Sede

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O amor de Nelson por Neusa não comportava tão triste separação. Ela de cama, impotente depois de dois AVCs, sem conseguir tomar um simples copo d’água. Ele então decidiu fazer uma bomba

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2015 | 19h13

No domingo em que decidiu morrer, Nelson Irineu Golla acordou de súbito às seis da manhã e não pôde mais dormir. Estava ansioso e impaciente - ou, como ele próprio diria, estava de saco cheio. Vestiu uma camisa cinza escura de manga curta, uma bermuda azul e calçou chinelos. Evitava usar meias, pois, aos 74 anos, tinha dificuldades de se curvar. Bebeu café e comeu biscoitos sem deixar de pensar na dúvida que o atormentava havia três dias: será que desta vez conseguiria? Repassou mentalmente seu plano. Se tudo desse certo e a coragem viesse, dentro de algumas horas, ele e a esposa, dona Neusa, estariam mortos. Finalmente.

Nelson resolveu passar o tempo no parque da vizinhança, que ficava em frente à sua casa. Era dia de campeonato de futebol de várzea e, sentado em um banco atrás do campo, à sombra de velhos eucaliptos de 12 metros de altura, ele escutou uma série de estampidos secos, seguidos do alarido da molecada. Soltavam morteiros. Nelson vivia ali havia muito tempo e sabia que esse era um costume em dias de jogos. Quem o viu naquela manhã de setembro de 2014, princípio de primavera em São Paulo, disse que ele parecia feliz.

Talvez o tivessem visto em um bom momento, pois, apesar de tudo, Nelson ainda era capaz de vivê-los. Ou talvez tivessem flagrado apenas um dos momentos típicos dele, em que diz o que se quer ouvir, sem realmente dizer o que pensa. Nelson é um homem alto (um metro e oitenta) e de sorriso fácil, bom ouvinte e comunicativo; é também discreto com seus problemas e, certamente, não abre seus segredos a qualquer um - especialmente um segredo como aquele, que o levara à última reflexão solitária no parque. A verdade é que ele não andava nada bem. Um pouco antes do meio dia, Nelson despediu-se dos colegas de parque e voltou para casa.

Ele comeu com rapidez um almoço que preparou para si. Que ele mesmo cozinhasse era algo impensável até poucos anos atrás. Nelson era o caçula de dez irmãos, o que incluía três irmãs mais velhas, além de uma mãe protetora, todas dispostas a mimar o temporão, que chegou dez anos depois de Anália, a irmã que o antecedia. Neusa também o acostumara a ter as vontades sempre atendidas. Uma série de mudanças em sua vida nos últimos anos, porém, o obrigaram a aprender a se virar, mesmo com as constantes dores na coluna, aquele braço esquerdo atrofiado e o incômodo que era sentir-se “um velho”.

Como de costume, Nelson cochilou no sofá depois de comer e, como agora era frequente, acordou sobressaltado. Havia semanas que a palavra “covarde” lhe invadia o sono e o fazia despertar. Isso o irritava bastante, pois jamais se enxergara dessa forma antes. Nelson abriu os olhos e decidiu seguir em frente. O relógio marcava duas e meia da tarde. Antes de sair, trocou uma das peças da roupa: colocou uma calça folgada, para poder levar o que quisesse nos bolsos largos sem chamar atenção. Desceu à oficina de carros que fica no térreo do sobrado onde vive, na Vila Prudente, um bairro que no passado era operário e que hoje é de classe média, na zona leste de São Paulo. Nelson orgulhava-se de dizer que construiu sua casa com as próprias mãos, das fundações ao terraço, no terceiro andar. Levou 30 anos e não foi fácil. Ao longo de muito tempo, terminar a casa foi seu maior sonho. Quis fazê-la grande para reunir, sempre que pudesse, a família toda ali. Neusa partilhava desse desejo e ajudou o quanto pôde. A impressão de Nelson era de que passara metade da vida entre sacos de cimento e montes de entulho, e sentia-se agradecido à esposa por ter ficado ao seu lado. Dizia que nem toda mulher aguentaria aquilo.

