'Ruanda ainda vai ser um paraíso'

Immaculée Ilibagiza, uma sobrevivente do genocídio em Ruanda. Mulher que escapou do massacre vive o sonho da reconstrução de seu país esquartejado

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2008 | 21h47

Difícil ser ateu ou agnóstico hoje, nos Estados Unidos, e não se sentir afetado pelo clima de assédio que vem dos crentes de qualquer denominação. Freqüentei colégio de freiras, passei pela desconversão comum da adolescência rebelde, mas nunca testemunhei, em casa ou na família, o tipo de religiosidade usada como carta na manga que hoje é tão freqüente por aqui. Minhas lembranças de d. Hélder Câmara, que era amigo de minha (intensamente pia) mãe, são bem-humoradas, em parte porque eu achava que o arcebispo de Olinda e Recife imitava o Geraldo Alves. Na verdade, era o comediante que fazia uma imitação impagável de d. Hélder. Quando um arcebispo se mistura aos seus parentes contando piadas, seu medo de pecar e ir para o inferno assume outra perspectiva. Enfim, o catolicismo que deixei para trás era muito mais gentil do que a religiosidade esfregada na minha cara pelos americanos. Quando li a palavra "Deus" no anúncio de lançamento do livro Sobrevivi para Contar - O Poder da Fé me Salvou de um Massacre, da ruandesa Immaculée Ilibagiza, meu inconsciente exausto deu meia-volta e fechou a janela do texto. Além disso, os alergistas não conseguem explicar por que desenvolvi uma urticária cada vez que alguém me oferece um livro de auto-ajuda. No meu vocabulário, auto-ajuda é quando consigo dormir às 3 da manhã, depois de vencer pensamentos sobre a morte, o medo do desemprego e um rosário de preocupações variadas sobre a saúde e a segurança daqueles a quem quero bem. Foi então com muito ceticismo que marquei encontro com Immaculée Ilibagiza, sobrevivente de um dos mais hediondos episódios genocidas do século 20. Sei que essa mulher dá crédito ao seu Deus católico por estar viva. Pois deixei o apartamento dela, como se diz por aqui, comendo torta de humildade. O livro acaba de sair no Brasil pela Editora Objetiva, selo Fontanar, e, mesmo nas nossas praias sofridas, onde a afluência tolera anestesiada a pobreza mais abjeta, Sobrevivi para Contar é um depoimento não só eloqüente, como um tributo à imaginação do espírito. A história é contada como um depoimento ao jornalista Steve Erwin. A tútsi Immaculée, então com 22 anos, bem nascida e bem educada, havia estudado engenharia na Universidade Nacional de Ruanda. De repente, com a morte do presidente Juvenal Habyarimana, ela viu sua vida protegida transformada num pesadelo. Isso foi em 1994. Escondida por um pastor hutu no banheiro de sua casa, ela viveu três meses espremida no cubículo com mais seis mulheres. Elas não podiam falar, tomar banho ou dar descarga na privada, só se o ruído coincidisse com a descarga de quem usava outro banheiro próximo. Diversas vezes as milícias hutus vieram à casa do pastor procurando pelas mulheres. Por uma janela basculante, Immaculée ouviu os hutus descreverem com risadas a execução de seu irmão, cujo crânio foi partido ao meio para verem como era a cabeça de alguém com título de mestre. Salva por forças da ONU, Immaculée emigrou para os EUA, casou-se, tornou-se mãe. Vive com o marido e a filha num confortável apartamento em Midtown Manhattan e mantém uma agenda ativa no circuito americano de palestras. Continua envolvida com a reconstrução de Ruanda por meio da fundação que criou. O Left to Tell Charitable Fund, nome da entidade, já ajudou centenas de crianças desamparadas naquele país. Parte dos direitos autorais e do produto da venda das memórias de Immaculée vai direto para um fundo que é administrado, em Ruanda, por duas freiras. As religiosas se empenham em encontrar abrigo para os órfãos, garantir o sustento de crianças ao longo do período escolar e arrumar bolsas para jovens freqüentarem a universidade. Nesta entrevista, os principais momentos da conversa que tive com Immaculée em Nova York: O livro é sobre seu passado extraordinário, mas vamos começar pela sua expectativa do futuro. Estou esperançosa. Estava lá antes do genocídio. Estava lá durante o genocídio. Vi como o país foi destruído, vi os corpos espalhados, toda a infra-estrutura destruída. Testemunhei o auge do ódio, quando cada tútsi era caçado. Agora, as pessoas estão se reunindo, trabalhando no mesmo escritório. É um passo enorme. Kigali é hoje, de acordo com a ONU, a cidade que mais cresce no mundo. Isso não poderia acontecer se as pessoas não estivessem de novo juntas. Nós tínhamos umas poucas universidades, agora temos 15. São sinais de progresso. Por que você quis ficar e viver em Nova York? Em 1998, quando hutus retornaram ao país, começaram a matar os sobreviventes do genocídio, para que as testemunhas não depusessem contra eles nos tribunais. Então, pensei, vou-me embora para Nova York, já que estou