Pierre Verger
Pierre Verger

Segredo escondido

Diógenes Moura, O Estado de S. Paulo

28 Fevereiro 2015 | 16h00

Diante dos seus olhos de Oju Obá - o Renascido, Pierre Verger, Fatumbi porque pertence às raízes do sagrado, enxergou os quatro cantos do mundo como uma única fotografia, para eternizar o que é passageiro, para que possamos outra vez guardar o que já passou, para continuarmos vivos depois de mortos. Verger sempre foi um fotógrafo “desaparecido” diante do outro, das coisas que estavam a dois passos da sua câmera, do espelho invertido que fez com que sua obra inquieta, deserta, silenciosa e povoada construísse um tempo ancestral e se tornasse definitiva no Brasil e do outro lado dos oceanos. Foi ele mesmo quem fez questão de ferir os pés como aventureiro para fazer surgir com sua devoção uma história de união entre homens e coisas, dor e beleza, tempo e mistério.

Uma vez ele me disse que haveria sempre um “segredo escondido” na criação de um fotógrafo, sobretudo porque a próxima imagem deveria sempre partir do ontem para alcançar o muito além. Essa transposição poderá levar a vida inteira. No caso de Verger foi o que aconteceu. Desde a imagem do homem negro sem cabeça segurando um arpão sobre o mar da Polinésia - simbolicamente, ali está marcada a despedida de um grande amor * - até a delicadeza impressa nos relatos/diários produzidos nas ruas de Salvador, aonde chegou para sempre em 1946. Na capital baiana foi olhando de mansinho: primeiro fotografou os edifícios, os casarios, as ruas com seus destinos paralelos, as esquinas sombreadas quando ainda era possível parar e fazer parte de uma paisagem quase sagrada. Apenas com o tempo passou a descobrir a figura humana e trazê-la para seu mundo particular e universal. Sempre assim: pessoas inteiras, mesmo que de passagem, retratos para sempre onde multidões aparecem como um só núcleo de afeto e transparência, detalhes de corpos onde a alma não foi esvaziada, as mãos, o olhar diluído pelo silêncio, os gestos que tanto perdemos com o endurecimento de nossos dias atuais. 

Mas o que faz um fotógrafo querer que os outros vejam o que ele viu? Justamente isso: desvendar o “segredo escondido”. Nesse caso, apenas os verdadeiros ficam de pé. E podem se tornar lendas. Alcançáveis, mas lendas. “Jorge Amado uma vez escreveu que um dia alguém lhe perguntou, ‘muito a sério’, se Pierre Verger realmente existia ou se era uma invenção baiana. Escreveu também que Mãe Senhora, inesquecível e soberana do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, havia comentado com um sorriso nos lábios: ‘Cuidado com Verger, ele é feiticeiro e tem poderes’. Verger, no seu canto sempre foi discreto e sempre teve dificuldades em trocar conversas e responder perguntas inúteis. Ou porque era tímido ou porque nunca se interessou por coisas dispensáveis. Preferia muito mais revelar lendas e plantas africanas e brasileiras, escrever sobre o fluxo e o refluxo dos escravos.” Escrevi esse relato para o livro Pierre Verger - Fotografias para não Esquecer, publicado pela Editora Terra Virgem, em 2009. Por que reproduzi aqui? Porque Verger tem esse dom de unir o passado ao presente e, sobretudo, ao futuro. Sua presença como persona e fotógrafo (ou uma coisa só) é infindável. Ele é dono de um tempo completo. Isso faz com que nossas palavras sejam as mesmas, sempre. Como um livro aberto, que página por página, poderá mudar a cada instante.

Pierre Edouard Léopold Verger disse “sim” no dia 11 de fevereiro de 1996, aos 94 anos. Estava em sua casa no alto do Corrupio, uma morada simples pintada com as cores de Xangô, o dono de sua cabeça. Levou consigo o “segredo escondido” que apenas os que não mentem sabem onde encontrar.


DIÓGENES MOURA É ESCRITOR, CURADOR DE FOTOGRAFIA E EDITOR. AUTOR DE FULANA DESPEDAÇOU O VERSO (CRÔNICAS/CONTOS, TERRA VIRGEM, 2014). RECEBEU O PRÊMIO APCA DE MELHOR EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA DE 2014 COM RETUMBANTE NATUREZA HUMANIZADA, UMA LEITURA NA OBRA DO FOTÓGRAFO LUIZ BRAGA. É CURADOR DA MOSTRA A ARTE DA LEMBRANÇA - SAUDADE NA FOTOGRAFIA BRASILEIRA, EM CARTAZ NO ITAÚ CULTURAL ATÉ 8 DE MARÇO

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