Santos de pau oco da política

Apesar da separação entre Igreja e Estado, um evento religioso no Senado prenunciou a absolvição do presidente da Casa

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2007 | 12h28

O presidente do Senado Federal, na véspera do julgamento do pedido de cassação de seu mandato, encaminhado pela Comissão de Ética da casa, não compareceu sozinho às manchetes de jornais daquela manhã. Para grande espanto dos que foram educados na tradição republicana, o senador posava ao lado da veneranda imagem de Nossa Senhora de Nazaré, trazida de Belém do Pará. Apesar de haver no País separação entre Igreja e Estado, um evento religioso e católico no recinto do Senado fora organizado pelo senador paraense do PSDB, Flexa Ribeiro. Se a festa religiosa e a visita da imagem da santa e do arcebispo não foram armação para circundar com aura de santidade a cabeça do acusado, a própria coincidência sugeriu que armação ocorreu em face da oportunidade. O presidente do Senado não relutou em coadjuvar e viabilizar o ato religioso. No país em que para tudo se dá um jeito, o Senado promovia a comemoração dos 214 anos da festa do Círio de Nazaré, que se celebrará em Belém do Pará, só no mês de outubro. A maior e uma das mais belas e comoventes festas religiosas do catolicismo brasileiro não precisa de publicidade desse tipo e menos ainda num lugar simbólico da laicidade, como o Senado. Já se aproxima de 2 milhões o número de participantes de cada procissão da santa, que a ela comparecem espontaneamente.É muita gente para que se resista à tentação de instrumentalizar a fé do povo, a dificuldade da Igreja para esquivar-se de aproveitadores e as exageradas oportunidades do poder. A sagração inesperada de quem seria dali a pouco colocado em outra berlinda, que não a da santa, tornou a todos os circunstantes coniventes, soubessem ou não, do ato que violou o princípio da separação constitucional de Estado e Igreja. Ato que poderia repercutir nos desdobramentos dos fatos, inocentando previamente pela religião quem deveria ser julgado pela razão, com base na lei e nos fatos apurados e denunciados. Essa complicada trama traz para o âmbito da religião a debilidade da política. Já no dia seguinte, nas ruas de Belém do Pará, corria voz de que a absolvição de Renan Calheiros fora milagre da Virgem de Nazaré para proteger Lula. O imaginário ingênuo de muitos desvendou as conexões de sentido do que foi, teatralmente, apresentado como inocente ato de fé. O povo deu-se conta de que na absolvição de Calheiros estavam em jogo os interesses de Lula e do PT. Ainda permanece nas tradições de muitos recantos do País a crença de que se, de algum modo, há evidência do reconhecimento divino da inocência de alguém, supostamente culpado do que quer que seja, mesmo de crimes de sangue, até o culpado se torna inocente. Os políticos modernos e os cientistas políticos deveriam conhecer melhor o imaginário que preside as vicissitudes do nosso presente e da nossa política. Menos ingenuidade e mais antropologia ajudaria muito a compreender os descompassos entre povo e política. D. Dimas Lara Barbosa, que, além de formado em filosofia e teologia, é engenheiro-eletrônico e foi profissional de engenharia, portanto, homem afeito aos clamores do laicato e da razão, reagiu à absolvição do acusado, em nome da CNBB, com veemência em relação à grave e acelerada deterioração da vida política brasileira e das instituições. Mas não fez reparo algum em relação ao notório abuso do que acontecera no Senado, horas antes, envolvendo o culto de Nossa Senhora de Nazaré. A Igreja não cultiva a malícia política nem pode fazê-lo. Mas casos como esse sugerem mais atenção à esperteza de certos políticos que, investidos do mandato de respeitar e cumprir a Constituição, são os primeiros a interpretá-la a seu favor.Foi a Constituição republicana, de 1891, que estabeleceu a separação entre o Estado e a Igreja e reconheceu a liberdade de crença e de organização religiosa, separação que se manteve nas Constituições seguintes. Mas é evidente que estamos num processo de restituição da religião ao corpo orgânico do Estado, sobretudo no Parlamento, tendo assento ali deputados e senadores anomalamente eleitos por igrejas, ainda que sob rótulo de partidos políticos. Durante o regime militar, o caráter laico do Estado produziu alguns frutos interessantes e pouco notados, impensáveis numa ordem republicana como a nossa, cheia de ressalvas e brechas anti-republicanas. Regulada, aliás, até 1964, pela expectativa do veto católico e suas repercussões nas eleições em casos que contrariassem as orientações da Igreja. Foi nesse período que, pela primeira vez, um protestante se tornou presidente da República, o General Ernesto Geisel, que o divórcio foi adotado, que vários protestantes, pela primeira vez, se tornaram governadores de Estados, no Pará, em Pernambuco, no Rio de Janeiro e secretários de Estado de filiação protestante serviram a diferentes governos, sendo notório o caso de São Paulo. Significativamente, na oposição ao regime, no período ditatorial, começou a ser gestado o que viria a ser o Partido dos Trabalhadores como um partido católico, embora não o seja oficialmente, apoiado decisivamente pelas comunidades eclesiais de base e por setores da hierarquia. O próprio Lula, em suas campanhas eleitorais, teve, em diferentes lugares, acesso a púlpitos católicos. E só ele.Se o Estado republicano, ao separar o Estado da Igreja, privou a Igreja Católica de sua importância política como igreja oficial, beneficiou-a extensamente, no entanto, ao livrá-la da tutela política do governo na nomeação dos bispos e garantir-lhe a liberdade religiosa que nunca tivera na Colônia e no Império. A Igreja tornou-se mais Igreja e mais profética ao perder a anômala qualidade de repartição pública. Esse ganho pode estar ameaçado por vacilações da Igreja e oportunismos de igrejas e de políticos, alguns fazendo da estrada de Damasco a mera estrada do poder. * José de Souza Martins é professor de sociologia da Faculdade de Filosofia da USPTERÇA, 11 DE SETEMBROMilagre feito em casa Na véspera da votação que decidiria pela cassação ou não de seu mandato, o presidente do Senado, Renan Calheiros, comandou uma sessão religiosa em homenagem à festa de Círio de Nazaré e chegou a posar ao lado da imagem da padroeira.

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