De uma gaveta nos fundos da oficina, um cômodo comprido e de pé direito alto, onde se veem peças de carros e caminhões por todos os lados, Nelson retirou os equipamentos que pretendia usar. Consultou de novo o relógio, eram quase três. Entrou no Celta vermelho da família e, antes de girar a chave, abriu o porta-luvas. Colocou ali nove folhas de papel, que mais tarde seriam encontradas pela polícia. Ele deu a partida e, como fazia diariamente, dirigiu-se à clínica de repouso onde nove meses antes internara sua mulher.

Nelson e Neusa eram casados havia 47 anos. “E mais sete de namoro”, ele sempre dizia. “Cinquenta e quatro anos juntos; a gente não se largava.” Quando a conheceu, ele era um rapaz de 20 anos. Neusa tinha 18 anos recém-completados. Agora, após ultrapassar os 70, Nelson mantinha a saúde estável, apesar da paralisia no braço, resultado de um problema nunca diagnosticado ou tratado direito. Neusa tinha 72 anos, sofrera dois AVCs recentemente e, na clínica, era alimentada por meio de uma sonda nasogástrica. Estava lúcida, mas não podia mais mastigar ou deglutir. Recebia um soro diretamente no estômago, inserido pela narina esquerda. Suas reações restringiam-se a grunhidos e olhares marcados por uma depressão profunda, que surgira no início dos anos 2000 e não mais arrefecera. Com esforço, ela, às vezes, conseguia resmungar algumas palavras.

Desde que Neusa foi internada pela primeira vez em uma clínica desse tipo, há quatro anos, Nelson não deixou de visitá-la nem mesmo um dia. Não saiu mais de São Paulo para ver os parentes em Presidente Prudente, não foi mais passear em Caldas Novas (GO). Há anos ele mal saía do bairro. Sua rotina era encontrar a esposa toda tarde, fosse ou não dia de visita. Dizia que, enquanto estivesse com ela, Neusa receberia o tratamento dos pacientes que têm família por perto: mais paciência, mais cuidado. Mas ele também admitia que não podia se enganar: quando saía, Neusa certamente receberia as broncas que via serem dadas em outros idosos. “Eu estou aqui. Se minha mulher pedir alguma coisa, encontro um jeito de dar. Mas e quando eu saio? É triste, mas durante mais da metade do dia e a noite toda a mãe de vocês fica abandonada”, ele dissera aos filhos, certa vez.

Era um domingo ensolarado em São Paulo, 28 de setembro de 2014, e Nelson visitaria Neusa novamente. Levava dois volumes nos bolsos da calça. Um deles era uma bisnaga de 100 mililitros que enchera com água de coco de caixinha, como a esposa gostava. Às escondidas, ele daria de beber a ela. Nelson sabia que era proibido alimentar pacientes que usam sonda, mas, ainda assim, sempre o fazia. “Bebida direto no estômago não mata a sede de uma boca seca”, dizia. O outro volume que Nelson levava era uma bomba caseira, que ele mesmo fizera e que, às vezes, apalpava no caminho até a clínica para certificar-se de que estava mesmo ali. Também carregava consigo uma caixa de fósforos.

No caminho de volta para casa após as visitas à esposa, por razões que ele ainda não se dispunha a tentar entender, Nelson lembrava-se cada vez mais da falecida mãe e das irmãs. Em sua memória, elas lhe diziam: “Nelson, é preciso dar água para as crianças, porque elas não pedem. Elas têm sede também, de vez em quando tem que dar uma aguinha para elas, mesmo que elas não peçam”. Eram lembranças muito antigas, dos tempos em que a família vivia em um casarão na Rua Torquato Tasso, também na Vila Prudente, e as irmãs mais velhas tinham acabado de parir seus primeiros filhos. Nelson acreditava que não precisava ouvir esse tipo de lição, pois ainda tinha a cabeça no dominó, no bilhar, em uma ou outra paquera e? - um sonho que ele acalentava em segredo - no mundo das artes cênicas. Queria ser ator, talvez, por que não? As mulheres da casa, sem suspeitarem das aspirações do caçula, dividiam com ele os aprendizados da vida doméstica. Ele já não era mais criança e, na opinião das irmãs, era hora de arranjar uma mulher.

