Se beber, fuja destas mães

Fundação criada por mulheres que perderam as filhas não dá trégua a motoristas bêbados nos EUA

O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h08

LÚCIA GUIMARÃES

Numa cena do filme The Player (1992), de Robert Altman, o personagem do produtor de cinema crasso e cafeinado, vivido por Peter Gallagher, está a caminho de uma reunião dos Alcoólicos Anônimos no seu conversível, enquanto conversa com um colega no estúdio pelo celular. "Eu não sabia que você tinha esse problema", comenta o colega. O produtor responde, rindo, que não é alcoólatra, mas é na reunião do AA que ele encontra gente importante para fazer negócio. Esse diálogo jamais teria sido escrito 20 anos antes.

Como também parecem relíquias de outra era as cenas da premiada série Mad Men, passada nos anos 60, com personagens que entornam scotch no escritório ao meio-dia enquanto discutem acordos que podem quebrar sua agência de publicidade. A aceitação cultural do alcoolismo como patologia, ou melhor, a redefinição da fronteira entre o hábito social de beber e o uso do álcool como droga, foi um processo que se acentuou na segunda metade do período pós-guerra nos Estados Unidos. Não deve ser coincidência o fato de a mais recente pesquisa epidemiológica sobre alcoolismo no país apontar a 2ª Guerra como um marco do aumento do consumo de álcool entre os americanos.

A pesquisadora Katherine Keyes comenta alguns dos resultados do estudo que acaba de divulgar com dois outros colegas da Escola de Saúde Pública e do Departamento de Psiquiatria da Universidade Colúmbia, em Nova York, neste setembro, que é o Mês da Recuperação do Alcoolismo, nos Estados Unidos. A conclusão que mais chamou a atenção da mídia foi o aumento do alcoolismo entre as mulheres. Keyes diz que, no momento, só pode explicar isso por especulação: elas estão mais integradas no mercado de trabalho e há menos condenação social para a mulher que bebe. Os números da pesquisa mostram que aquelas com maior status profissional têm maior risco de se tornarem alcoólatras.

Keyes explica que sua metodologia examinou grupos que tinham em comum a data de nascimento. O grupo de maior risco é o de jovens que hoje têm de 18 a 28 anos, com grande incidência de binge drinking, ou porre. As pessoas dessa faixa de idade em décadas anteriores bebiam menos. Katherine Keyes admite que as estatísticas de alcoolismo enfrentam o desafio da divulgação voluntária. Mesmo com a promessa de anonimato, as pessoas tendem a admitir um consumo menor do que o real. A prova disso é que as pesquisas feitas por telefone revelam um consumo sempre mais alto do que as feitas na presença do pesquisador.

A criminalização da bebida ao volante se acentuou na década de 80, nos Estados Unidos. Neste ano, o governo federal impôs o mesmo limite legal de consumo, 0,8g de álcool por litro de sangue, em todo o país. Mas as leis e a tolerância variam. Em mais da metade dos 50 Estados americanos, o teste do bafômetro é obrigatório.

No começo de 2010, Ray LaHood, secretário de Transportes do governo Obama, lançou a campanha Foco na Direção, para combater a distração provocada pelo uso de celulares ao volante. Ele disse que a campanha era baseada na Mothers Against Drunk Driving (Mães Contra Dirigir Bêbado), MADD, fundação criada por duas mães cujas filhas foram vítimas de motoristas bêbados e, mais do que qualquer outro grupo, contribuiu para a criminalização e o combate ao consumo de álcool por motoristas. A MADD está completando 31 anos, com 300 filiais nos Estados Unidos. A organização faz pressão em Washington e nas assembleias legislativas estaduais para a passagem de leis, presta assistência a vítimas e elabora campanhas educacionais - além de botar a boca no mundo quando descobre que um motorista bebum, responsável por um acidente, escapou do juiz com punição leve.

Na sexta-feira, pela manhã, a nova presidente da MADD, Jan Withers, falou ao Aliás sobre esse cenário antes de cumprir uma agenda apertada que incluiria encontros no Capitólio. Withers assumiu o cargo em julho, depois de 19 anos como voluntária da organização que ela mesma procurou desesperadamente após uma tragédia pessoal: a morte da filha adolescente, provocada por um motorista bêbado. Whiters acaba de visitar um laboratório da Escola de Medicina de Harvard, onde viu demonstrações de tecnologias para frear o motorista antes que ele ligue o carro. Uma delas, chamada espectroscopia distante, usa sensores infravermelhos que analisam a expiração. Se o bafo passar do limite legal, a ignição trava.

Por que sua fundação trocou o nome de Mães contra Motoristas Bêbados para Mães contra Dirigir Bêbado?

Porque nosso objetivo é alertar para a ação de dirigir alcoolizado. A maioria das pessoas diz: eu não faria isso nunca, os outros é que dirigem bêbados. Mas não é preciso abusar de álcool com frequência. Qualquer um que beber e pegar no volante pode provocar um acidente. Vou lhe dar uma estatística conservadora: nos Estados Unidos, o motorista dirige uma média de 87 vezes alcoolizado até ser flagrado.

Depois de 31 anos e do trabalho pioneiro do MADD que levou à aprovação de leis em todos os EUA, o papel de uma fundação privada e de cidadãos ainda é relevante?

É 100% relevante. Ontem eu conversava com uma deputada do Comitê de Apropriações da Câmara, onde estão sendo redigidas propostas para incluir uma nova tecnologia automotiva que impede o carro de ser ligado se o motorista estiver alcoolizado. Ela me disse: o fato de você estar aqui e chegar com sua história pessoal faz toda a diferença entre os deputados.

