Saul Bass
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Saul Bass: o designer que aposentou as cortinas dos cinemas

Graças ao designer agora centenário, os créditos dos filmes tornaram-se peças de arte autônomas

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2020 | 16h00

Até a segunda metade do século passado, os créditos de apresentação dos filmes eram tão desenxabidos e enfadonhos que comumente os projetavam sobre as cortinas do cinema, ainda fechadas. Sim, as salas de exibição tinham cortinas cobrindo a tela e as sessões começavam com as luzes lentamente apagadas, a cortina vagarosamente recolhida e uma morrinhenta musak ao piano a entorpecer os ouvidos da plateia. E assim foi até surgir Saul Bass. Ou até O Homem do Braço de Ouro ser lançado, em dezembro de 1955. 

Para que nenhum espectador perdesse os créditos que encomendara ao designer Saul Bass (1920-1996), o produtor e diretor Otto Preminger, para quem Bass desenhara, um ano antes, a chamejante apresentação de Carmen Jones, cuidou pessoalmente de colar adesivos nas latas do filme, com uma recomendação expressa aos projecionistas: “Só iniciar a projeção com as cortinas abertas”. 

Sobre um fundo preto, fairans cortavam a tela verticalmente, embaladas pela bateria e os metais em brasa de Elmer Bernstein, com um tema jazzístico que em breve entraria nas paradas de sucesso. Outras faixas, no sentido horizontal, introduziam o elenco, grafado sem serifa, e enquadravam o título do filme, até formarem um braço humano retesado indigitando o nome do diretor. Um hors d’oeuvre visual surpreendente na época. 

Dali em diante, as cortinas dos cinemas que as traças ainda não haviam devorado começaram a ser aposentadas. 

Sete anos depois, outro nova-iorquino, Maurice Binder (1925-1991), levaria avante, na série James Bond, as ideias inovadoras de Bass. Mas a glória pela invenção ou reinvenção dos créditos no cinema é toda do visionário Bass, o primeiro a intuir o potencial artístico do negócio e dele extrair o máximo. 

Dificilmente haverá alguém que nunca tenha visto ao menos uma de suas obras – criações completas, autônomas, abrindo e às vezes também fechando um filme –, pois ele colaborou com uma dezena de cineastas de ponta, ao longo de 40 anos. 

Só para Preminger desenhou 14 créditos de abertura e outros tantos cartazes. Para Scorsese foram quatro; para Hitchcock, três; e um para Billy Wilder (O Pecado Mora ao Lado), William Wyler (Da Terra Nascem os Homens) e Stanley Kubrick (Spartacus), que também lhe encomendou o pôster de O Iluminado, em cuja base o designer encaixou a caricatura de um robalo com a sua cara. Era a assinatura do mestre. “Bass” é robalo em inglês.

Nascido no Bronx (Nova York) e influenciado pela Bauhaus, via Gyorgy Kepes, pintor, fotógrafo, designer e teórico húngaro, que dava aulas em Manhattan, Bass descobriu e destilou, com seu traço e suas animações, a poesia do mundo moderno e industrializado. Com a mesma jouissance e o mesmo gosto de Matisse por papéis recortados (notáveis sobretudo nos créditos de Bom-Dia, Tristeza e Bunny Lake Desapareceu), às vezes, contudo, parecia um discípulo de Mondrian que tivesse estagiado nos estúdios de animação cinematográfica da revolucionária United Productions of America (UPA). 

Bass assimilou tudo o que lhe podiam dar o Construtivismo, a Op Art e o Surrealismo. E não apenas no cinema. Além do Oscar que seus curtas lhe proporcionaram, ganhou prêmios por alguns dos 80 logotipos que criou para marcas como a AT&T, United Arlines, Exxon, Minolta e Aveia Quaker. 

Até porque era um sujeito muito bem-humorado e intelectualmente estimulante, todos sonhavam com o privilégio de o ter em sua equipe, fosse como letreirista, cartazista ou mesmo consultor visual, como fizeram Hitchcock (para a cena do chuveiro em Psicose) e Kubrick (para a sequência da batalha de Spartacus). 

Scorsese demorou anos até tomar coragem de convidá-lo. Além de Os Bons Companheiros, Bass assinou as protofonias visuais de Cabo do Medo, Cassino e a O’Keefeana abertura de A Época da Inocência. “Ele valorizava exponencialmente qualquer filme”, escreveu o cineasta no prefácio de Saul Bass: A Life in Film and Design, escrito por Jennifer Bass (filha do biografado) e a historiadora de design gráfico britânica Pat Kirkham. 

Outros diretores temiam a parceria. Receavam ter a intriga de seus filmes previamente expostas pelo tira-gosto bassiano. Às vezes em menos de um minuto, Bass fazia uma síntese brilhante do tema, do mood e até mesmo da metafísica do filme, não raro aditivado por músicos batutas como Bernard Herrmann, Aaron Copland, Georges Auric, Alex North, Jerry Goldsmith e Nelson Riddle. 

“O bom de trabalhar com Saul é que suas imagens enriquecem até as nossas pausas”, disse Elmer Bernstein, que a seu lado trabalhou em mais duas oportunidades depois de O Homem do Braço de Ouro. Em Pelos Bairros do Vício e A Época da Inocência. 

Quais as melhores criações de Bass? Façam suas próprias escolhas. De memória ou assistindo, no YouTube, ao documentário Saul Bass –Style Movie Poster. No topo das minhas preferências: Um Corpo que Cai, Intriga Internacional, Psicose, Grand Prix (uma cacofônica tapeçaria de pneus, carburadores, capacetes de piloto, espectadores e canos de descarga etc), Pelos Bairros do Vício (uma live action estrelada por um marrento gato preto) e a abertura e o fecho de West Side Story, com aquelas portas e paredes grafitadas, e, no meio dos rabiscos repertoriando os artistas e técnicos do filme, quatro letras enigmáticas: SB-EM. Eram a iniciais de S(aul) B(ass) e E(laine) M(akatura). Elaine foi o grande amor do artista, além de parceira profissional desde meados da década de 1950. 

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