Samba-canção maoista

Soldados chineses enfim ganham cuecas com cintura de elástico. O que isso diz sobre o país?

Peter Ford, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR

13 Dezembro 2014 | 16h00


Dá para se aprender muito num artigo que acabou de sair no website do Exército de Libertação Popular da China (ELP). Por exemplo, que as cuecas dos soldados chineses só foram equipadas com cintura elástica neste século 21.

Até recentemente (recorda o artigo), um soldado de infantaria “tinha de se preocupar com o cordão de sustentação de suas grandes cuecas - bom para afrouxar em horas impróprias e difícil de desamarrar quando o infante precisava atender a um chamado da natureza”. 

Por trás dessa palpitante revelação há uma constatação: os planejadores militares chineses dão mais atenção a porta-aviões e foguetes destruidores de satélites que a seus soldados de infantaria. Estes têm uma tradição de combater com pouco equipamento que remonta aos dias em que o Partido Comunista operava uma guerra de guerrilhas antes da revolução. O dinheiro já não é tão escasso, mas Pequim continua gastando pouco com sua infantaria. 

O equipamento de combate que o soldado chinês médio usa custa o equivalente a “dois iPhones 6 básicos”, diz o artigo. Já seu congênere americano carregaria uma parafernália dez vezes mais cara, mais ou menos o preço de “um carro médio”, segundo estimativa do repórter.

Um exemplo: soldados americanos usam capacetes de Kevlar equipados com tecnologia de comunicação. A maioria dos soldados chineses, diz o artigo, ainda usa capacetes de aço; somente uma minoria tem modelos de Kevlar - e nenhum com fone de ouvido ou microfone.

“As comunicações dependem basicamente de gritar”, diz o artigo, citando um soldado prestes a se aposentar depois de 16 anos de serviço, Wang Fujian.

Mas eles ainda podem se considerar com sorte por ter capacetes. Na última guerra que as tropas chineses travaram - um conflito de fronteira com o Vietnã em 1979 - os capacetes nem eram equipamento padrão; ao contrário, eram aviltados como “equipamento de fracos”, recorda o artigo.

Esse tipo de pensamento não morreu por completo nos militares chineses. Apesar de a China ser o maior exportador mundial de coletes à prova de bala, pouquíssimos de seus soldados usam a proteção. “Alguns líderes consideram concessão demais envolver soldados em tanto equipamento”, diz o artigo, citando o instrutor de logística do ELP Cui Xianwei.

Essa atitude contrasta fortemente com a abordagem adotada pelo Exército americano, que dá aos soldados de infantaria cuecas de Kevlar para protegê-los contra artefatos explosivos improvisados.

Uma faixa de cintura elástica - num charmoso padrão de camuflagem, segundo uma ilustração no website - é o máximo de alta tecnologia que a roupa de baixo dos militares chineses recebe.

A China tem o segundo maior orçamento militar do mundo, atrás (muito) dos Estados Unidos. “Mas, na verdade, o segundo lugar não trouxe mais sensação de segurança para os soldados chinese”, diz o artigo no site do ELP.

O website assinala que, segundo um artigo publicado pela agência noticiosa estatal Xinhua no início do ano, os gastos com equipamentos individuais de soldados permaneceram inalterados nos últimos cinco anos, apesar de o orçamento militar total ter dobrado.

Isso é contraproducente, sugere um funcionário político do ELP cujo nome não é citado no artigo do website. “Educamos nossos soldados para não temerem nem as dificuldades nem a morte”, diz o funcionário. “Mas se lhes fornecermos equipamento protetor avançado, eles se sentirão muito mais protegidos e, como consequência, mais confiantes para vencer a guerra.” / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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