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Sai nos EUA biografia densa de Sylvia Plath

'Red Comet', de Heather Clark, é o mais ambicioso estudo sobre a vida da poeta norte-americana

André Caramuru Aubert, Especial para o 'Aliás'

22 de maio de 2021 | 16h00

Cometa Vermelho (Red Comet) é um título perfeito para esta monumental biografia de Sylvia Plath que saiu nos EUA. Tirado de um trecho do poema Stings, escrito pela poeta quatro meses antes de morrer, define com perfeição uma figura que passou pelo planeta de maneira breve e fulgurante e que, desde a primeira aparição, não se cansa de regressar de tempos em tempos – seja em forma de biografias, documentários, antologias etc. E Red Comet: The Short Life and Blazing Art of Sylvia Plath, de Heather Clark,  é, de longe, a mais ambiciosa biografia sobre ela.

Sylvia Plath nasceu em Boston, nos Estados Unidos, em 1932, e morreu em Londres trinta anos depois. O pai, Otto, era professor universitário, o maior especialista em abelhas no país. A mãe, Aurelia, abandonou seus projetos literários para cuidar dos filhos Sylvia e Warren (três anos mais novo). Quando Otto morreu, em 1940, a situação financeira da família se complicou, e Aurelia fez de tudo para que Sylvia pudesse cursar os melhores colégios e universidades, ora com bolsa integral, ou parcial, ou mesmo sem bolsa alguma.

Precoce, com frequência a melhor aluna, adorada por seus professores, Sylvia lia e escrevia vorazmente. Era ansiosa e se obrigava a ser sempre a melhor. Ao mesmo tempo, ao amadurecer numa sociedade muito machista, ela se via espremida entre a pressão para se tornar mãe e esposa de classe média e o impulso para seguir livremente a carreira literária. Talvez por ter herdado um histórico de depressão da família de seu pai, ou por não conseguir lidar com todas as pressões que se autoimpunha. Em 1953, durante a faculdade, Sylvia teve um ‘burn out’ e tentou o suicídio. Internada num hospital psiquiátrico, foi tratada com as práticas da época, o que incluía eletrochoques mal dosados e medicamentos ainda experimentais. Não é impossível que os “cuidados” que Plath recebeu nessa época tenham contribuído para agravar suas futuras crises.

Assim que saiu do hospital, Sylvia terminou a faculdade e seguiu para Cambridge, na Inglaterra, com bolsa de pós-graduação. Lá, conheceu Ted Hughes, também poeta e, como ela, um dos mais promissores de sua geração. Casaram-se em 1956, depois de um brevíssimo namoro. No começo tudo foi bem. Eles se admiravam e um ajudava na escrita do outro. Mas aí vieram os filhos, o sonho de Sylvia de conciliar a vida familiar (numa grande casa de campo) com a vida boêmia londrina, sua eterna ansiedade, o sucesso meteórico de Ted (que chegou antes que o dela), que não se sentia bem morando no interior e era assediado por muitas mulheres, e o caldo entornou. O casal ainda estava em processo de separação quando Sylvia, numa manhã do inverno mais frio da Inglaterra no século 20, acomodou as crianças no quarto, agasalhou-as, abriu bem as janelas, foi até a cozinha, vedou todas as frestas, tomou um monte de pílulas para dormir e abriu o gás do fogão. O mais triste é que o suicídio de Plath não foi uma completa surpresa. Ted, amigos e até o médico (que não era psiquiatra) sabiam que ela estava passando por uma depressão aguda e, diante de seu histórico, consideravam que ela talvez tentasse algo. Mas Sylvia deu um jeito de driblar todo mundo, deixando não pouca gente, depois, com um considerável peso na consciência. 

Sylvia Plath foi uma poeta respeitada em vida, mas, de maneira quase unânime, era vista como alguém que ainda viria a ser muito mais. Tanto que, se os dois livros que publicou em vida são muito bons (uma coletânea de poemas e um romance autobiográfico), é unânime que Ariel, publicado postumamente, contendo inclusive poemas escritos dias antes do suicídio, é muito melhor. Mais do que isso, seus poemas reunidos, editados por Ted Hughes em 1981, incluindo alguns inéditos, é uma obra-prima (que levou o Pulitzer).

Mas foi a morte de Plath, em fevereiro de 1963, que a elevou ao status de celebridade. Desde então, biografias surgiram aos montes (duas delas publicadas também no Brasil). Até a BBC entrou na onda, produzindo, em 2003, Sylvia, filme que conta os últimos anos da vida da poeta, com Gwyneth Paltrow no papel de Plath e o 007 Daniel Craig como Ted Hughes. O filme foi atacado por Frieda Hughes, a filha do casal, sob o argumento de que se aproveitava de maneira desonesta de uma triste história de suicídio. Na realidade, a maior parte das biografias de Plath faz isso, e mais: quase sempre a história é contada como se tudo, cada etapa da vida da poeta, desde a infância, fosse uma espécie de preparação para uma tragédia inevitável. Ou seja, quando se fala de Sylvia Plath, tudo o que ela produziu e viveu acaba definido por seu suicídio.

