Editora Mundaréu
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Saiba como um fracasso editorial levou um romancista exilado a ganhar o Prêmio Nobel de literatura

Originalmente 'El Señor Presidente', de Miguel Ángel Asturias, foi classificado o melhor romance em língua espanhola por Mario Vargas Llosa

Manuel Roig-Franzia, Washington Post

23 de julho de 2022 | 16h00

Se você já usou uma dessas ferramentas de tradução online, provavelmente descobriu que simplesmente gerar o significado literal de uma sequência de palavras pode produzir uma mixórdia incompreensível. A linguagem desafia essa fórmula dois-mais-dois-igual-a-quatro. Bem ao contrário, exige uma equação mais complexa, uma fusão de significados literais com uma compreensão do que o autor do original estava tentando dizer.

Este é um dos muitos desafios que David Unger superou em sua magistral tradução de Mr. President, um clássico (muitas vezes esquecido) romance de Miguel Ángel Asturias. Ao tornar este trabalho acessível, Unger não apenas trocou o espanhol pelo inglês. Ele também navegou por uma obra que se baseia no vernáculo de um país onde metade dos habitantes não fala espanhol e se comunica principalmente numa das mais de vinte línguas indígenas maias.

Unger, um autoproclamado “guategringo” (nascido na Guatemala, criado e educado nos Estados Unidos), explica sua tarefa numa fascinante “Nota sobre a Tradução” que dá aos leitores um vislumbre de sua arte. Até mesmo dois aficionados guatemaltecos de Astúrias ficaram perplexos com algumas das 250 perguntas que ele quis verificar com eles.

A nota de Unger é uma de três – três! – seções introdutórias para esta tradução da Penguin Classics, uma óbvia indicação de que algum contexto e construção foram necessários para preparar o leitor para esta obra seminal do gênero ditador latino-americano. No prefácio, o famoso romancista peruano Mario Vargas Llosa – autor de um dos melhores livros sobre ditadores da América Latina, A Festa do Bode, baseado no déspota dominicano Rafael Trujillo – caracteriza El Señor Presidente como algo “qualitativamente melhor que todos romances anteriores em língua espanhola”.

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Gerald Martin, professor emérito de línguas modernas da Universidade de Pittsburgh, declara que foi Astúrias – e não Gabriel García Márquez, como geralmente se acredita – quem inventou o realismo mágico
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Então, na introdução, Gerald Martin, professor emérito de línguas modernas da Universidade de Pittsburgh, declara que foi Astúrias – e não Gabriel García Márquez, como geralmente se acredita – quem inventou o realismo mágico. Martin conta a emocionante história de origem de El Señor Presidente, um romance que Astúrias escreveu parcialmente na Guatemala em 1922 e terminou uma década depois em Paris, em 1932, depois de fugir da perseguição política em seu país de nascimento. Mais catorze anos se passariam antes que o livro fosse finalmente publicado, em 1946, no México – atraso forçado pela ameaça de mais perseguição política, porque Astúrias, não podendo mais viver no exterior, foi obrigado a retornar à Guatemala. O livro foi um fracasso.

El Señor Presidente, que se passa no início do século 20, só se tornou uma “sensação da noite para o dia” quando foi republicado dois anos depois na Argentina, escreve Martin. Nos últimos anos de vida, Astúrias, que morreu em Madri no ano de 1974, foi diplomata guatemalteco, mas se exilou após um golpe sub-repticiamente apoiado pelos Estados Unidos. Uma vez mais ele alcançou grande aclamação literária em 1967, selando a reputação de um dos grandes nomes da região, tornando-se o primeiro romancista latino-americano a ganhar o Prêmio Nobel.

O prêmio renovou o interesse por El Señor Presidente, que remonta ao reinado autocrático de 1898 a 1920 do ditador guatemalteco Manuel Estrada Cabrera. O livro, que até mesmo seu tradutor considera ter uma prosa “muitas vezes excessivamente poética e às vezes repetitiva e redundante”, gira em torno do assassinato de um coronel conhecido como “o homem da mulinha”.

A busca por seu assassino é manipulada por um presidente insensível, que nunca é nomeado, e seu confidente, uma figura escorregadia e trágica chamada Miguel Angel Face, que, “feito Satanás”, era “bom e mau”. Face adverte um suspeito para não “perguntar se alguém é inocente ou culpado (...). O inocente, sem o apoio do presidente, está bem pior que o culpado”.

Astúrias enche o romance de mendigos, ricos ociosos, aristocratas sorridentes e sicofantas políticos. Há masmorras, espancamentos cruéis, uma execução caprichosa – tudo a serviço de um presidente servilmente conhecido como o “Padrinho Supremo”, o “Benfeitor do Povo” e o “Defensor da Juventude Estudiosa”.

No regime errático do presidente, até seus aliados mais próximos estão em risco. A traição é a regra. Na casa de um chefe militar, a empregada está espionando o general e o cozinheiro, enquanto o cozinheiro está espionando o general e a empregada.

Diante de tal opressão e desconfiança, segue-se apenas que os personagens do romance são atormentados por alucinações e pesadelos, manifestações dos traumas que enfrentam em suas vidas reais. Às vezes é difícil digerir o desespero e o horror gráfico do romance. Mas Astúrias sabia moderar esses horrores, felizmente, e alivia a tensão com cenas absurdas ou sarcásticas. Durante um desses momentos, a alucinação de um mendigo traz aquela que deve ser uma das palavras compostas mais longas já impressas: “Curveofacurveincurveofacurveincurveofacurveincurve”. (O mendigo estava em agonia, mas, quando me deparei com essa palavra maluca, não pude deixar de rir).

Lendo Mr. President, é impossível não pensar na atual e triste situação na Guatemala, onde corrupção endêmica, ilegalidade, traficantes de drogas, traficantes de seres humanos e desigualdade econômica – combinados com problemas agrícolas induzidos pelas mudanças climáticas – levaram centenas de milhares de guatemaltecos a tentar entrar ilegalmente nos Estados Unidos. (A Guatemala é consistentemente classificada entre os países mais corruptos pelos defensores internacionais das práticas de boa governança).

Enquanto Mr. President desce mais fundo no abismo de injustiça, violência e desespero, um prisioneiro embarca num longo lamento que quase se lê como uma premonição: “Somos um país amaldiçoado. Vozes celestiais gritam quando troveja: criaturas vis e imundas! Cúmplices da maldade!”

Mr. President

Miguel Ángel Asturias. Traduzido por David Unger

Penguin Classics - 282 páginas - US $17.99

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Manuel Roig-Franzia é escritor da equipe do Washington Post que foi chefe da sucursal do jornal na Cidade do México e em Miami.

/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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