trabalhando com a ONU. Quando cheguei aqui, me senti em casa. Vejo que posso continuar o trabalho que decidi fazer. Ruanda vive no meu coração. Quero ajudar as crianças, contar a história do genocídio e posso fazer isso aqui. Você acompanhou o que aconteceu recentemente na África do Sul, com aquelas matanças de refugiados? Sim, claro. Há muitos fatores que fazem com que essas coisas aconteçam na África. Entre eles está a fome. As pessoas têm medo de perder o pouco que têm. Quando americanos que querem ajudar Ruanda falam das necessidades da escola, eu lhes pergunto: como pode uma criança que não tem o que comer, muito menos dinheiro para comprar uma caneta ou um uniforme, se integrar à escola? Então, não adianta apenas financiar uma bolsa de estudos, se elas não podem nem ter acesso ao livro para estudar. Como podem pensar nisso se não sabem se vão comer no dia seguinte? Mas a África não é um continente de gente maluca e assassina. As pessoas têm medo. Têm medo de perder o pouco que têm. Como é que esse medo se manifesta no dia-a-dia? Por exemplo, veja o que me disse alguém que morava na minha casa, lá em Ruanda, e começou a matar. Perguntei-lhe: como você pôde se transformar desse jeito? E ele se desculpou, dizendo: "Eu sinto falta daqueles que matei. Eu quase achava que eles iam voltar?" Então, você se depara com essa cegueira que tomou conta das pessoas, num tempo em que elas agiam na convicção de que iriam garantir a própria sobrevivência. Até que ponto vai a sua capacidade de perdoar? Eu perdoei. Porque sei o que se passava entre eles. Mas isso não quer dizer que meu perdão seja uma coisa ingênua, do tipo "ah, vamos esquecer tudo". É uma reação mais na linha do "eu não quero carregar essa bagagem nas minhas costas e viver pensando que ainda vou fazer o mesmo com vocês". E não é uma coisa fácil, afinal, luto com isso o tempo todo. Luto contra a minha raiva. Contra a possibilidade de me vingar. Pensei em me alistar e ter o poder de atirar neles. Passei por todo esse processo e meu estômago dói. Não pude lutar contra a raiva enquanto não entendi o que estava por trás das ações deles, o fato de que eles nem entendem as conseqüências do que fizeram, a cegueira sobre o futuro. Quando finalmente entendi a angústia que se abateu sobre eles depois de matar tantos, a raiva me deixou. Mas o trauma fica. Há um desejo que me atormenta. É o seguinte: será que posso fazê-los entender que não é preciso matar para se livrar do medo? Você pode ser uma pessoa decente e conseguir o que quer. Você conhece alguém que saiu matando e atingiu a felicidade? Pense em Hitler. O ex-presidente americano Bill Clinton escreveu em suas memórias que seu governo estava distraído com a Bósnia e os fracassos na Somália geraram nos Estados Unidos uma certa indisposição de fazer uma nova intervenção. Clinton admitiu que uma grande falha de seu governo foi não ter agido para evitar o genocídio de Ruanda. Você o perdoa também? Eu o perdôo. Ele veio falar comigo, nós nos encontramos e ele me disse textualmente: "Peço desculpas, eu poderia ter feito muito mais". Veja, este é um bom exemplo. Perdoar não é assinar embaixo do que o ex-presidente decidiu fazer ou dizer. O erro existe. E ele tinha poder o bastante para mudar o curso dos acontecimentos. Mas esse é o passado. Hoje Bill Clinton pode se sentar conosco e explicar o que aconteceu de errado. E pode influenciar líderes para que não haja uma repetição, outro genocídio. Não é o caso de trazer o passado de volta para transformá-lo e, sim, seguir adiante. Há reações negativas ao seu esforço de contar essa história. Sim, claro. É a questão da negação, as pessoas não querem se lembrar. Um amigo hutu perguntou por que eu ainda chorava e eu disse: "Você acha que a minha mãe vai voltar?" Ele admitiu que nunca havia parado para pensar nisso. Mas caiu em prantos quando leu no meu livro a descrição da morte do meu irmão. Você acredita que o conflito étnico vá ser superado? Ah, serão necessários muitos outros livros para que os hutus entendam que o mesmo que passamos pode acontecer com eles. Quando penso no Iraque, no Quênia e vejo essas guerras étnicas, tenho vontade de sacudir as pessoas: "Vocês não percebem que não há saída com matanças?" Eu estou mais otimista com Ruanda e posso lhe dar um exemplo que justifica esse sentimento. Nós tínhamos carteiras de identidade que nos registravam como tútsis ou hutus. Isso acabou. É um grande passo, porque agora ninguém sabe quem é quem e todos passaram a ter mais cuidado com o que falam, como se comportam. As pessoas passaram a conviver. Eu acho que, daqui a cem anos, Ruanda vai se tornar um paraíso. RUDE ÁFRICA "Não é lugar de gente maluca. É que as pessoas temem perder o pouco que têm" LUTA INTERNA "Eu luto contra a raiva. Luto contra a possibilidade de me vingar. Pensei em atirar neles"

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