Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Santa rebeldia

Na homilia da missa em Aparecida, o papa afirmava que os jovens "não precisam só de coisas, precisam sobretudo que lhes sejam propostos aqueles valores imateriais que são o coração espiritual de um povo, a memória de um povo". De fato, no Brasil todos sabem que, há quase 300 anos, três pescadores tiraram do Rio Paraíba uma imagem da Virgem que lhes proporcionou uma miraculosa pescaria. Para manter viva e carregada de significado a lembrança daquele fato, porém, além de descrevê-lo como um mantra, sempre da mesma forma, ele poderia ser vivenciado. Não necessariamente como a dramatização da via-crúcis na Sexta-Feira da Paixão, mas por meio de uma reconstituição histórica, conceitual ou teórica. Ainda que lacônico, o documento que registra o acontecimento sugere certo conflito no cerne da narrativa daquele encontro de uma imagem da Senhora da Conceição. Oito anos depois do ocorrido, o pároco de Guaratinguetá redigia o relatório usado como base para o que foi escrito no Livro do Tombo da paróquia, em 1757, pelo vigário João de Morais e Aguiar, sob o título Notícia da Aparição da Imagem da Senhora:

LUCIANO RAMOS *,

28 de julho de 2013 | 02h14

"... passando por esta vila para as Minas o Governador, delas e de São Paulo, o conde de Assumar, dom Pedro de Almeida, foram notificados pela câmara os pescadores para apresentarem todo o peixe que pudesse haver... Entre muitos, foram a pescar Domingos Martins Garcia, João Alves e Felipe Pedroso... E principiando a lançar suas redes no porto de José Correa Leite, continuaram até o porto de Itaguaçu, distância bastante, sem tirar peixe algum. E lançando nesse porto João Alves a sua rede de rasto, tirou o corpo da Senhora sem cabeça. Lançando mais abaixo outra vez a rede, tirou a cabeça da mesma Senhora... dali por diante foi tão copiosa a pescaria em poucos lances que, receosos, ele e os companheiros, de naufragarem pelo muito peixe que tinham nas canoas, se retiraram a suas vivendas, admirados desse sucesso".

O conde de Assumar veio para assumir o governo da Capitania de São Paulo e Minas, cuja sede se localizava em Vila Rica. Chegou à vila de São Paulo em agosto de 1717, onde tomou posse do cargo. No fim de setembro, rumou para Vila Rica através do Vale do Paraíba. Depois de prender e punir revoltosos nas vilas por onde passava, chegou a Guaratinguetá no dia 17 de outubro, um domingo. A recepção festiva que teve, entretanto, não serviu para ocultar a tensão que ainda predominava, por conta da recente Guerra dos Emboabas.

Dom Pedro de Almeida Portugal viera para impor a ordem a ferro e fogo. Com a derrota dos paulistas que pretendiam o monopólio da exploração das Minas, a região se tornou terra de ninguém, atraindo centenas de marginais de todo tipo. No ano anterior, como relata o jesuíta que fazia o papel cronista da viagem, ocorreram 17 assassinatos em Guaratinguetá. Para uma vila com menos de 3 mil habitantes, esse número era de fato assustador. Enquanto esperava que o restante de sua bagagem chegasse do porto de Parati, o conde ficou ali até 30 de outubro, numa estadia provavelmente mais tranquila do que lhe prometia Vila Rica, com a rebelião de Felipe dos Santos prestes a estourar. Foram 15 dias de estio primaveril, num dos quais, entre 17 e 30 de outubro, o conde manifestou o desejo de comer peixe. Curiosamente, os pescadores foram designados por nome e sobrenome, ainda que nada mais se soubesse sobre eles.

Ficam, no entanto, algumas questões. O que teria conferido tanta dramaticidade à encomenda para que seu cumprimento fosse considerado um prodígio? Teria a Virgem se manifestado entre os mortais apenas para satisfazer a gula de um nobre enfastiado com a comida caipira? Em nome de quê a Padroeira teria permitido a morte de tantos peixes? Para evitar uma desgraça na vida dos pescadores ou para engordar ainda mais os aristocratas?

A hipótese que esboçamos para responder a essas dúvidas permite que todas as peças se encaixem. Os fracassos iniciais da pescaria destinada a saciar o apetite do representante do rei podem ter sido interpretados como sintomas de rebeldia. O que esperar de tempos como aquele e da comitiva do conde?

Desde que chegara ao Brasil, ele se dedicara com caprichoso afinco à tarefa de encontrar sinais de revolta em tudo e em todos. E o castigo para quem se recusasse a obedecer a um governador era, sem dúvida, a morte. A ameaça dessa punição deve ter gerado toda a atmosfera de nervosa expectativa que caracteriza o texto do padre João de Morais e Aguiar.

Aqueles três brasileiros teriam sido os primeiros a enfrentar diretamente aquele que era o representante imediato do próprio João V, o rei de Portugal.

Nesse confronto que imaginamos para reconstruir a cena, os níveis mais elevados e os mais inferiores da estrutura social se opunham, quem sabe pela primeira vez, no Brasil daquele século. Em lugar de ouro, diamantes ou cana-de-açúcar, porém, a discórdia foi mediada por uma prosaica partida de peixe - por coincidência, justamente o animal que serviu de símbolo para os primeiros cristãos.

 

* LUCIANO RAMOS É JORNALISTA, PESQUISADOR DO INSTITUTO DE ARTES DA UNICAMP E AUTOR DO LIVROAPARECIDA – SENHORA DOS BRASILEIROS (PAULINAS).

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