Sean Penn na luta que é de todos

Filme mostra que a intolerância é intolerável - não só para as vítimas

Roseli Fischmann*, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2009 | 00h15

A atribuição do Oscar de melhor ator a Sean Penn, pela interpretação soberba no filme Milk - A Voz da Igualdade, permite repercutir a luta de Harvey Milk para público amplo e universal, já que ela se inscreve na quadra da história humana escrita com decisão, coragem e sangue em defesa de direitos. Sendo parte das décadas de lutas em prol dos direitos civis nos Estados Unidos, com repercussão mundial, a atuação de Milk propicia a lembrança de Martin Luther King, martirizado pelos direitos de negras e negros, como também a lembrança das incontáveis trabalhadoras que, tornadas anônimas, foram sacrificadas até a morte porque defenderam direitos de todas as mulheres. Trata-se de conteúdo ético e político, que diz respeito a todos que defendem os direitos humanos como sendo complementares, interdependentes e indivisíveis, não se referindo de forma exclusiva a pessoas de orientação homossexual, tema do filme.O solo comum para as reivindicações ao longo de décadas do século passado é o que Celso Lafer, em diálogo com Hannah Arendt, identifica como a reconstrução dos direitos humanos (título de um dos seus livros). Arendt analisa, em particular em Origens do Totalitarismo, a ruptura que os sistemas totalitários do século 20 representaram na história da lenta e antiga construção dos direitos humanos e como após a 2ª Guerra Mundial se inicia o processo de sua reconstrução. Por um lado, diz Arendt, a humanidade não dispunha de recursos para lidar com as formas então novas de totalitarismo representadas pelo racismo, pelo nazismo e pelo stalinismo. Por outro, dessas rupturas adveio o que se poderia considerar uma consciência renovada dos direitos e uma nova consciência do direito a ter direitos; ou seja, paradoxalmente, foi a experiência das violações que trouxe a consciência de quão intolerável é a intolerância em relação ao Outro - e não apenas para as vítimas, mas para o sistema democrático como um todo.Não é à toa que, megafone em punho à frente de uma das edições pioneiras da parada gay, em protesto contra agressões, Milk exibe uma braçadeira preta com o triângulo rosa invertido que os nazistas obrigavam os homossexuais a usar como forma de estigmatização, em correspondência com a estrela amarela destinada aos judeus. Milk recorda em seu discurso a sanha totalitária que, iniciada, não conhece limites e avança, vestida de ares oficiais, sobre quaisquer argumentos, encontrando novas categorias que supostamente justifiquem a barbárie: judeus, negros, ciganos, homossexuais, idosos, deficientes, dissidentes religiosos ou políticos.Herbert Kelman, professor emérito da Universidade Harvard, ele próprio sobrevivente do Holocausto, na busca do entendimento do que levou ao genocídio perpetrado pelos nazistas demonstra como se dá um processo pelo qual a existência de mecanismos oficiais de discriminação e exclusão de grupos "escolhidos" - e qualquer um poderá sê-lo - corresponde a oficialmente sancionar a violência contra esses grupos, tornando-os potenciais vítimas desprovidas de toda proteção e destituídos de qualquer direito básico, uma vez que enquadrados na categoria de sub-humanos ou nem bem humanos.A campanha de Anita Bryant e do senador John Briggs, tão bem tratada no filme, tinha esse sentido, ao procurar demitir de seus empregos todos os trabalhadores homossexuais e em particular proibindo a contratação de professores que assumissem sua homossexualidade publicamente. A retumbante vitória de Milk, então supervisor da cidade de São Francisco, Califórnia, para que não fosse aceita a proposta de lei, acaba por se transformar em um dos principais focos do ódio que impulsiona seu oponente, voto solitário vencido, a perpetrar o assassinato do líder gay e do prefeito George Moscone. Mas, observe-se, a mera campanha de Bryant, em si, vitoriosa em alguns pontos dos Estados Unidos e derrotada em outros, deu substrato ao clima que permitiu a "naturalidade" com que o assassinato foi cometido por Dan White; pode ser considerada, portanto, modalidade da mencionada "sanção" oficial para a violência contra a vítima, que, nesse caso, englobava todos os homossexuais e consubstanciou-se em Milk e no aliado político. O assassinato conjunto, por sua vez, é um exemplo de "contágio de estigma", como denominado por Erving Goffman, ao demonstrar que semelhante processo ocorre sempre que alguém ousa aproximar-se ou defender grupos estigmatizados sem pertencer a eles. Ou seja, não apenas há a desumanização de todo aquele que pertence a determinado grupo estigmatizado, como também de quem tem a ousadia de negar-se a compactuar com a estigmatização, ao reconhecer a dignidade humana do grupo que está oficialmente, ou culturalmente, determinado a ser considerado como indigno e não plenamente humano. A prática do contágio de estigma tem a meta de isolar os estigmatizados para torná-los ainda mais vulneráveis e condenar por antecipação quem pretenda o gesto ético do reconhecimento da dignidade de todo ser humano, rejeitando toda desumanização. A estigmatização das famílias e amigos dos homossexuais é tema específico nesse sentido. Mas por que somente poderia um do grupo defender o próprio grupo? Teriam os judeus sobrevivido ao Holocausto sozinhos, sem apoio? Teria acabado o apartheid na África do Sul sem alianças internas e externas?De fato o tema das alianças é relevante para a luta contra a discriminação e, ao mesmo tempo, delicado. O filme aponta de forma eficiente esse aspecto, ao narrar ações da comunidade gay em São Francisco lideradas por Milk. A aliança com os sindicatos dos caminhoneiros no boicote à marca de cerveja que pagava pouco pelo transporte da bebida serviu para demonstrar ao movimento gay que, se era uma comunidade estigmatizada socialmente, seus integrantes eram também consumidores em um mercado que conhece cifrões e não estigmas, mas pode reforçá-los ou combatê-los. Já o movimento negro conseguira o fim da segregação nos ônibus com o boicote iniciado no Alabama após a recusa de Rosa Parks de trocar de assento para ocupar um lugar "destinado a negros". Mas é algo mais que grupos discriminados buscam, ao reivindicar respeito à dignidade que partilham com todos os seres humanos. Nesse sentido, a troca de leis que ainda discriminam e excluem por outras que permitam tratamento igualitário é uma demanda justa e inadiável. O gesto ético de Sean Penn, ao expressar sua solidariedade, alertando os que recentemente votaram contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo na Califórnia, ao receber o Oscar, mais que indicar um homem seguro de sua identidade sexual, que atuou sem medo do contágio de estigma, indica a sofrida atualidade da luta de Milk.*Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da USP e do Programa de Pós-Graduação da Universidade Metodista de São Paulo, e Expert Unesco para a Coalizão de Cidades contra o Racismo e a Discriminação

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