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'Salka Valka' é uma obra-prima redescoberta da Islândia

Obra de Halldor Laxness, que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1955, foi escrita pelo autor aos 20 e anos e se concentra na coragem e na vida interior de uma mulher

Jane Smiley, Washington Post

10 de junho de 2022 | 10h00

Talvez a Islândia possa reivindicar ser o país "mais intrigante" do mundo. É uma próspera democracia independente em uma pequena ilha vulcânica que balança como um medalhão do Círculo Polar Ártico. Tem uma longa e complicada história escandinava e, por cerca de mil anos, vem gerando escritores produtivos e originais. Um dos meus favoritos é Halldor Laxness, que nasceu em 1902,  morreu em 1998, e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1955. Talvez não seja coincidência que ele tenha nascido no aniversário de William Shakespeare. Seu romance mais conhecido em inglês é Gente Independente. Mas este novo, retraduzido agora e publicado pela Archipelago Books, é Salka Valka, que foi escrito quando Laxness tinha 20 e poucos  anos e se concentra na coragem e na vida interior de uma mulher que tem que se virar sozinha em um pequena aldeia no norte da ilha, e é, embora diferente de "Independent People", igualmente interessante.

A história começa quando Salka Valka e sua mãe, Sigurlina, aparecem na vila de algum lugar que Salka não consegue se lembrar. Salka tem 8 anos. Ela preferia ir para Reykjavik e já sabe que não há adultos com quem possa contar, em parte porque seus pais não eram casados. A economia da aldeia é baseada na indústria pesqueira, e ninguém recebe salário - o dinheiro que lhes é devido é depositado nas contas de um armazém geral de propriedade do homem que também é dono da empresa pesqueira, e é ali que as famílias locais obtêm os poucos itens básicos que podem pagar. Sigurlina e Salka buscam ajuda no Exército da Salvação.

Laxness explora a vida interior de Salka e as circunstâncias sociais e econômicas da vila, pois ambas mudam ao longo de cerca de 20 anos. Sua história é longa e sombria, mas Laxness é hábil em fazer algumas observações divertidas. A certa altura, Salka está conversando com seu amigo um tanto misterioso, mas de longa data, Arnaldur, sobre um político que Salka pensa ser marxista (marxismo versus capitalismo é um tema contínuo do romance). Ele diz: "Nós somos o povo de Ormar Orlygsson, que despreza a vitória no momento em que a conquista, e Thorsteinn Sidu-Hallsson, que não tinha vontade de fugir do exército inimigo na Batalha de Clontarf, e, em vez disso, sentou-se e amarrou seu cadarço."

Por ter sido escrito no início da década de 1930, Laxness é reticente sobre o evento que afastou Salka da vida normal de uma mulher pela qual sua mãe anseia, mas o leitor pode sentir que algum tipo de violação sexual é o gatilho. No entanto, Laxness não está tão interessado em como Salka processa esse evento quanto em como sua autodeterminação e força a levam através de muitos eventos e decisões, e ele também está interessado em como os cidadãos desta cidade sombria sobrevivem a seus problemas e discutem sobre qual sistema político eles acham que funcionará melhor para eles e seus companheiros aldeões.

Laxness demonstra que nas décadas de 1920 e 1930, escolher o modelo soviético ou o modelo americano era uma escolha individual que dependia das circunstâncias, da personalidade e das dificuldades de realmente saber o que estava acontecendo fora da aldeia, ou da cidade, que uma pessoa poderia viver. No final, Salka e Arnaldur entram em uma discussão que explora se o político e o pessoal podem coexistir. Parece exatamente o balanço que um brilhante escritor sofisticado de 30 anos faria sobre a natureza do amor e da paixão e quais verdades políticas eles expressam. Sem dúvida, esse aspecto de Salka Valka foi moldado pelo problema em que Laxness se meteu em 1929 ao publicar um artigo em uma revista canadense focada em imigrantes islandeses que iam para os Estados Unidos e que criticava os EUA (Laxness viveu por dois anos em Hollywood, tentando conseguir uma folga, e ficou perturbado com as pessoas empobrecidas e sem-teto que viu.)

Laxness foi prolífico - ele escreveu 22 romances, além de histórias, peças, poesia, diários de viagem. Ele também traduziu as obras de Ernest Hemingway para o islandês. Mas ele era alguém que buscava, como Salka e seus colegas, ansioso para entender como o mundo funciona e como ele pode ser feito para funcionar melhor.

Para os leitores modernos, especialmente aqueles que estão cientes de que a Islândia se tornou um destino turístico próspero e esclarecido, Salka Valka é uma exposição maravilhosa do passado conturbado da Islândia e da sensibilidade islandesa que vem de fazer o melhor das coisas, mesmo quando não há muito a ser feito. Os personagens de Laxness são ásperos e honestos, e Salka Valka é um dos retratos mais empáticos de uma garota e uma mulher que eu li escritos por um autor. Esta nova tradução é legível e atraente.

TRADUÇÃO DE LÍVIA GONÇALVES 

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Jane Smiley é autora de vários romances, incluindo "The Greenlanders", que foi influenciado pela literatura islandesa.

SERVIÇO

Salka Valka, de Halldor Laxness, traduzido por Philip Roughton

Archipelago Books. 626 pp. $23

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