E qual é a história pessoal que a senhora leva aonde vai?

Minha filha, Alyssa, tinha 15 anos, em 1992, quando foi passar a noite na casa de uma colega, nas férias curtas da primavera. Eram três amigas, e dois meninos, do terceiro ano do segundo grau, apareceram. A amiga da Alyssa estava paquerando um deles e pediu aos pais para deixá-las sair de carro. Os garotos, de 17 anos, tinham escondido garrafas de cerveja no mato. Tomaram tudo, os dois. Na volta, a amiga pediu a Alyssa para passar para o banco da frente para que ela pudesse sentar ao lado do menino de que gostava. O garoto no volante, depois fiquei sabendo, achava engraçado assustar os passageiros acelerando. Passou de 160 km por hora, perdeu o controle e o carro bateu na cerca de metal da pista, que arrancou a porta. Minha filha foi arremessada para longe e morreu. Foi a única vitima fatal do acidente.

Naquele mesmo ano, quando telefonou para a MADD, a senhora procurava o quê?

Socorro. Parei de trabalhar, não conseguia funcionar, estava inconformada e achei que ia ficar maluca. Nada me interessava. Uma amiga me sugeriu procurar a MADD. Lá, uma pessoa especializada em aconselhar vítimas me atendeu por telefone durante meses. Acho que ela preservou minha sanidade. Comecei a trabalhar como voluntária e 19 anos depois, em julho passado, virei executiva, quando fui nomeada presidente.

Quais foram os marcos do sucesso do ativismo da MADD?

As duas fundadoras, Candace Lightner e Cindy Lamb, foram muito efetivas em Washington, nos anos 80. Graças às leis passadas naquela década, o número anual de mortes provocadas por motoristas alcoolizados caiu de 30 mil para 17 mil, em 2005. Nos anos 90, batalhei para reduzir o nível tolerável de 1g para 0,8g, com base em pesquisas que comprovaram a limitação do motorista nessa faixa de consumo de álcool. Mas eu tinha uma convicção pessoal: o rapaz que matou minha filha tinha menos de 0,8 de álcool no sangue. Hoje, a prevenção é uma frente importante, especialmente entre jovens. No caso deles, é preciso mais do que só falar. Eles têm que ser educados sobre os riscos do consumo de álcool entre menores. Para tanto, fazemos parcerias, como um novo programa com um pesquisador da Penn State University, Robert Turissi, chamado O Poder dos Pais. Não adianta tentar educar os adolescentes se os pais não se envolvem. Pesquisas aqui mostram que 74% dos adolescentes citam os pais como influência no consumo de álcool.

Como a senhora responde a críticos que consideram a MADD alarmista, quase uma volta aos tempos da Lei Seca?

Não somos contra quem bebe socialmente, de forma alguma. O nosso foco é na atitude desses motoristas, uma atitude que resultou em 11 mil mortos nos Estados Unidos, em 2009 e pode perfeitamente ser prevenida. O número de feridos pelas ações de motoristas bêbados é muito mais alto, mas isso também é difícil de estabelecer com precisão porque há casos de acidentes em que o fator bebida não é relatado.

E os que alegam que os motoristas que matam são uma minoria reincidente?

Só metade das mortes é causada por motoristas bêbados reincidentes. A outra metade é por gente que tem um nível de álcool no sangue entre 0,5 e 0,8. Prevenir as mortes é lidar com toda a população.

Qual a medida prática que tem se tornado efetiva, na sua experiência?

É fundamental a decisão ser tomada antes de sair de casa - saber como voltar se a pessoa for beber. Depois de virar alguns copos, nós nos sentimos relaxados, achamos que está tudo bem, insistimos que estamos no controle dos sentidos. É muito frequente as pessoas me contarem que funciona bem a escolha prévia de alguém que não beberá daquele vez justamente porque vai dirigir. O motorista escolhido se sente responsável pela segurança dos demais.

Quando aprovaram a 'Lei Seca' do Brasil, em 2008, alguns críticos disseram que era radical e paternalista e ignorava o bom

senso e a responsabilidade pessoal.

Aqui nos Estados Unidos foi a mesma coisa. Concordo que educação e responsabilidade pessoal são importantes. Mas elas devem ser paralelas a leis claras, baseadas em ciência disponível, não em emoções.

A senhora esta confiante em novas tecnologias de detecção que a indústria do automóvel pode adotar para impedir que os motoristas dirijam bêbados?

Sim. Acabo de visitar um laboratório em Boston e me mostraram duas tecnologias que estão sendo testadas pela Escola de Medicina da Universidade Harvard. Veja bem, nenhuma delas é bafômetro, como os que instalam nos carros de motoristas já condenados por terem dirigido embriagados. Uma é baseada em toque e exclui os outros passageiros. Ao tocar na ignição ou no câmbio, o nível de álcool no sangue é detectado por meio do tecido humano, numa fração de segundo, e o motor não liga. Sabemos que o custo dessas tecnologias pode ser alto, por enquanto. Mas o Insurance Institute for Highway Safety, ligado à industria de seguros, estima que 8 mil vidas poderiam ser salvas por ano se os carros fossem equipados com uma tecnologia que os impeça de sair do lugar se o motorista estiver calibrado.

PRESIDENTE NACIONAL DA MADD (MOTHERS AGAINST DRUNK DRIVING)

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