Nelson tinha 20 anos e trabalhava em uma das fábricas da família Teperman, que prosperou nos anos de 1960 produzindo assentos de ônibus, e cuja sede ficava na Vila Prudente, a um quilômetro da casa dos Golla. Um bom lugar para fazer carreira, dizia seu pai, um homem baixo chamado Rafael, que vendia balões coloridos em feiras de rua. Nelson começara como operador de prensas na estamparia, e assim continuava. O pai não sabia, mas sua vontade de subir na hierarquia da firma era nula - na verdade, pensava mais em deixar o emprego. Desde cedo, Nelson formou a convicção de que, se não gostasse do que estivesse fazendo, mais valia interromper a atividade. Ele agiu assim a vida toda.

Divertia-se com os lazeres simples da São Paulo do início da década de 1960. As opções eram ainda mais singelas em um bairro operário da zona leste: algum cinema de rua, um parque de diversões, o futebol em campos de várzea com a turma da Rua Cananeia. Nelson era centroavante e chutava com a perna direita. “Não tinha boteco naquele tempo”, ele repetiu muitas vezes aos filhos, anos depois. “Isso é coisa nova. Vocês saem pra noite na hora em que eu estava voltando. Mas que você vai fazer? É o costume da época, quer você queira, quer não. Tem que suportar.”

No ambiente em que viveu a juventude, o costume eram reuniões modestas, quase sempre na Vila Prudente e arredores. Predominavam na região casas térreas com quintal na frente e janelas emolduradas por adornos de argamassa - típicas construções operárias de uma cidade que via florescer a indústria automobilística, ávida por força de trabalho. A vida de Nelson era quase toda por ali e quase toda feita a pé.

Em uma sexta-feira de 1960, o chefe da prensa convidou-o para o aniversário do filho. Nelson pensou que iriam apenas os prensistas, que beberiam cerveja e bateriam papo. Surpreendeu-se ao ver na festa as meninas da costura, a mulherada toda do andar de cima. Veio também aquela morena bonita e baixinha que ele observara nos momentos de folga. Além das feições agradáveis da moça - o cabelo curto, liso e bem preto, e os dentes da frente um pouco pronunciados -, chamou-lhe atenção sua postura. Ela era pequena, parecia tímida, mas mantinha o porte ereto e a voz firme.

Chamava-se Neusa, explicou o anfitrião, e era a chefe da seção de costura da fábrica. Para se aproximar, Nelson elogiou a jovem com picardia - queria causar reação. Entre as galhofas, disse algo que repetiria muitas vezes: “Você é a carro-chefe aqui da firma, que vai sempre à frente!” Nelson tinha bom papo e era boa pinta. O queixo furado, o topete, a estatura e um certo traço de artista o destacavam nos lugares que frequentava. Tinha apreço por palavras bonitas e as usava com Neusa sempre que podia. Falava dos livros que lia, de como apreciava Alexandre Dumas, dos planos que tinha ?- ?deixaria a firma o quanto antes e montaria seu negócio, que ela não se preocupasse: daria certo. Era um homem ambicioso sem perder a doçura, tinha boa família e gostava de trabalhar. Neusa apaixonou-se.

Começaram a namorar na mesma semana. A jovem vivia com a mãe e os quatro irmãos em uma casa modesta na Rua das Heras, a três quilômetros da casa de Nelson. Passaram a caminhar juntos na volta do trabalho, ele fazendo-a rir, ela causando-lhe a impressão de ser “boa pra casar”. Ela prometeu que prepararia a lasanha cuja receita aprendera com a mãe, disse que sabia costurar e que gostava de crianças. Ele impressionou-se com as prendas e notou uma coincidência que o satisfazia: o nome dela também começava com “n”. Nelson e Neusa. Soava bem.

