CARLOS BARRIA | REUTERS
CARLOS BARRIA | REUTERS

Se há Obama, somos contra

Alô, republicanos. Numa sociedade civilizada, não é possível que o aumento do número de armas seja algo melhor do que sua redução

Kathleen Parker / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2016 | 06h00

É evidente que os republicanos do Congresso se oporão a tudo que sugira o “controle das armas de fogo”, que aliás eles menosprezam totalmente. Portanto, não surpreende que o anúncio do presidente Obama de que decidiu lançar mão de um decreto para esclarecer e aprimorar as leis federais sobre posse de armas tenha provocado imediatamente reações hiperbólicas da direita.

O senador Marco Rubio (Florida) afirmou: “Obama tem uma ideia fixa: minar a Segunda Emenda”. Enquanto o senador Ted Cruz (Texas) pontificou: “Não derrotaremos os maus tirando as nossas armas. Vamos derrotá-los usando as nossas armas”, disse, como convém ao texano autêntico nascido no Canadá que esteve ocupado polindo sua imagem de “outsider”.

O presidente da Câmara, Paul D. Ryan (Wisconsin), criticou o presidente por sua “extrapolação perigosa do poder executivo” e por burlar a oposição do Congresso – embora o Congresso tenha trabalhado febrilmente para reduzir a violência das armas. Ao contrário, os republicanos concentram suas críticas nas motivações políticas de Obama e do Partido Democrata, que não chocam ninguém, e nos lembram de que já temos um número suficiente de leis sobre posse de armas.

Talvez seja verdade, mas não poderíamos modificá-las um pouco? Ou quem sabe colocá-las em vigor? E não seria possível reduzir o número de armas nas mãos erradas sem abrir mão dos direitos que a Segunda Emenda nos garante ou invocar a arriscada medida do confisco pelo governo? Evidentemente é possível. E nós podemos fazê-lo.

Na terça-feira, Obama contra argumentou de maneira inteligente e comovente às costumeiras objeções durante uma entrevista coletiva à imprensa na Casa Branca. Ele lembrou aos ouvintes, entre eles diversos familiares de vítimas da violência das armas, que outras pessoas também têm direitos – de se reunir pacificamente e de praticar a própria religião sem ser assassinadas.

Para ser honesta com o lobby da indústria de armas, que talvez não mereça este ato de caridade, podemos compreender as reservas a respeito da limitação do acesso às armas de fogo. O que não é tão fácil compreender é a recusa dos republicanos a tomar a iniciativa em toda e qualquer questão premente e a fazer alguma coisa construtiva, em vez de invariavelmente esperarem para serem obrigados a adotar a ignóbil opção do Não.

Uma coisa é estar na folha de pagamento da Associação Nacional do Rifle. Outra coisa é não fazer nada e depois assumir uma postura arrogante de menosprezo, como se não fazer nada fosse uma política, e a presunçosa intransigência fosse alguma filosofia.

As medidas que Obama tenta adotar não salvarão todas as vidas, mas aparentemente preveem uma interferência mínima, e poderão ter efeitos significativos. Resumindo, ele visa explicar a lei atual e definir com maior precisão a função do “comerciante de armas”, com a finalidade de impor uma verificação mais rigorosa dos antecedentes do comprador; aprimorar a tecnologia com o objetivo de uma melhor troca de informações, e para a produção de armas mais seguras; aumentar a força de trabalho de maneira a acelerar a verificação dos antecedentes; e acabar com as brechas que permitem que criminosos adquiram armas pela internet ou em outro país, onde vigoram leis diferentes ou nenhuma lei.

Será muito importante destinar ao FBI mais recursos para que possa modernizar-se como instituição. Assim como destinar US$ 500 milhões aos serviços de saúde para o tratamento de doentes mentais a fim de manter as armas longe de pessoas determinadas a se ferir ou a ferir os outros.

Igualmente importante seria exigir que as empresas de transporte denunciassem o roubo deste tipo de carga – assim como seria fundamental investir em tecnologia para a fabricação de armas inteligentes. Como Obama disse, emocionado ao lembrar o assassinato de 20 criancinhas da escola primária em Sandy Hook, se podemos impedir que os nossos filhos abram frascos de aspirina, com certeza podemos impedir que eles puxem o gatilho de uma arma.

Quanto à ampliação da verificação de antecedentes, somente os suicidas ou os criminosos não concordam em esperar um dia ou dois para levar uma arma para casa. E se o governo não concluir o processo em três dias, o vendedor e o comprador fecharão de qualquer maneira o negócio.

O que preocupa a maioria das pessoas são as armas, principalmente as semiautomáticas dotadas de grandes pentes, cuja finalidade específica é matar pessoas. Muitos afirmam que nenhuma legislação atualmente em vigor poderia ter impedido qualquer um dos assassinatos em massa ocorridos nos últimos anos, mas será que esta é uma justificativa suficiente para que não se adote nenhuma medida quando fazer alguma coisa poderia representar uma diferença que jamais imaginaríamos – a criança que não morreu porque uma nova tecnologia impediu que o assassino em potencial apertasse o gatilho? Ou o terrorista do Estado Islâmico que não matou pessoas que estavam festejando o ano novo porque não passou pelo teste de antecedentes criminais?

Nem é preciso dizer que as ações de Obama não deixarão de ser contestadas. E que, no meio tempo, muitos sofismas serão usados e vendidos ao eleitorado republicano das primárias. Entretanto, os eleitores do Partido Republicano tradicional deveriam se mostrar céticos em relação aos catastrofistas, tanto quanto se mostram céticos em relação a Obama. Numa sociedade civilizada, não é possível que o aumento do número de armas seja algo melhor do que sua redução. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.