É contra essa leitura que Heather Clark se propôs a trabalhar, nesta consistente biografia de Plath. Ao longo de mais de mil páginas, nas quais seguimos a vida da poeta tão de perto que às vezes parece que somos sua sombra, a autora celebra a precocidade, o talento, a obra e os dramas pessoais de Sylvia Plath, e não sua morte. Os fatos podem ser os mesmos, mas a maneira como são abordados, e interpretados, faz toda a diferença. E Clark não economizou esforços. Ao longo de cinco anos ela entrevistou, leu depoimentos, diários, cartas, poemas, contos, checou e cruzou versões, visitou locais importantes. Parece não ter sobrado nada que ela não tenha examinado.

Há explicações para que Sylvia Plath tenha sido retratada como foi. Em primeiro lugar, há fatores objetivos: uma das mais badaladas poetas de sua geração, recém-separada de um poeta de sua geração, comete suicídio, envenenando-se com gás de cozinha enquanto seus dois filhos pequenos dormiam no quarto acima (Frieda com três anos, Nicholas com um). Para piorar, Ted estava tendo um caso com Assia Wevill, considerada uma das mulheres mais atraentes de Londres, com quem ele viria a ter uma filha, Shura. E, três anos depois, em 1965, foi a vez de Assia, já separada de Ted, cometer suicídio com gás. Só que, no caso dela, levando a filha junto.

Há mais. Além de excepcional poeta, Plath era bonita, o que sempre ajuda a alimentar mitos (chegou a ser chamada de “a Marilyn Monroe da poesia”). Seu romance autobiográfico A Redoma de Vidro e seus Diários foram muitas vezes tomados por seu ‘face value’. Por exemplo, reclamações da filha com relação à mãe fizeram de Aurelia uma vilã, o que absolutamente não era verdade (Clark mostra isso muito bem). O mesmo se deu com alguns poemas, lidos sem que se separasse autora de narradora, como Daddy, que relata um nazista cruel, quando Otto, ainda que pudesse ser um alemão com traços conservadores, foi cientista respeitado e pai carinhoso, que odiava tudo o que se referisse a Hitler e sua turba.

Uma outra origem das distorções é que Plath teve muitos amigos e raramente rompeu com alguém. Uma exceção foi Olwyn, a irmã de Ted. Durante um Natal as duas brigaram feio, e jamais reataram. Quando Sylvia morreu, o papel de “agente” de Ted, que Plath exercia desde que se casaram, ficou com Olwyn, que passou a cuidar também da obra deixada por Sylvia, incluindo cartas, diários e esboços. Assim, foi a ex-cunhada, que a detestava, quem mais alimentou os biógrafos. Finalmente, o mito seria ampliado pelo que não pôde ser lido: após a morte de sua ex-esposa, Ted deu sumiço em um número incerto de inéditos, aí incluídos trechos de diários e um romance inacabado (muito mencionado por ela em cartas e conversas com amigos). Ele dizia que queria proteger os filhos, mas o mais provável é que pretendesse resguardar a própria reputação.

Eu devo confessar que sempre tive algumas reservas com relação ao excesso de louvores dirigidos a Sylvia Plath ou, melhor colocando, ao barulho que fez dela um mito que parecia maior que a obra. Não sei se mudei completamente de opinião, mas a verdade é que Red Comet tem o poder de abalar convicções. A personagem que emerge da biografia é alguém com um talento gigantesco, competitiva, estudiosa, perfeccionista, atormentada, funcionando sempre em giro acelerado, ao ponto de parecer ser complicado, mesmo, imaginar que ela caberia dentro de si, e que, na ausência de válvulas de escape adequadas (que parentes, amigos, marido e médicos falharam em fornecer), uma implosão não viria a ocorrer, mais cedo ou mais tarde. Quem não sai muito bem na foto, aliás, é a dra. Ruth Beuscher, psiquiatra que tratou Plath em sua primeira crise, mas que depois ficou “amiga”, atravessando a linha que separa médico/paciente, com resultados nada bons.

É impossível ler este livro sem sofrer com a tragédia vivida por essas pessoas talentosas (que se estendeu até março de 2009, quando Nicholas, o filho, então um respeitado biólogo marinho, se enforcou durante uma crise de depressão enquanto pesquisava no Alasca). E passar por estas páginas dá uma enorme vontade de voltar aos poemas de Sylvia Plath e Ted Hughes, lê-los com calma, com olhos renovados e, finalmente, no caso específico de Plath, lamentar por todos os poemas que ela, ao partir tão cedo, quando estava no ápice de seu poder criativo, deixou de escrever.

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