ARQUIVO PESSOAL
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Sem cachorrada!

Quando acolhemos animais em casa e não lhes damos cabeçadas reparamos um pouco as injustiças contra eles

Dagomir Marquezi, O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2015 | 16h00


Ainda existe gente que usa a classificação “útil” para os animais. “Úteis” são os animais que devoramos, esfolamos vivos para fazer casacos e aprisionamos a carroças até a morte. Nesse caso, Gucci e Victoria foram muito mais úteis do que se pode imaginar, num sentido sutil e profundo. Se você (ainda) não conhece a história delas, aqui segue um resumo.

A produtora carioca Ninna Mandin, moradora da Barra da Tijuca, tinha um noivo chamado Rafael Hermida, sócio de um bar chamado Buddy. Rafael parecia carinhoso com Ninna, sua família e as buldogues francesas Gucci e Victoria. Só que as cadelinhas começaram a aparecer machucadas sem razão aparente. E mostravam medo quando Rafael chegava perto.

Ninna resolveu instalar uma câmera oculta na sala. E registrou cenas que mexeram com o País. No vídeo, o “noivo carinhoso” pega uma das cachorras e a encara com expressão maníaca antes de dar uma violenta cabeçada em seu focinho. Depois a ergue por uma das patas traseiras, fica segurando no ar por alguns segundos até que a atira no chão com força.

Ninna terminou o noivado na hora, postou o vídeo no Facebook e gerou uma explosão em cadeia. Vinte e oito mil pessoas abriram uma petição pública para colocar Rafael Hermida na cadeia. Seus sócios no bar Buddy sentiram a pressão e comunicaram que vão afastar Rafael da sociedade. Celebridades como Luisa Mell, Gloria Pires, Daniele Suzuki e Caio Castro entraram no circuito. O caso se tornou viral nas redes sociais. “Os fatos são claros, revoltantes e bárbaros”, declarou o delegado Mário Luís da Silva, que cuida do caso. “As imagens comprovam o que foi feito.”

Os fatos só não pareceram muito claros para o próprio Rafael Hermida. Em post no Instagram, ele declarou: “Os que me conhecem sabem que eu amo animais, tenho inclusive sete cachorros, sendo um deles um vira-lata que peguei na rua. Minha ex namorada está me fazendo parecer um monstro, o que eu não sou!”. Ele não informou no post se cuida de seus sete cachorros como tratou as cadelinhas da ex-noiva. Depois, “esclareceu” no Facebook seu comportamento: “Fui brigar com as cachorras por conta de coisas erradas que as cachorras (sic) estavam fazendo pouco antes do momento das imagens”. E ainda ameaçou Ninna com um processo por ter prejudicado sua imagem pública. Ou seja: vai tentar faturar algum dinheiro com seu grosseiro espetáculo de maldade.

Gucci e Victoria podem ser consideradas “animais úteis” por duas razões. A primeira é o fato de que psicopatas e serial killers quase sempre começam sua trilha de sangue torturando animais. Segundo reportagem do New York Times, “o FBI descobriu que uma história de crueldade contra animais é um dos traços que aparecem regularmente nos registros de estupradores e assassinos seriais”. A tortura de pets vira um ensaio para o que poderão fazer com seres humanos. A impunidade é um incentivo.

Rafael Hermida é um psicopata então? Ainda não sabemos. Mas as duas buldogues se sacrificaram acidentalmente para que uma mulher e os sócios de um bar se livrassem a tempo de um homem violento e dissimulado. À medida que a sociedade percebe que a brutalidade contra animais é a porta para agressões a humanos, mais atenção deve dar a gente que esfola seus gatos, arrasta cães no asfalto ou tortura bois no litoral de Santa Catarina durante a Semana Santa. Os longos segundos em que Rafael encarou a cadela antes de cabecear seu focinho mostram claramente seu prazer com o sofrimento alheio. Talvez ele estivesse fazendo (num sentido metafórico) a mesma coisa com a noiva: olhando no fundo dos seus olhos à espera da hora certa de atacar.

Gucci e Victoria mostraram sua utilidade também ao gerarem essa onda de indignação. Muita gente se revolta com o fato de que pessoas demonstrem mais compaixão com animais do que com humanos. Depende do ponto de vista. Vivemos uma época em que jovens de todo o mundo viajam para a Síria e o Iraque para se juntar ao chamado Estado Islâmico como se fossem para a Disney World. Se oferecem para ajudar a escravizar mulheres, crucificar homens e enterrar crianças vivas. Assistimos a isso passivamente, inventando desculpas racionais para aceitar um estágio inédito de primitivismo e barbárie em nome de uma causa. E mesmo assim nos consideramos os campeões da racionalidade.

Nesse cenário apocalítico, a indignação provocada pelo sofrimento de duas cadelinhas surge como um elemento redentor. Seres humanos sofrem no mundo inteiro, mas podem reclamar, organizar abaixo-assinados, chamar a polícia. O sofrimento mudo de Gucci e Victoria toca nesse ponto nevrálgico de nossa sensibilidade. E nos faz recuperar a humanidade amortecida por milênios de prepotência racional. Ao aceitar outros animais como parte de nossas famílias, nos enriquecemos espiritualmente e reparamos um pouco dos erros cometidos.

Quando aceitamos que cães sejam nossos filhos, fortalecemos nossos limites morais. Mesmo porque não educamos nossos filhos dando cabeçadas, suspendendo pelas pernas e os arremessando no chão.


DAGOMIR MARQUEZI É ROTEIRISTA, ESCRITOR, JORNALISTA E AUTOR DE EU SOU ANIMAL (KINDLE/AMAZON)

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