Se não está comigo, está contra mim

Para estudioso do autoritarismo, a lei da reforma da saúde fomentou ainda mais a polarização da sociedade americana

Lúcia Guimarães, de O Estado de S.Paulo,

27 de março de 2010 | 15h21

NOVA YORK - Imagine se, numa tarde na década de 90, o então senador Abdias do Nascimento fosse cercado na porta do Congresso antes da votação crucial de uma lei da Previdência, xingado com epítetos racistas e, além de tudo, atingido por rajadas de cuspe por parte de manifestantes. O que teria ocorrido? No mínimo, uma crítica mais feroz à agressividade dos manifestantes. Pois nada aconteceu, na porta do Capitólio, aos que se comportaram dessa forma com dois congressistas negros - que lutaram ao lado de Martin Luther King - antes da votação histórica da lei que ampliou o alcance dos planos de saúde, no domingo passado.

 

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O país que elegeu o primeiro negro presidente é o país que mantém o FBI ocupado com o aumento de complôs para assassinar o líder americano. Quem preveria que a onda de esperança que varreu os EUA em novembro de 2008 ia ser sucedida por todo tipo de trama conspiratória para conferir ilegitimidade à presidência Obama?

 

Para quem passou anos debruçado sobre a feitura do livro Authoritarianism & Polarization in American Politics (Cambridge University Press), a resposta é "sim". Em entrevista ao Aliás, o cientista político Marc Hetherington, professor da Vanderbilt University, em Nashville, no Estado do Tennessee, vê no apedrejamento de escritórios do Partido Democrata e ameaças de morte contra os que votaram a favor do seguro-saúde um sinal de desespero.

 

"Os republicanos parecem estar cometendo suicídio a longo prazo", diz ele. A autodestruição viria de uma combinação perversa: a decisão de cortejar as margens extremistas, como Sarah Palin e os tea partiers, e a postura de avestruz diante do avanço das minorias étnicas, que devem tornar os brancos americanos minoria em menos de três décadas.

 

O livro de Hetherington, em coautoria com o professor de estudos internacionais Jonathan Weiler, faz uso extenso de pesquisas para argumentar que a recente polarização da sociedade americana não se dá no território amplo de ideologias liberais ou conservadoras. O discurso civil está paralisado por visões de mundo individuais que transcendem a identidade partidária. Um cenário apocalíptico? Não, diz Hetherington. A força bruta da transformação demográfica - étnica e de gerações - vai proporcionar correções de curso.

 

Como a oposição ferrenha à lei do plano de saúde pode ser analisada à luz do seu livro?

É uma continuação do que tem acontecido aqui ao longo de mais de 12 anos. Os dois lados estão divididos de uma maneira muito visceral. Observadores políticos tendem a analisar essa divisão em torno de questões. Veja como as chamadas "questões" foram definidas na última geração: as pessoas estão escolhendo um lado ou outro a partir da própria personalidade. Aí é difícil fazer concessões, encontrar o meio-termo. Um exemplo claro disso foi o incidente dentro do Capitólio quando o deputado democrata católico que passou a apoiar a reforma da saúde foi xingado de "assassino de bebês" por um colega. Outro episódio recente é o grito "você mente!" do republicano Joe Wilson, que interrompeu o discurso sobre o Estado da União, de Barack Obama. Mas é importante lembrar que não falamos de uma grande parte da população. Os tea partiers são profundamente irados, podem atrair centenas, milhares, até mais de 10 mil pessoas numa manifestação, mas nunca centenas de milhares. São eficazes é para atrair tremenda má publicidade para o Partido Republicano.

 

Quando pesquisavam o livro, o senhor e Weiler esperavam que o debate da saúde fosse cair na malha da polarização política?

Não achamos que a questão da saúde fosse dividir os americanos dessa forma. Erramos. O divisionismo autoritário é de tal ordem que passou a contaminar até algo como a saúde. O que assistimos foi à racialização do debate. Os tea partiers são racistas. Na questão dos benefícios previdenciários, a maioria dos beneficiários é branca, mas a percepção é a de que os negros são mais dependentes do governo. É possível que todo o debate daqui pra frente seja submetido a esse filtro de valores. Isso pode acontecer até mesmo com questões que não são, por definição, conservadoras, como o meio ambiente. Se você não sente que há o perigo iminente de Manhattan ser inundada, é mais fácil desmerecer a crise ambiental como se fosse uma conspiração.

 

O que acha da intensidade dos ataques que ocorreram na porta do Capitólio no dia da votação? O senador Barney Frank, líder do Comitê de Finanças, foi cercado por tea partiers e xingado com epítetos usados contra gays. Outros cuspiram num deputado negro. Os americanos aceitam esse tipo de comportamento como sinal de oposição?

Era inaceitável antes e continua inaceitável. O que fizeram com Barney Frank e também com deputados que são figuras históricas da luta pelos direitos civis nos anos 60 é um absurdo. Mas essa gente é doida mesmo. Um bando de malucos resolveu se identificar com uma cruzada antissaúde. Imagine o raciocínio de quem quer que o governo invista menos em saúde. Mesmo que se assuma que o racismo e o preconceito contra gays estão vivos, o comum é a pessoa evitar admitir isso de forma explícita.

 

Qual o papel da mídia na promoção de minorias extremistas?

