Se correr o bicho pega...

À frente de um país dividido, Hugo Chávez deve colocar em uso seu arsenal para se manter no poder

Francine Jácome*, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2010 | 07h19

O ano de 2010 na Venezuela será marcado pelas eleições para a Assembleia Nacional (AN), agendadas para o dia 26 de setembro. O objetivo do presidente Hugo Chávez é contar com, no mínimo, 2/3 dos deputados a fim de poder prosseguir na instauração de seu modelo "socialista". A assembleia atual tem sido sua mais importante aliada na reforma ad hoc da Constituição de 1999.

Entretanto, embora ainda mantenha um índice de aprovação de aproximadamente 50%, a última pesquisa de janeiro, realizada pela Hinterlaces, mostra que 61% da população afirmou que o país está "no mau caminho" e 65% considerou que em 2012 ele terá de entregar o poder a um novo líder. Além disso, deve fazer frente a quatro crises significativas, que afetam de maneira igual todos os cidadãos. O ano de 2009 se encerrou com uma taxa de crescimento de -2,9% e uma inflação de 25,1%. Calcula-se que 2010 apresentará cifras ainda mais negativas. Há também a grave situação dos serviços de eletricidade e água, os problemas de segurança pública e a crescente deterioração do setor de saúde.

A pouco mais de sete meses das eleições, a maioria das pesquisas mostra uma diferença de aproximadamente 2% nas intenções de voto entre os que apoiam o governo e os que se opõem a ele. O presidente da república e seu Partido Socialista Unido de Venezuela farão tudo que estiver a seu alcance para conseguir o objetivo estabelecido, e isso se dará não apenas no âmbito político, mas também no econômico, social e internacional.

Tanto é verdade que o início do ano foi marcado por decisões surpreendentes. Em primeiro lugar, o anúncio de uma desvalorização da moeda e a criação de um sistema de câmbio duplo. Em segundo, as medidas de economia e racionamento de eletricidade e água, que em muitos casos foram improvisadas e erráticas. Segundo a Hinterlaces, 76% dos cidadãos não concordam com o plano de racionamento de energia adotado pelo governo. Em terceiro, o novo fechamento do canal RCTV Internacional. De acordo com a Hinterlaces, 78% discordam da medida. Tais ações levaram a crescentes protestos e mobilizações, alguns com enfrentamentos violentos que deixaram dois estudantes mortos.

Nessa conjuntura, visando a conseguir seu objetivo eleitoral, os governistas poderão adotar determinadas estratégias, sujeitas a mudanças no caso de acontecimentos internos ou externos inesperados. No plano econômico, as mais importantes são duas. Em primeiro lugar, um aumento significativo dos gastos públicos, principalmente os que chegam diretamente à população. O governo já adotou dois mecanismos para essa finalidade. Um foi o cálculo do orçamento de 2010 baseado no barril de petróleo a US$ 40, enquanto se estima que o preço mais provável será US$ 60/75. Desse modo, o governo disporá de receitas adicionais, que utilizará de forma discricional e sem nenhum tipo de controle. O outro foi a desvalorização.

Em segundo lugar, a continuidade na aplicação do modelo econômico "socialista". Em função disso, é previsível um aprofundamento do processo de estatizações com o objetivo de controlar maior espaço no mercado, dadas as facilidades de que o governo desfruta para a importação e venda de produtos a preços subsidiados. Desse modo, procurará abrandar os efeitos da inflação e do desabastecimento, enfraquecendo ainda mais o setor privado. A recente expropriação da rede de supermercados Éxito, de propriedade de uma empresa francesa, parece indicar essa tendência.

Quanto ao cenário político, a estratégia do governo para as eleições, além da utilização dos gastos públicos, terá outros dois eixos: o papel central desempenhado pelo presidente na campanha eleitoral e a situação de vantagem do governo, principalmente nos meios de comunicação. Por exemplo, o Conselho Nacional Eleitoral tomou decisões como a regulamentação de fórmulas que levam a uma super-representação das maiorias e a mudanças nos circuitos eleitorais que dividem e debilitam o voto da oposição. Podem-se esperar esforços para aprofundar a polarização, ao mesmo tempo que serão traçadas linhas de ação para minimizar as manifestações de descontentamento, aumentando sua repressão e condenando cada vez mais os protestos.

Quanto às relações exteriores, neste ano eleitoral o presidente Chávez retomará a fórmula que até agora contribuiu para seu sucesso: os inimigos externos. Em razão disso, pode-se esperar uma radicalização das posições internacionais, uma maior tensão com os Estados Unidos e com a Colômbia, acompanhada pela aproximação ao chamado eixo "anti-Estados Unidos". Não obstante, essa radicalização provavelmente não contribuirá para restaurar sua liderança agora reduzida na América Latina e no Caribe, embora deva fazer o possível para fortalecer, com menos recursos que em anos anteriores, seu projeto da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba).

Concluindo, o presidente Chávez procurará uma maior radicalização de sua proposta "socialista" em todos os âmbitos, mas, se enfrentar problemas graves, dará provisoriamente marcha à ré como é seu costume. No fundo, ele continuará um processo que procura estabelecer definitivamente a hegemonia de seu projeto político e pessoal. Tradução de Anna Capovilla

* Diretora executiva do Instituto Venezuelano de Estudos Sociais e Políticos (Invesp)

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