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Rubem Fonseca e o cinema: uma relação de influência mútua

Dificilmente encontraremos um ficcionista brasileiro mais cinéfilo do que Rubem Fonseca

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2020 | 16h00

Dificilmente encontraremos um ficcionista brasileiro mais cinéfilo do que Rubem Fonseca. Seduzido pelo cinema aos dois anos de idade, ao ver seu primeiro filme num poeira de Juiz de Fora, no colo da babá, Zé Rubem sempre quis mesmo era dirigir filmes, tornar-se um cineasta. Roteirista conseguiu ser, e, antes disso, crítico de cinema, nos primórdios da revista Veja

Em suas histórias, narradas com uma sintaxe visceralmente cinematográfica, encadeiam-se alusões, diretas e indiretas, a filmes como Pacto de sangue (Double Indemnity), Uma Vida Por um Fio (Sorry, Wrong Number), Janela Indiscreta, O Destino Bate à Sua Porta (The Postman Always Rings Twice) e outras variações em torno de assassinatos conjugais e extraconjugais. Mas não apenas isso.  Se bem que em Henri, quinta história de seu livro de estreia, Os Prisioneiros, ele tenha recriado a trajetória de Henri Désiré Landru, vulgo Barba Azul, assassino serial de viúvas na França do início do século 20, retratado na tela por Chaplin e Claude Chabrol, as primeiras referências ao cinema em sua ficção só ocorreram em sua segunda coletânea de contos, A Coleira do Cão, publicada em 1965. 

Em Relatório de Carlos, que seria filmado por Flávio Tambellini com o titulo de Relatório de um Homem Casado, além de menções aos atores Gérard Philipe e George Raft e a um poster do filme Bom-dia,Tristeza numa parede, seu narrador faz observações sobre o comportamento esquisito de certos personagens na tela, como os amantes que acordam e “se beijam furiosamente na boca antes de escovarem os dentes, ou comerem alguma coisa”. Em outro conto (Madona) da mesma coletânea, uma garota arrasta o relutante protagonista para assistir a uma comédia com Rock Hudson. 

A partir de sua estréia no romance, O Caso Morel, o cinema e as artes visuais ganharam ainda mais relevância na obra de Rubem Fonseca. Relato de um romance confessional ou de uma frustrada biografia, escrita atrás das grades por um dublê de artista plástico e fotógrafo intransigente, Paul Morel, com ajuda de um ghost writer, O Caso Morel tem, a rigor, três autores: Morel, seu ghost writer (o delegado Vilela) e Rubem Fonseca. O crime supostamente praticado por Morel é ingrediente secundário na trama metalinguística do livro, mais uma investigação sobre as possibilidades e os limites da arte de contar histórias do que uma ficção noir de molde tradicional. 

Como frequentemente acontece nos filmes noir, os coadjuvantes roubam a cena no romance A Grande Arte, que o escritor adaptaria ao cinema de parceria com o diretor Walter Salles. Um deles, Camilo Fuentes, é um brutamonte de sangue índio com medo de avião e assalto em ônibus na Via Dutra; o outro, um anão negro chamado Nariz de Ferro, com larga experiência nos esgotos da sociedade e que fala como um malandro saído de um samba de Moreira da Silva. São dois marginalizados unidos pela arte de sobreviver no fio da navalha, imagem mais que apropriada num livro sobre, entre outras coisas, facas e a arte de utilizá-las para fins nada pacíficos. 

Há uma tripla reverência a Raynmond Chandler (The Big Sleep), a Dashiell Hammett e John Huston (Relíquia Macabra) em A Matéria do Sonho (de Lúcia McCartney), explicitada numa fala do médico (“Nós somos a matéria de que os sonhos são feitos...”), envolvendo, no caso, não uma estatueta de falcão maltês mas uma boneca inflável, chamada Gretchen. 

Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos é um romance que até possui rubricas cinematográficas (“uma pan pela sala”) e indicações sobre a reação dos personagens que o aproximam de um script. Seu protagonista é um cineasta cujos sonhos, estranhamente, não têm imagens, apenas ideias, “uma associação viciosa e irregular das ideias”, que, aliás, ecoa uma confissão de Fonseca, que se dizia incapaz de conceber um livro em termos de ideias e palavras. Primeiro lhe vinham imagens de ação, com os movimentos dos personagens e a exata disposição dos objetos em cena; só depois então ele pensava no que os personagens iriam dizer. 

O filme retratado em Vastas Emoções—uma adaptação de Cavalaria Vermelha, do russo Isaac Bábel—tem como roteirista uma alemã de nome fassbinderiano (Veronika) e uma trama francamente hitchcockiana. Hitchcock é uma sombra constante na ficção de Fonseca. Idem Godard (em O Caso Morel e A Confraria dos Espadas). “Carpe Diem”, o mais longo relato da coletânea Histórias de Amor, contém em seu elenco uma cinéfila compulsiva e um exímio imitador de James Cagney e Boris Karloff. 

Roberto, a principal figura masculina de “Carpe Diem”, identifica-se para um bandido como Paladino. Esta é a referência cinematográfica mais hermética da noveleta; a bem dizer, uma referência televisiva. Paladino era o singular pistoleiro da antiga série de TV Paladino do Oeste (Have Gun-Will Travel): um gentleman epicurista, apreciador de bons vinhos, poliglota e fã de ópera, um caubói que Rubem Fonseca poderia ter inventado. 

Avesso à violência, Paladino só matava em último recurso. Interpretado por Richard Boone e sempre vestido de preto, seu cartão de visita trazia o desenho de um cavalo de xadrez e a inscrição “Paladino, have gun-will travel”, a mesma impressa no cartão de visitas de Roberto e por ele traduzida como “Paladino, tem revólver, pode viajar”. A tradução seria perfeita com o verbo na primeira pessoa do singular: “Paladino, tenho arma, posso viajar.” 

Esta só os iniciados sacaram. Há muitos mistérios na obra de Rubem Fonseca ainda à espera de hermeneutas. 

 

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