Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Saravá, Francisco

Pai de santo pediu a preto velho, caboclo e exu proteção e paz para o papa na visita à Varginha

Silvio Barsetti, O Estado de S. Paulo

27 de julho de 2013 | 15h12

O campinho de futebol encharcado na Favela da Varginha afastou certamente muitos católicos do encontro histórico do papa Francisco com moradores daquela e de outras comunidades vizinhas, na manhã de quinta-feira, na zona norte do Rio. Guarda-chuvas coloridos abrigavam adultos, crianças e celulares, justapostos para flagrar um sorriso, um aceno de mão ou parte de um discurso doutrinário e bem-humorado do papa.

Pés cobertos de lama se esbarravam sem revide. O cenário era de festa, com terraços e varandas de pequenas casas enfeitadas com cartazes e bandeirinhas e tomados por uma plateia em estado de graça. Todos entoavam cânticos de acolhida à visita de Sua Santidade.

No lado oposto do palco ocupado por Francisco, atento ao movimento dos fiéis, o agente de turismo Helio Soares da Silva, de 51 anos, assistia a tudo com ar de devoção. Aplaudia as frases mais enfáticas do papa e realçava um ou outro comentário do líder católico. Helio estava ali misturado à multidão convidado por amigos da Varginha adeptos da umbanda, como ele.

Na Tenda Espírita Caboclo Sete Chaves de Aruanda, o único terreiro do Complexo de Favelas de Manguinhos, que abrange Varginha e Mandela, pai Helio trabalha com 52 filhos de santo, a maioria voluntários da Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Na quinta-feira, ele caminhou pouco mais de dez minutos para se acomodar num local do gramado menos afetado pela forte chuva.

Ficou ali, ao lado dos filhos biológicos Alan e Tiago, até o encerramento de mais um compromisso da extensa agenda do papa no Rio. Voltou feliz para casa, com a sensação do dever cumprido e grato aos orixás. Na véspera da chegada do papa Francisco ao Rio, pai Helio comandou uma sessão na tenda espírita com mais de 50 pessoas. Atendia assim a apelos de senhoras católicas, amigas e vizinhas. Ele recebeu o Preto Velho pai Benedito, o Caboclo Sete Flechas e o Exu Marabô, entidades que representa em seus trabalhos rotineiros.

A reunião foi convocada para que todos rezassem e pedissem proteção e paz para o papa Francisco durante a passagem dele pela Varginha. Naquele dia, houve banho de erva, com ritual de velas, essências, defumadores, tudo para criar um ambiente mais apropriado para receber as entidades da casa. A batida dos atabaques anunciou, no sobrado da tenda uma série de orações e cânticos de louvor.

“Graças a Deus, fomos atendidos. A chuva não atrapalhou e o santo padre saiu exultante da nossa comunidade”, declarou pai Helio, agora envolvido na organização de um balanço, na semana que vem, para avaliar do papel dos orixás que trabalharam para proteger o papa Francisco.

Carioca, de origem católica, Helio Soares se iniciou na umbanda aos 19 anos. Casou-se logo depois na Igreja, mas aos poucos se sentiu atraído por jogos de búzios e pelo estudo da umbanda com base nos conceitos da nação Ketu, “em que a caridade é a base de tudo”. Cedo, ficou viúvo e passou a dedicar mais tempo ainda aos fundamentos de sua nova religião. Mantém a tenda há 30 anos e se orgulha de estampar ao lado da sala de Exu um diploma que lhe foi concedido em 1996 pela Federação Brasileira de Umbanda em reconhecimento a suas atividades.

O carisma do papa Francisco também teve peso nas iniciativas de pai Helio para dar sua contribuição à JMJ. O tutor dos filhos de santo era um dos que estavam no meio da multidão que tentou tocar o papa quando Sua Santidade ficou retido num congestionamento no centro do Rio, na segunda-feira. Correu ao lado do carro, mas não teve oportunidade de romper a barreira de seguranças.

Antes mesmo de ouvir Francisco na quinta-feira, pai Helio o elogiou, com a aprovação dos filhos Alan e Tiago. “É uma pessoa que demonstra sabedoria e se projeta como líder dos pobres.” Além de sessões quinzenais às segundas, quartas e sábados no segundo andar do templo afro-brasileiro, há um trabalho à parte no local de atendimento a doentes, idosos e pessoas que buscam ajuda por vários motivos. “Acredito em Deus e na caridade. Nos nossos encontros, muitas vezes lemos trechos de livros do padre Marcelo Rossi.”

Logo após a visita de Francisco à Favela da Varginha, pai Helio postou em sua página no Facebook uma foto do papa, no qual ele desfilava e era saudado por centenas de fiéis. Disse que colocaria outras em deferência ao visitante. Esses exemplos de sincretismo religioso ficam mais evidentes em cada nova conversa com o pai de santo que reina absoluto nas Favelas de Varginha, Manguinhos e Mandela. Ele não aceita crianças novas como candidatos a filhos de santo se não são batizadas na Igreja Católica. “Já levei muitas para batizar na Igreja Santa Bernadette (em Manguinhos). Não pode ser pagão na minha tenda.”

Helio e Francisco não foram apresentados. Não houve sequer uma troca de olhar entre os dois na Varginha. No entanto, estavam unidos numa corrente a favor da caridade e, cúmplices, ocuparam um campinho de futebol para elevar o pensamento e desprezar preconceitos.

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