As sextas-feiras agora eram destinadas ao namoro, e ele percorria a pé os quarteirões até a casa de Neusa, sempre de terno e gravata?. A jovem também caprichava: calçava o salto alto (chegava, assim, a um metro e cinquenta e cinco), colocava brincos e passava um pouco de maquiagem. Caminhavam até São Caetano, a uns dois quilômetros dali, para pegar um cinema ou namorar na praça. Muitas vezes, Neusa teria preferido passar a noite dançando em algum clube. A jovem movia-se com graça ao som de Vicente Celestino e dos boleros de Lucho Gatica. Em casa, ensinara os três irmãos mais novos a dançar.

Nelson sabia que essa era uma das paixões da namorada, mas não podia acompanhá-la. Ele nunca buscou entender o motivo, mas bastava entrar em um salão de baile para que travasse totalmente. Dirigia-se ao bar e pedia um uísque. Ao longo da vida, disse a Neusa inúmeras vezes: “Me ensina a dançar?” Mas nunca se esforçou para enfrentar a inibição. Nos tempos de namoro, a levava a lugares tranquilos, com música ambiente ou sem música. Adorava a companhia dela e não deixaria que essa incompatibilidade os atrapalhasse. Neusa estancou seu desejo pela dança.

Ele deixava a namorada em casa antes das dez da noite e, com frequência, era convidado pela mãe dela, dona Maria Guilhermina, a ficar para assistir à luta livre. Era uma febre na década de 60: lutas ao vivo pela TV Record. A sogra vibrava. Por incontáveis vezes, Nelson deixou a casa da namorada depois das onze e meia, o que o fazia perder o último ônibus. Voltava a pé, cansado e satisfeito.

Para os padrões daquele tempo, Nelson e Neusa demoraram a casar. Já se passavam sete anos e Nelson nem sequer havia apresentado a namorada à família. Ele intuía o que poderiam dizer e, por isso, evitava levá-la em casa. Além do mais? - ?ele dizia à sogra e aos irmãos de Neusa -, antes de casar, eles precisariam “melhorar de vida”. “Pois vocês vão ter que melhorar de vida juntos. Nós achamos que você já está embaçando a Neusinha”, disse um dos irmãos mais novos de Neusa, José, que era conhecido como Paçoca. Quando a sogra passou a tratá-lo com frieza, Nelson decidiu apresentar a namorada aos pais. Foi na véspera de Ano Novo, na virada de 1966 para 67. Concretizou-se o que o jovem previa: suas irmãs e irmãos implicaram com a cor da pele de Neusa, morena. “Ih, Nelson, tá namorando uma negona, uma mulata do Sargentelli (radialista que exaltava a beleza das mulatas brasileiras)”, disseram, com maldade. Nelson estava preparado e, com a impulsividade de sempre, anunciou na festa de Réveillon:

- Vamos nos casar dentro de um mês.

Deixou os irmãos falando sozinhos. A mãe de Nelson, Maria, apoiou a decisão e ameaçou romper com quem fizesse comentários maldosos.

Nelson e Neusa casaram-se em 26 de janeiro de 1967, na Igreja de Santo Emídio, a mesma em que ele fora batizado e crismado. O noivo estava satisfeitíssimo. A vida a dois começaria em breve e a garota da costura, o carro-chefe na firma, seria sua esposa. Pensava nela do jeito que aprendera a ver uma mulher: alguém que lhe daria filhos e que cuidaria da casa e dele.

A cerimônia foi às seis da tarde e 50 convidados compareceram. Foram os Golla e alguns dos Oliveira - a família de Neusa, que emigrara de Pesqueira (PE) a São Paulo quando ela era criança. Mais de cinco décadas depois, quando tudo acabou, vi o álbum de casamento de Nelson e Neusa, com uma paisagem alpina desenhada na capa e dedicatória na folha de rosto: “A você, Neusa, com todo o meu carinho e estima, Nelson”.

