JULIO MARIA|ESTADAO | ESTADAO CONTEUDO
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Santo forró

Quando o médico recomendou que dançasse para emagrecer, ela abriu um forró em casa. Quando paroquianos disseram que seu forró era mundano, desabafou escrevendo ao papa. Entre anjos e demônios, dona Geralda segue com xotes, xaxados e baiões de outro mundo

Julio Maria / URUAÇU (GO), O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2015 | 16h00

As saias das mulheres não podem estar acima dos joelhos e as pernas dos rapazes não devem cambalear. Geralda vê tudo. Mulher com fogo e homem de fogo não entram. Sentada na varanda de sua casa, ela examina do chapéu dos boiadeiros ao tamanco das senhoras que seguem em direção ao quintal. Uma garota de 18 anos recebe a advertência: “Saia curta demais!”. A garota a desdobra e abaixa dois dedos. Volta e é reavaliada. “Agora, pode.” Um senhor é aconselhado a tomar a cerveja toda antes de entrar. “Bebida, não”, explica uma moça encostada ao portão. Nada pode macular as palavras de Geralda no momento em que ela parar a noite para falar em nome de Deus. Às 22h30, sua filha vai retirar o disco do Calcinha Preta do aparelho de som, os pares irão se soltar no salão e a grande bênção vai começar.

O forró de Geralda nasceu da dor. Uma dor que subia das canelas para os joelhos e a fazia praguejar, mesmo sendo ela mulher criada nas homilias da paróquia do bairro de São Vicente. Disposta a se livrar do mal, sentou-se diante de um médico em Goiânia para ouvir o diagnóstico que fosse: “A senhora precisa perder peso, dona Geralda”.

Caminhar estava fora de discussão: faria suas pernas incharem mais. Mas dançar poderia ser boa ideia, desde que a música fosse a de Luiz Gonzaga. Geralda procurou por dias e não encontrou nenhum forró na vizinhança de sua casa, a de número 194 da Rua Paraíba, na periferia de Uruaçu, interior de Goiás. Naquela noite, foi dormir desapontada para despertar, na manhã seguinte, com a ideia que a salvaria.

Geralda Rogário Dias, 66 anos, acostumou-se a resolver a vida com as próprias ideias desde que deixou a infância na vizinha Niquelândia. Casada, criou sete filhos em pacto e matrimônio com a natureza. O marido se mandou com outra mulher sem deixar endereço assim que o choro dos bebês avisou o tamanho da encrenca. “Um dia, ele quis voltar, mas eu já não o queria”, conta. Merendeira em escola pública, seguiu firme, mesmo se despedindo cedo demais de quatro das suas crianças. “Elas foram morar no céu.” Se havia chegado até ali sem precisar de marido que a sustentasse, não seria a falta de uma terra batida no chão da vizinhança que impediria sua cura. “Eu vou abrir o meu próprio forró”, decidiu, escrevendo na alma.

O forró de Geralda brotou como feijão, de um dia para o outro, como se já vivesse desde sempre debaixo do barro daquele fundo de casinha mal terminada no tijolo cru. Cada vez que a filha botava Gonzaga ou Mastruz com Leite para sair da única caixa de som colocada sobre a mesa da varanda, a vizinhança ouriçava. Sábado passou a ser o dia do “forró da Rua Paraíba”.

As mulheres se maquiavam e os homens lustravam os sapatos. Cinco casais logo seriam 20, 30 e então 50, que se multiplicariam em 100. “Eu já contei 500 pessoas no entra e sai daqui”, diz ela. Quando a estrutura caseira não suportou mais, Geralda subiu uma cobertura, alisou o chão no cimento e fez dois banheiros, para homens e mulheres, como ensinam as casas de família. A fama atravessou rios e chegou a cidades vizinhas, trazendo mais gente e as primeiras dores de cabeça. A conta de água subiu de R$ 20 para R$ 180 e Geralda decidiu cobrar entrada: R$ 5 por sábado ou R$ 12 por mês. Alguns clientes reclamaram, mas não deixaram de pagar.

Ao arrastar o pé nos baiões do próprio quintal, Geralda perdia peso e ganhava fé. Seu regime à base de dois xotes e um xaxado aos sábados, combinado com dieta alimentar sem açúcar, a livrou de 34 quilos impertinentes. A graça, para ela, estava alcançada, e o povo que se juntava aos montes em seu terreiro não deveria estar ali por acaso. Era um sinal dos céus. Se o forró era a cura, o forrozeiro seria o seu rebanho.

E então entra na história a segunda face de Geralda, a Geralda de todos os anjos e todos os santos, a mulher com liderança e carisma suficientes para parar um baile e mandar o coisa-ruim para o além, de fazer caboclos darem as mãos, fechar os olhos e pedir paz para o mundo logo depois de dançarem uma música de Wesley Safadão. “Gente, é a hora da reza.” Sua frase é uma ordem. Os homens se desgarram das mulheres e todos se sentam nas laterais. Geralda puxa um pai-nosso ao microfone e pede graças aos necessitados. É aplaudida enquanto endereça as palmas a Jesus. Dez ou quinze minutos depois, livres de seus pecados, já estão todos de volta ao baile, de olhos espertos e mãos bobas, leves como um xote de Dominguinhos.

Geralda diz que já viu de tudo desde que, por instinto ou chamamento, sentiu que poderia evocar o nome de Deus por necessidade, nunca em vão. Um padre, ela conta, a teria permitido praticar as bênçãos caseiras assim que percebeu sua boa vontade. Certo dia, diz, uma luz azul nasceu no quintal e se movimentou até o peito de um homem enfermo que ouvia sua oração. “Mas esse homem chorou tanto. Ele estava precisando muito daquilo.” Ninguém confirma ter visto o mesmo, mas ela não parece se preocupar com atestados científicos.

