Santa sacanagem!

Das peripécias e manifestações políticas do Batman do Capão Redondo

Juliana Sayuri, O Estado de S. Paulo

07 Junho 2014 | 16h00

 

Era noite de terça-feira, 27 de maio, uma das madrugadas mais frias deste 2014, quando Dias se sentiu febril. Foi até a Assistência Médica Ambulatorial (AMA) do Capão Redondo, bairro periférico na zona sul de São Paulo. Esperou.

E esperou mesmo. Foram quase nove horas no postinho, com gripe brava, febre alta, humor abalado. Nos últimos 45 minutos, já diagnosticado com pneumonia, amargou uma agulha na veia, pingando soro mui lentamente. Bastou. "O enfermeiro disse que, se tivesse a agulha certa, o soro desceria rapidinho, uns 15 minutos no máximo. O pessoal pediu mais recursos à Secretaria de Saúde, mas o cara respondeu: ‘Se não tenho caneta no escritório, uso lápis’. E se não tiver Benzetacil, tomo um AAS?! Tenha a santa paciência! Aí a revolta me subiu no sangue! Na hora já me imaginei pendurado na Câmara Municipal para protestar."

Dias quase não dormiu no domingo passado, aflito com essa "missão". Deve ter caído no sono ao som de Garotos Podres, seu estilo preferido: "É minha canção de ninar e meu despertador. Já acordo revoltado".

Na manhã seguinte, vestiu-se de padre carmelita para despistar os GCMs. Não foi revistado. Por baixo da batina, já trajava a fantasia de Batman – "a farda", emenda – e a parafernália improvisada para rapel. Diz improvisada pois o equipamento original do rapel custa R$ 800 – e, como a cada B.O. o equipamento é confiscado pela polícia, nos protestos ele prefere arriscar uma versão amadora de R$ 250. O infiltrado passou pelos gabinetes dos vereadores Laércio Benko e Coronel Telhada e, no quinto andar, tirou a batina, jogou a corda e se pendurou nos janelões. Enquanto Batman rapelava, seus companheiros Zorro, Vampiro e Jack Sparrow bradavam contra o "caos" na saúde paulistana, distribuindo pequenos panfletos com os dizeres: "santa sacanagem".

Ex-lutador de jiu-jítsu e alpinista, grafiteiro nas horas vagas e pintor predial no holerite, 39 anos, 1,90 de altura, 125 kg, 68 tatuagens, Dias já foi detido 19 vezes, quase todas enquadradas no artigo 40 das contravenções referentes à paz pública: provocação de tumulto. Nas redondezas do Capão, responde por "Ursão" por sua silhueta, digamos, robusta. Diz-se um cara tranquilo, empresário simples, pai de dois filhos. Quem tumultua, na verdade, é seu alter ego: "Batman", o líder do movimento Loucos pela Paz, trupe que faz manifestações desde novembro de 2012, auge dos assassinatos no bairro. "Na época, saindo de casa, precisava desviar de cadáver na rua", lembra. Para protestar contra a violência, o alpinista formou uma "liga da justiça" com amigos mascarados como Zorro, Robin e Mulher Gato. Entre os heróis improváveis, o pirata Jack Sparrow, o palhaço Patatá e o ogro Shrek.

Entre presepadas e peripécias, os Loucos pela Paz protagonizaram diversos atos em São Paulo e Brasília. "Político só entende na ‘porrada’, na pressão. O povão acordou, foi pra rua. Mas a gente não quer se perder na multidão, não quer se misturar com black bloc e tal. Não concordo com quebrar patrimônio do pessoal. Aí é vandalismo. A gente quer fazer protesto inteligente, bater na porta do político, mandar carta, pedir resposta", diz, voz apressada, ideias atarantadas.

– Que porra é essa, Batman?! – questionou o delegado Cláudio Lopes, do 1° DP, ao ver os manifestantes pela primeira vez.

– São meus amigos, meus companheiros.

– Ué, cadê o Robin?

– Não pôde vir…

– Mas como fica a dupla dinâmica?

Lopes levou os Loucos para a delegacia, onde protocolou o B.O. 900114. "O cara não é mau caráter. Só queria mostrar sua indignação. É figuraça. Agora posso dizer: filho, papai prendeu o Batman!", diverte-se Lopes. "A sério agora. Avisei: ‘Amigo, não faz isso, protesto assim é perigoso. Se você escorrega, cai e morre, depois de três dias, será que alguém vai lembrar de você?’"

De volta ao Capão Redondo, encontrei o mascarado no seu batmóvel, um Nissan Pathfinder. "Na adolescência, tinha tudo para virar criminoso. Lembra o assalto ao Banco Central? Um dos ladrões era meu vizinho. Tive oportunidade errada pra tudo que você imaginar. Mas sou um cara do bem. Um tio meu dizia: ‘Te mostro o caminho do bem e do mal, você escolhe’. Escolhi ser super-herói", conta. "Mas, na verdade, não escolhi o Batman. O Batman me escolheu. Foi a única fantasia que me serviu", confessa, às gargalhadas. Ursão encontra as fardas na 25 de Março – até agora, três pretas e duas cinzas, com um símbolo antinazismo costurado no braço direito e uma bandeira paulista no esquerdo. A capa é feita sob medida e o conjunto, com coturno, cinto, acessórios, sai por uns R$ 1.600. "Não ganho um real com os protestos. Na verdade, gasto nessas ações. É um serviço para a sociedade", diz.

Dias prefere não mostrar o rosto. Gosta da aura de mistério, mas não parece se incomodar com a pompa de herói. "É só elogio. Muita gente ‘chama o Batman’ para pedir ajuda", diz, enquanto, por acaso, a Benedita, mulher do Bastião, interrompe nossa conversa para pedir para Batman fazer uma manifestação por uma avenida prometida há 20 anos para desafogar o trânsito nos arredores da Av. Comendador Sant’anna.

Filiado ao PHS, Dias simpatiza com Suplicy (PT), mas critica tanto Alckmin (PSDB) quanto Haddad (PT). Detesta Tiririca (PR), delira com Jair Bolsonaro (PP) como presidente e adora Rachel Sheherazade. "Não gosto de sigla, de política. Mas, se a gente paga impostos, a gente precisa cobrar os caras que estão no poder." Às vezes Dias larga tudo para se dedicar aos protestos. "Coisa de louco, né? Mas é nosso dever."

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