- Bom dia, dona Neusa, vou te deixar bem bonita para ver a sua família - anunciara a enfermeira Luciane Teodoro, proprietária da casa de repouso Novo Lar, ao entrar no quarto e abrir a janela basculante. Tinha nas mãos uma camisola branca enfeitada com lacinhos rosados na gola e babados de renda na barra. Depois do banho, Neusa estaria pronta para receber o assíduo visitante. “Foi o homem mais presente na clínica desde que minha mãe a abriu, 21 anos atrás”, disse-me Luciane, tempos depois.

- Vamos nos arrumar, dona Neusa, porque daqui a pouco seu esposo chega.

Neusa Maria Golla ocupava uma cama encostada na parede do lado esquerdo do quarto, com uma prateleira logo acima, onde ficavam seus medicamentos: antidepressivo, anticoagulante e remédio para pressão alta. Como mais tarde anotaram os policiais, viviam no mesmo cômodo (de cerca de 15 metros quadrados) as senhoras Almerinda Pereira Santos (87 anos), na cama da direita, e Luisita Matos Iacomolski (80 anos), em um leito atravessado no quarto, embaixo da janela. Neusa e Almerinda usavam sondas, e Luisita ainda podia comer papinhas. As três mulheres estavam acamadas no quarto de número 03, onde ficavam as pacientes mais debilitadas - as que estão “piorzinhas”, como se diz ali.

Àquela altura da vida, nenhuma delas podia falar normalmente. Reclamavam, quase sempre por meio de grunhidos, e choravam. Se algo as incomodava muito, elas conseguiam gritar. Luisita e Almerinda tinham déficit severo de cognição e demência senil. Já não estavam lúcidas. Neusa mantinha o conhecimento intacto, conseguia escutar, e era a lucidez da mulher, que agora só se comunicava pelo olhar, o que mais machucava o marido. Nelson preferiria que ela estivesse desacordada, que vivesse o dia inteiro na morfina “ou sei lá que diabo”, porque ficar daquele jeito, na opinião dele, era um castigo pior do que o fim do mundo.

Nos últimos dois meses, a língua de Neusa começara a atrofiar e definhara até travar por completo. O mesmo ocorrera com os braços, que agora cruzavam-se imóveis sobre o tórax. As mãos de pouca carne se contorceram, não podiam pegar mais nada. A perna direita de Neusa também atrofiara. Levantou-se na clínica uma suspeita de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), que não chegou a ser confirmada. Quando ainda falava, Neusa chamou o marido para perto:

- Nelson, o que eu fiz na vida para sofrer assim?

Ele ainda quis brincar, balbuciou algo como “jogar pedra na cruz é que não foi”, mas saiu de lá muito abatido e, pelo que disse mais tarde, com sérias dúvidas em relação aos desígnios de Deus. Nelson era católico de formação, fizera os sacramentos perto dali, na Igreja de Santo Emídio, mas há tempos sentia-se cada vez mais descrente e, em seus pensamentos, O desafiava com frequência. “Não sei onde Ele fica dentro de uma clínica dessa”, disse aos filhos uma noite. “Não sei qual é o Deus que rege esse negócio.”

Ao chegar à clínica naquele domingo, por volta das três da tarde, Nelson foi recebido por uma auxiliar de enfermagem chamada Michelli. A garota de 29 anos era nova ali e ainda não conhecia direito os familiares dos pacientes, nem mesmo o seu Nelson. Deixou-o esperando no portão da clínica - uma casa verde e térrea, com um bem cuidado jardim na frente - e foi perguntar a Luciane, a proprietária, se ele podia entrar.

- Claro que pode, Michelli, ele vem direto! Pode abrir - respondeu Luciane.

- E posso deixar ele sozinho com ela? - a auxiliar insistiu.

- Sim, claro, ele já é da casa.

“Não tem problema nenhum”, Luciane ainda comentou com a filha de uma outra paciente, com admiração, “ele vem todo dia, imagina você”. Ainda que fosse domingo, dia que não é de visitas na Novo Lar, Nelson sempre tinha permissão para ver a mulher.