Há dois problemas aqui. Primeiro, por que as pessoas estão perdendo o autocontrole? Esse é um ponto tratado no livro. Em meio à divisão a temperatura subiu muito. Os perdedores ficam malucos de ódio. É como a reação de um time perdedor. A política se torna o território do extremista.

 

É como se os hooligans passassem a simbolizar o torcedor de futebol.

Sim, a analogia cabe aqui porque você pôde observar quanta cobertura se deu aos hooligans. Essa é a segunda parte do problema. Parece inevitável a mídia ir atrás do conflito, do que é gritante. Quem é capaz de maluquice tem espaço na mídia.

 

Um argumento comum dos liberais americanos, à esquerda no espectro político, é que a atitude conservadora é vendida com simplicidade. Mas o pensamento liberal seria definido pela tolerância à nuance e à complexidade. Então, a barulheira conservadora iria sempre abafar a sutileza liberal.

É muito mais complicado do que isso. Acho que a esquerda política vai se dar bem nos próximos anos, em parte por causa da força bruta da transformação demográfica. Veja o exemplo de debates tradicionalmente contenciosos. O público se distancia cada vez mais da postura antigay. Há poucos anos, não imaginávamos que haveria tão pouca resistência à inclusão de gays nas Forças Armadas. Mesmo as pessoas que registram um alto índice de autoritarismo evoluem. Nossa pesquisa mostrou uma grande queda de resistência aos gays entre 1992 e 2008.

 

E a imigração?

Quando a economia se recuperar mais e os democratas apoiarem a reforma, o que vão fazer os republicanos? Alienar uma parte cada vez mais importante da população? Um sinal revelador: na época das audiências para a nomeação da juíza Sonia Sotomayor para a Suprema Corte, uma das pesquisas apontou que o índice de aprovação de republicanos estava em torno de 5% entre latinos. É claro que, quando os republicanos soltaram os preconceitos em cima da juíza, representada de maneira crassa como uma "latina fogosa", parte da população se sentiu insultada. Nós precisamos de políticos com talento para explicar por que a imigração é uma boa ideia. Não estou tão pessimista sobre a dificuldade de explicar as posições liberais. Os direitos dos gays servem como bom exemplo.

 

O seu livro trata da distinção entre autoritarismo e identidade partidária.

O que dizemos no livro é que há uma predominância desproporcional de autoritários identificados como republicanos. Antigamente o movimento conservador se estendia principalmente à economia. Agora abrange raça, aborto, orientação sexual e imigração. Mudou a definição do conservador, mas temos de destacar também que há um movimento similar na esquerda, tão forte quanto. Por exemplo, quem não vai à igreja se identifica com os democratas, quem é liberal em raça e sexo também. É a polarização.

 

O livro também chama atenção para o papel da ideologia no autoritarismo.

Sim, é importante notar que não estamos falando do autoritarismo ideológico de esquerda, como o chavismo. Estamos falando de uma personalidade autoritária, que vê o mundo em preto e branco, procura ordem nas instituições estáveis. Pode ser alguém que prometa manter a moral, proteger a Constituição. Pode ser a ideia de abrir mão de liberdades civis para se ter uma suposta segurança. Esse tipo de autoritário é o que estudamos. Mas somos todos humanos e, sob estresse, qualquer um pode demonstrar tendências autoritárias. O 11 de Setembro, por exemplo, balançou os mais ferrenhos defensores de certas liberdades. Mas e quando o estresse passa? A polarização de que tratamos é a que acontece no período em que não há uma pressão aguda.

 

Para onde foi a chamada geração Obama em meio a essa polarização?

Se é para identificar um presidente com uma geração jovem, o nome desse presidente é Ronald Reagan. Na época, ele deu uma injeção de esperança em jovens conservadores e proporcionou uma longa primazia republicana. Mas note que, em 1982, nas eleições intermediárias do governo Reagan, os republicanos não tiveram o voto desse público. Obama entendeu muito bem a importância de capturar a imaginação jovem. Basta assistir aos anúncios da campanha de Obama para a juventude. Eles vendem o cara cool, não o que vai reformar o sistema financeiro. De qualquer forma, a juventude se retrair em eleições intermediárias, como as de 1982 e as deste ano, é um fenômeno típico. Mas, na hora da eleição presidencial, ela deve se aproximar do personagem Obama.

 

Arrisca uma previsão para as eleições parlamentares de novembro?

É possível que os democratas sofram perdas porque o nome Obama não consta na cédula. Mas a vitória em 2012 parece, no momento, segura para o atual presidente.

 

E se Sarah Palin conseguir ser candidata? Ela simboliza a polarização revelada pela sua pesquisa?

Totalmente. E a eleição de 2008 nem entrou no livro. As pessoas menos autoritárias odeiam Sarah Palin. Ela é, em parte, responsável pela derrota do John McCain. A minha mãe, republicana tradicional, votou no Obama só por ter ojeriza a ela. Se enfrentar Sarah Palin, ele se reelege com uma margem muito maior. Não acredito que o establishment tradicional republicano permitirá que ela obtenha a indicação. Se Sarah insistir em fazer campanha, uma batalha ao longo das primárias vai causar enorme estrago aos republicanos. Mas devo lembrar que já me enganei antes (risos).

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