Inspirada, passou a usar um quartinho no quintal da frente de sua casa para criar uma espécie de minissantuário. Sem resistir à tentação, pequei quando Geralda me falou sobre seu canto sagrado e usei um artifício mundano para conhecer o local. “Acho que estou necessitado, dona Geralda. A senhora pode me benzer?” Ela sorriu pela primeira vez durante a entrevista e caminhou na frente. “Venha.” Sentada em frente aos santos, conversou com Deus por um longo tempo de velas acesas até terminar com uma reconfortante oração.

Seu quintal pode ter forças também miraculosas para carreiras políticas, embora os próprios políticos não pareçam levar tão a sério seu potencial. Um deles decidiu fazer por ali uma reunião com simpatizantes e possíveis eleitores. Quando chegou para o encontro, Geralda reunia bem mais do que a vizinhança. “Eu vim para uma reunião e encontrei um comício”, espantou-se. Ser apoiado por dona Geralda pode significar, no universo de Uruaçu, o empurrão para uma possível virada nas urnas. “Eu apoio quem me ajuda.” O forró começa a carecer de reformas. As telhas precisam ser trocadas e a casa espera por acabamento. Dois pretensos benfeitores já passaram por ali, mas Geralda lamenta ter acreditado que ganharia respaldo da administração pública. É só por suas mãos que o baile permanece de pé.

O baião de dona Geralda começou a sair do tom no dia em que as ruas passaram a falar mal de sua pessoa. Seu forró, diziam fiéis da paróquia, deveria ser evitado, não era lugar para cristão. Casais pareciam roçar mais do que os braços e Geralda vinha com uma reza que devia ser coisa de curandeira. De benzedeira a curandeira foi um pulo e, a macumbeira, meio. “Como podiam falar isso de mim?”, diz, magoada por terem contestado a fé na Igreja que tanto frequentou desde pequena. Era o começo de dias ruins. “Acho que o problema foi por ela fazer trabalhos de benzimento de uma forma que a Igreja não aprova”, diz Tomaz Antunes, da comunidade católica desde 1988.

A goiana virou uma fera. “O que eu faço é oração para as pessoas.” Geralda rompeu com alguns devotos de reza e deixou de ir às missas por um tempo. Sentiu que até o padre parecia ter acatado às maledicências, desprezando-a em doloroso silêncio. “As pessoas deveriam ter vindo me conhecer antes de falarem mal de mim.”

Se as pessoas não a conheciam, como dizia, o Vaticano receberia notícias de Geralda. Ainda atormentada pelo falatório, pediu ajuda à filha Renata para escrever uma carta de desabafo endereçada à autoridade máxima da Igreja Católica Apostólica Romana, Sua Santidade, o papa Francisco. “Eu queria saber se estava fazendo algo de errado mesmo, se deveria parar de benzer as pessoas no forró, se deveria parar com o forró. Por isso, escrevi.” Oferecia o próprio coração em troca de alívio. “Contei ao papa que fazia oração para as pessoas e que estavam dizendo que eu era curandeira. Eu falei como fazia as orações e pedi para ser repreendida se estivesse errada.”

A carta seguiu para o endereço pesquisado pela filha até que, no dia 25 de janeiro, um rapaz com uniforme dos Correios chamou no portão. Renata foi atender. “Ele tinha uma entrega e pediu para eu assinar um papel antes de receber o envelope. Estranhei porque nunca havia assinado nada dos Correios”, diz a filha. Renata voltou intrigada. O envelope com a imagem de Francisco na frente chegava de Roma, com a carta de resposta e alguns pequenos objetos sagrados, como um crucifixo e uma medalhinha de Nossa Senhora. A filha e Geralda contam que o documento estava escrito em português, respondendo às questões e assinado ao fim pelo próprio pontífice. “Ele escreveu que eu não estava errada. Aquilo aliviou o meu coração, tirou uma coisa ruim de dentro.”

O destino da carta parece o quarto segredo de Fátima. Geralda conta que ela foi levada de sua casa por um rapaz desconhecido do qual não se lembra nem o nome. “Ele disse que iria mostrá-la para uns alunos de uma universidade em Goiânia e que a traria de volta.” Claro que jamais voltou. “Cada um escolhe o seu caminho, fazer o quê?” A filha jura que leu, mas só a filha. Dos 36 mil habitantes da cidade de Uruaçu, talvez mais da metade tenha escutado falar da correspondência, mas nenhum a viu. Geralda não faz maiores propagandas de suas confidências ao papa, afirma lembrar-se pouco do conteúdo, mas diz que sentiu a paz retornar ao coração e ao quintal desde então.

Seus santos parecem trabalhar duro. Geralda ainda não sabe, mas a prefeita da cidade, Solange Bertulino, avisa por meio de um interlocutor que vai atender ao menos dois de seus pedidos. Um deles se refere à sua saúde: “A Secretaria de Saúde deverá providenciar a punção de um nódulo tireoidiano de Dona Geralda, como solicitado pelo médico”. O outro fala em melhorar as estruturas do mesmo santuário que fez, um dia, os beatos acenderam suas tochas: “A Secretaria de Cultura deverá melhorar o acesso ao singelo santuário, com a cobertura da área”. Seu forró segue religiosamente todo sábado em seu quintal, a partir das 20h. E não adianta insistir. Mulher de saia curta e homem de perna bamba não entram.

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