Com tanta assiduidade nas visitas, não havia como não o apreciar naquele ambiente. A dona da clínica o considerava parte da família. Ela própria, Luciane, tivera uma depressão profunda anos antes e quase morrera. Chegara a pesar 40 quilos e passara meses sem andar. Teve de reaprender várias coisas e uma delas era dirigir. Ao vê-la agarrada ao volante, sem coragem de ligar o carro, era Nelson quem dava força. “Larga de frescura, menina, vai logo!”, ele dizia. Quando a encontrava na rua, Nelson corria com seus passos trôpegos para trás de um poste. “Da próxima vez que sair, me avisa que eu fico em casa, não quero arriscar ser atropelado!”, brincava. Ele tinha boa presença de espírito e isso o destacava na casa de repouso, onde o som que mais se ouve são queixumes e lamúrias. Uma das enfermeiras provocava:

- Dona Neusa, vamos reagir, levanta da cama. Seu marido é tão bonitão, não pode deixar solto!

Neusa franzia o cenho, parecia enciumada.

- Tô brincando, dona Neusa. A senhora é que tem sorte. Que homem hoje cuida da mulher desse jeito? Quero ver se meu marido vai ser assim quando eu envelhecer.

Por dever de ofício, Luciane tentava ficar atenta às visitas. Parentes distantes de idosos sem filhos (sobrinhos, sobrinhos-netos) recebiam atenção especial. “Vai que estejam interessados em uma herança?”, justificava ela. 

Nelson e Neusa, por outro lado, serviam de exemplo. Eram chamados de “casal 20” e apontados como inseparáveis. Luciane flagrara muitos momentos de carinho entre os dois. Ele acariciava os curtos cabelos brancos e o rosto de pele fina e morena de Neusa e, embora sentisse uma pontada na coluna a cada vez, abaixava-se à altura do leito, abraçava a mulher (envolvendo-a com o braço bom) e a beijava. Ao notar que era observada pelas enfermeiras, Neusa sorria.

- Tá gostando, né, dona Neusa? - dizia Luciane - Mas daqui a pouco ele tem de ir embora, você sabe.

- Essa é minha velhinha, Luciane, e eu não vivo sem ela - Nelson interveio, certa vez.

- Agora, ela é minha, seu Nelson, o senhor perdeu. Não vai mais tirar ela de mim.

Existiam momentos leveza, o bom humor ainda estava ali, mas se tornava cada vez mais raro. Nos últimos tempos, as enfermeiras notaram uma mudança no comportamento de Neusa que não souberam dizer se era importante. Sempre que Nelson deixava o quarto, a mulher ficava muito triste. Ela tinha uma depressão severa e essa condição inclusive foi apontada como uma das razões para que tivesse parado de andar. Mas daquele jeito nunca ficara. Bastava o marido sair para que caísse em um choro copioso, que durava até de noitinha. Não adiantava perguntar, pois ela não diria o motivo. Muitas vezes, Luciane quis saber e, pelo que me contou mais tarde, Neusa chegava a abrir a boca para falar, mas mudava de ideia e virava para o lado.

Luciane não insistiu. Muitas vezes ela ouviu Nelson dizer coisas belas à esposa, outras tantas o viu acariciando-a, e a enfermeira acreditou que o choro era efeito do cuidado do marido com a mulher que, além das limitações físicas, sofre de depressão.

Nelson também notou que, desde que a sonda fora instalada, a esposa muitas vezes se esforçava, mas desistia de falar. Ele sabia que não adiantava insistir. Quando ela virava o rosto para o lado até afundá-lo no travesseiro com um resmungo, era porque não queria mais tentar se comunicar. Um dia Nelson percebeu que Neusa fazia um esforço maior. De dentro do pescoço enrijecido e entortado à direita, ele acreditou ouvir breves gargarejos. Nelson aproximou-se. Escutou:

- Me ti-ra da-qui.

***

Foi então que, para Nelson, a ideia da bomba começou a se transformar em certeza.

...CONTINUA

Esta é parte de uma história escrita originalmente para o site de reportagens Brio. Leia a íntegra aqui.

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