma dos papéis íntimos. Soubemos que Sartre era um don juán compulsivo e patético, que precisava conquistar absolutamente todas as mulheres”.

S e S recrutaram um harém de jovens tietes de que usaram e abusaram, com uma rapacidade gélida e predatória. “Sou um porco”, confessou o filósofo uma vez. Ela discordou: “Quando vejo todos esses fracassos e todas essas pessoinhas amáveis e fracas como Louise ou Olga, penso em como somos sólidos, eu e você”. A tal Olga ficou tão zoada com o triângulo que um dia apagou 76 cigarros nas mãos. Uma outra se matou. No fim, Montero passa um paninho, mas não o suficiente para transformar as sujeiras de Beauvoir num brinco: “Agora a imagem dela é mais complexa e mais humana: porque todos temos vergonhas e incoerências a esconder em nossa vida privada. E no fim, entre tanta glória e tanta miséria, o que permanece é a proeza de ter sido livre e responsável por seu próprio destino. Para o bem e para o mal, Beauvoir se fez a si mesma. Como qualquer pessoa, nós mulheres somos capazes de toda a excelência e de todo o abismo.”

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)

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