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Seis escritores que previram nosso tempo melhor que 'Blade Runner'

Livro de Philip K. Dick e filme de Ridley Scott se passam em 2019, outros futuros se parecem mais com nosso presente

George Bass, The Washington Post

21 de dezembro de 2019 | 16h00

Blade Runner, o filme baseado no romance de Philip K. Dick, de 1968, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?), se passa no futurista ano de 2019. Na realidade, replicantes e carros flutuantes não se materializaram. 

Compare isso com O Conto da Aia, de Margaret Atwood, que, quando foi publicado em 1985, era considerado “incapaz de assustar”, segundo um crítico do The New York Times. Na época, a ideia de um pandemônio global parecia duvidosa, mesmo na ficção. O Live Aid uniu bilhões, a Nasa estava de olho em Marte e na tela, John Hughes liberou os adolescentes de suas armadilhas. A sombra da Guerra Fria parecia aumentar. E, no entanto, quase 35 anos depois, aqui estamos em um patriarcado distópico.

A clarividência é um efeito colateral imprevisível ao se escrever histórias. Arthur C. Clarke ficaria com o coração partido ao saber que o mais próximo que chegamos ao turismo espacial é com Elon Musk, mas Mary Shelley pode se alegrar com a notícia de que, 136 anos depois de Frankenstein, os médicos realizariam o primeiro transplante de rim com sucesso. 

Philip K. Dick pode não ter acertado suas previsões sobre 2019. Mas outros escritores conseguiram. Confira uma seleção: 

H.G. Wells

Especialistas em armas poderiam argumentar que a Guerra dos Mundos de Wells era seu livro mais visionário, imaginando hordas de marcianos armados com armas químicas e plantas invasoras. Mas o antecessor desse livro, O Homem Invisível, de 1897, vislumbrou verdadeiramente o futuro. O albino estudante de óptica, Griffin, aperfeiçoou uma droga que o torna transparente, e ele a usa para cometer ataques incógnitos às pessoas ao seu redor: roubo, incêndio criminoso, sequestro. Desconfortavelmente humano, Griffin é uma voz furiosa, fadada a se sentir ignorada. Seu espírito vive em todos os palavrões postados em notícias locais nas mídias sociais.

Tim Earnshaw

A subestimada trilogia de Los Angeles de Earnshaw é uma das mais agradáveis ficções científicas já publicadas. Em cada edição, o protagonista ouve a música tema de Bewitched e depois sucumbe a um fenômeno bizarro. O herói de Murmur (Murmírio), de 1999, é o artista da Costa do Pacífico, Ken Leverton, que começa a ouvir objetos conversando entre si: caixas eletrônicos, bifurcações e cabos de dados balbuciam, enquanto sua velha mala relata um feriado do qual ele havia esquecido. Em seguida, os produtos ficam desagradáveis, revelando seu desprezo pelos seres humanos, ou “lama burra”, como eles nos chamam. É isso que devemos esperar quando Alexa se cansar de tocar repetidamente Mr. Brightside?

John Wyndham

Mestre da catástrofe aconchegante, John Wyndham entrou no século 21, sem saber, quando escreveu The Kraken Wakes em 1953. Os alienígenas abandonam seu planeta natal e se mudam para a Fossa das Marianas, onde começam a colher navios de cruzeiro. Quando o homem faz sua retaliação com armas nucleares, os invasores começam a soprar as calotas polares. Nossos heróis, Mike e Phyllis Watson, assistem, incrédulos, à medida que o nível do mar aumenta lentamente, forçando sua retirada para a Cornualha (agora uma ilha) e fazendo com que o governo britânico fuja para Harrogate.

Neal Stephenson 

Quando Stephenson lançou o Snow Crash em 1992, o termo “navegar na internet” tinha acabado de ser cunhado. Certamente, a ideia de MMOs (jogos online para vários jogadores) parecia um nicho. Mas é isso que o Fortnite é hoje e é o mundo virtual Metaverse deste livro, com bilhões de usuários tão dependentes de computadores que começaram a sucumbir aos vírus das máquinas. Embora não seja tão profético quanto A Máquina Parou (The Machine Stops), de E.M. Forster – que, em 1909, pode ter plantado a semente do FaceTime com uma mãe conversando com uma imagem projetada de seu filho distante – Snow Crash lançado no Brasil também como Nevasca) ganha pontos extras por sua estranha visão de exércitos particulares e refugiados reunidos em balsas do tamanho de cidades.

Rupert Thomson

Em 2005, o Reino Unido é “um lugar conturbado, obcecado por aquisições e celebridades”. Assim, o governo decide preventivamente “dividir em quatro” o país com base no temperamento deste conto de pesadelo. Muito antes de o Brexit fazer o mapa constitucional de votação do país parecer com o senhor Burns de Os Simpsons, Reino Dividido separava a Grã-Bretanha em quatro cores, cada uma correspondendo a um dos humores vitais, incluindo verde para melancólico, amarelo para colérico e azul para os apáticos. Nosso herói, Thomas Parry, foi designado otimista /sangue vermelho, mas uma noite encontra sua chance de saltar a fronteira. Se essa visão da Grã-Bretanha não era suficientemente isolacionista, o primeiro livro de Thomson, Dreams of Leaving (Sonhos de Partida), descreve uma vila inglesa da qual ninguém tem permissão de sair.

Sinclair Lewis 

Diversos analistas políticos falaram sobre como o “Trumpismo” foi clonado da sátira distópica de Lewis Não Vai Acontecer Aqui. Mas, francamente, as semelhanças entre Berzelius “Buzz” Windrip, o presidente populista e o governo republicano de hoje são tão fortes que vale a pena destacá-las. Um líder que se considera campeão dos “homens esquecidos”? Está aqui. Golpes no “intelectualismo pretencioso”? Aliados depostos? Promessas eleitorais quebradas? Parece que tudo já estava lá em 1935, até o frenesi de vistos para o Canadá. 1984, de George Orwell, pode ser o livro político mais duradouro jamais escrito, mas Não Vai Acontecer Aqui previu 2016 e além com tanta desenvoltura que deveria ser arquivado nas prateleiras de astrologia. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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