Salva pelo furacão e por um caubói

Suspense pela espera do Isaac e diálogo de Clint Eastwood com uma cadeira livram do tédio a convenção do Partido Republicano

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h09

A convenção do Partido Republicano para sacramentar a escolha da chapa Mitt Romney-Paul Ryan só não foi o tédio previsto graças a duas forças na natureza: o furacão Isaac e Clint Eastwood. O furacão deu um pouco de suspense à abertura da festa e o ator-cineasta, o único momento de inspiração de todo o convescote.

Isaac repetiu o contratempo causado por outro furacão (Gustav) na convenção republicana de 2008, em Minneapolis-Saint Paul, mas afinal desviou-se da Flórida para a Louisiana e o Mississippi, ameaçando repetir em New Orleans parte do estrago feito pelo Katrina, no segundo mandato de Bush. A natureza parece ter uma birra com os republicanos; de resto, mais do que justificável, pois eles vivem cortando verbas destinadas a ampliar o socorro às vítimas de desastres ambientais e a agências de monitoramento de tornados, terremotos e calamidades do mesmo porte.

Republicano velho de guerra, Eastwood roubou a cena transformando Obama numa cadeira quase beckettiana, com a qual monologou fazendo-lhe cobranças pertinentes (existem 23 milhões de desempregados no país, várias promessas de campanha, como fechar Guantánamo, julgar os terroristas do 11 de Setembro em Nova York, trazer de volta os soldados que ainda estão no Afeganistão, não foram cumpridas), mas omitindo o principal: a atual crise econômica e as guerras ainda em curso Obama herdou-as do governo anterior.

Seu arremate ("Chegou a hora de dar uma chance a um homem de negócio") foi lamentável. Se foram justamente homens de negócio que ajudaram a afundar a América, nos últimos quatro anos ou mais, por que lhes oferecer uma nova chance?

Romney, o genérico que os republicanos escolheram para lhes retomar a Casa Branca, repetiu a cantilena do caubói, como se o fato de Obama não ser um business man fosse defeito grave, e não, na presente conjuntura, uma virtude. De lambuja, tributou ao presidente malogros com pelo menos 30 anos de gestação, com o DNA de três presidentes republicanos.

A convenção do Grand Old Party foi, para usar a expressão de um analista confiável, "um festival de distorções e mentiras". Só no discurso do candidato a vice Paul Ryan, Jonathan Cohn, da revista The New Republic, detectou cinco lorotas. Apenas uma (a do fechamento de uma fábrica da GM, no Wisconsin, atribuído a Obama, mas executado antes de sua posse) foi notada pelos demais jornalistas que cobriram a unção de Romney & Ryan no Tampa Bay Times Forum.

O foro foi construído para ser uma arena de hóquei, dos esportes coletivos, o mais conservador. Na eleição passada, Obama preferiu ser ungido num cavernoso estádio de futebol americano, em Denver (Colorado), adornado por uma colunata neoclássica, que conferiu à cerimônia um ar de grandiosidade cafona. Deu sorte eleitoralmente, mas nenhuma referência, nem sequer arquitetônica, à malfadada Grécia os democratas hão de querer este ano. Colunas, desta vez, nem romanas, até porque o eleitorado americano, acintosamente ignorante (30% não conseguem dizer qual dos dois partidos é o mais conservador, 23% desconhecem o nome do vice-presidente Joe Biden), não saberia distingui-las.

Frank Lloyd Wright, ao menos de fama, o eleitorado conhece. Foi o mais reverenciado e badalado arquiteto americano do século passado. Romney não pensou em outro ao optar por uma guaribada no Tampa Bay Times Forum, com intenção de "domesticar e humanizar" aquele espaço. A informação foi vazada por Jim Fernhagen, principal designer da reforma, que se inspirou no jovem Wright, da Fase Pradaria, com aquelas casas longas e horizontais, de janelas com moldura de madeira, não no Wright do Museu Guggenheim.

Arbitrária a escolha não foi. Há uma lógica ligando Wright (1867-1959) ao companheiro de chapa de Romney, que promete ter uma participação mais destacada, num eventual governo republicano, do que Nixon sob Eisenhower, quem sabe até maior do que Dick Cheney sob Bush. Jovem e (com perdão da palavra) carismático, Ryan parecia ser a Sarah Palin da vez (com mais neurônios, é verdade), mas revelou-se capacitado a tornar-se o Richelieu de Romney.

Ryan é o ideólogo da dupla, o guru orçamentário (receita básica: cortes nas despesas públicas e alívio nos impostos para os ricos, para que esses possam criar mais empregos para os pobres, etc.), o elo mais forte com a direita histérica, o business man carimbado pelo Tea Party, o herdeiro espiritual de Ayn Rand, maîtresse à penser dos conservadores americanos.

Ryan vivia vangloriando-se de ter sido educado pelas ideias "filosóficas" de Rand, cujo dogmático e intolerante Objetivismo divide a humanidade em duas categorias: criadores, racionais e individualistas de um lado, parasitas e irracionais do outro. Suas duas fantasias objetivistas, A Nascente (The Fountainhead), de 1943, e A Revolta de Atlas (Atlas Shrugged), 1957, introduziram no Olimpo pop americano as figuras de Howard Roark, arquiteto nietzscheano, obstinado e personalista, encarnado por Gary Cooper na versão para o cinema de The Fountainhead (no Brasil, Vontade Indômita), e John Galt, um Zaratustra do empreendedorismo pragmático e misantropo.

A Revolta de Atlas converteu muitos adolescentes desencantados com os ideais igualitários. Muitos se recuperaram com a idade; outros, como Ryan, não. Se bem que, nos últimos dois anos, ele tenha evitado tocar nesse assunto para não se queimar junto ao eleitorado mais carola. Sua musa ideológica não acreditava em Deus e era a favor do aborto.

Rand dissimulava. Seu único propósito, nos dois romances, dizia, era projetar um homem ideal. Para criar Roark, inspirou-se em Wright, de quem se aproximou para melhor conhecer seu modelo. Convidado pelo diretor King Vidor para desenhar os cenários do filme, o arquiteto tirou o corpo fora. Depois, deplorou que os croquis vistos na tela fossem uma grossa caricatura de sua arquitetura. Mais grossa ainda foi a caricatura montada pelos republicanos no Tampa Bay Times Forum, com plástico imitando madeira e outros insultos à obra de Wright, que, aliás, seria visto pelos republicanos de hoje como um perigoso comunista.

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