Saber perder

Os que melaram a apuração se equiparam àqueles brasileiros para quem só o sucesso interessa - não importa como foi conseguido

Renato Mezan, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h07

Os episódios que marcaram a apuração das notas ao final do Carnaval de São Paulo vêm dando o que falar. Alguns comentários comprovam mais uma vez a conhecida tendência nacional a desfocar o debate do que realmente interessa, trazendo para ele alhos, bugalhos e o que "malhos" houver por perto - "o Carnaval da cidade acabou, está encerrado", "a cidade não tem condições de organizar eventos dessa magnitude"... Se queremos refletir com propriedade sobre esses lamentáveis acontecimentos, convém começar por estabelecer - na medida em que isto é possível no momento em que escrevo - o que de fato ocorreu.

Segundo os jornais, a sequência teria sido essa: dois jurados passaram mal durante o desfile, e, de acordo com o regulamento, foram substituídos. Isso desagradou a alguns dirigentes, que suspeitaram de manobra para favorecer a escola Mocidade Alegre: Darly Silva, da Vai-Vai, teria comentado "está tudo vendidinho. Não vamos aceitar". Presidentes das escolas se reúnem e chegam a um acordo - não está muito claro qual: ou bem este ano não haveria campeã, ou nenhuma escola seria rebaixada. O que é claro é a impropriedade de tal acordo, que de qualquer modo não teria sido comunicado aos jurados. Faltando duas notas para completar o julgamento, e com a Mocidade Alegre vencendo a disputa, dirigentes de algumas escolas são filmados invadindo o local da apuração, onde dois energúmenos rasgam votos, chutam envelopes e dão início ao sururu.

Nos depoimentos à polícia, cada qual tenta jogar a culpa nos outros, inclusive inventando balelas das mais improváveis: segundo o advogado de um dos envolvidos, seu cliente não teria rasgado cédulas, mas "envelopes vazios", pois teria entrado no local da apuração para "tentar resgatar os votos dados à sua escola"...

Do ponto de vista psicológico, duas coisas chamam a atenção: o desrespeito às regras por parte dos tais dirigentes, e a impulsividade da sua reação à substituição dos jurados. O presidente da Vai-Vai tinha todo o direito de suspeitar dos novos, mas nenhum direito de fazer o que fez. Poderia ter questionado se havia algum laudo médico sobre o mal-estar dos jurados anteriores, poderia pedir que a apuração fosse adiada até que o assunto se esclarecesse, ou qualquer outra medida conforme ao do regulamento. Por outro lado, se este prevê a troca de jurados, não há o que discutir - suplentes existem para ser chamados em caso de necessidade, ponto final.

Ora, em vez de agir como adultos civilizados, os dirigentes se reúnem para fazer um acordo. O nome disso é motim, e nos navios ingleses de antigamente era motivo de enforcamento. Eles se comportaram como crianças mimadas a quem se nega um brinquedo. Sua ação lembra os pitis delas, segundo o ciclo bem conhecido pelo qual a frustração desencadeia raiva, e esta impele a um ato irrefletido, que visa a "matar" a causa da frustração.

Em adultos, a ocorrência deste ciclo sugere que algo está falhando no sistema interno de controle a que a psicanálise chama superego. Parece razoável supor que aqui se combinem dois fatores, um de ordem conjuntural - a intensidade daquela frustração específica e da raiva que a acompanha - e outro de natureza estrutural, a fragilidade dos freios de que depende o autocontrole, em particular dos ligados aos valores e ideais.

Em situações de competição, um dos valores centrais a determinar o comportamento dos participantes é o fair-play (literalmente, jogo bonito, ou limpo). Não é por acaso que a expressão está em inglês: ela designa o que diferencia os esportes modernos dos antigos, medievais e renascentistas. A origem de quase todos eles está na nas escolas onde, no século XIX, os jovens da elite britânica eram preparados para governar (e preservar) o império mais poderoso do planeta. Saber manter o sangue frio em situações tensas faz parte das capacidades requeridas de um líder, e o fair-play era visto como um dos meios para a desenvolver.

O fair-play é mais do que simplesmente não trapacear: implica respeitar o adversário como um igual, e, ao não agir de modo desleal, de certo modo o levar ter para comigo a mesma atitude. Daí provêm as exigências de cumprimentar o oponente antes e depois do jogo, de acatar as decisões do juiz durante a partida, de saber ganhar com elegância e perder com dignidade.

Que o carnaval tenha se convertido numa competição não é segredo para ninguém, e não me parece um grande problema. O desfile das escolas é o ponto culminante de todo um sistema que confere às comunidades envolvidas um senso de identidade de grande importância emocional. Daí as paixões que o cercam, e o natural desejo de levar o troféu: é evidente o reforço que isso traz no plano da autoestima e do prestígio.

Mas esses ganhos só podem ser obtidos se a vitória for limpa, e portanto incontestável. "Estragaram nossa festa", disse a presidente da Mocidade Alegre, Solange Bichara - que, segundo os jornais, na tal reunião agiu de acordo com o fair-play, votando pela recusa das notas dos jurados sobre os quais pesava a suspeita (não importa se justa ou não) de que iriam favorecer a sua escola.

Ao contrário da dirigente Solange, os que melaram a apuração se comportaram como trogloditas: todo o resto é retórica para ocultar esse fato. Não souberam perder, assim como provavelmente não saberiam ganhar. E nisso, para concluirmos, se equiparam a muitos de nós, brasileiros, para quem só o sucesso interessa, sem olhar para como foi conseguido.

Exemplos não faltam, dos incompetentes e corruptos que se agarram como carrapatos às suas cadeiras ministeriais ao enlameado presidente da CBF, acusado de levar dinheiro público numa nebulosa negociata, e a um ex-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, que se autoconcedeu uma indenização milionária.

Que Darly Silva, Tadeu Faria e Cauê Ferreira e companhia sejam castigados pelo vexame que provocaram, que as escolas a que pertencem recebam alguma punição que desestimule outros dirigentes a desrespeitar as regras da sua própria Liga, que torcidas facilmente inflamáveis sejam impedidas de presenciar a apuração dos próximos desfiles - e que os lamentáveis incidentes que mancharam o carnaval de 2012 sirva para todos nós pensarmos um pouco mais antes de agir precipitadamente.

RENATO MEZAN É PSICANALISTA, PROFESSOR TITULAR DA PUC/SP, AUTOR, ENTRE OUTROS , LIVROS, DE INTERVENÇÕES (CASA DO PSICÓLOGO)

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