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Sem Hannibal Lecter, novo livro de Thomas Harris aborda imigrantes

Autor de 'O Silêncio dos Inocentes' publica seu primeiro livro em 13 anos

Alexandra Alter, The New York Times

25 de maio de 2019 | 16h00

MIAMI - Thomas Harris, o criador de um dos monstros mais aterrorizantes da literatura, sem dúvida tem uma das imaginações mais sombrias de quaisquer outros escritores de hoje. Seu famigerado assassino em série, Hannibal Lecter, devora os órgãos de suas vítimas depois de delicadamente prepará-los e uma vez comeu um homem vivo, servindo fatias de seu cérebro com trufas e alcaparras. Então, é um tanto inquietante ouvir Harris insistir que isso é real. “Acho que nunca inventei nada”, ele diz enquanto atravessa a 79th Street Causeway, em Miami, que leva além de uma pequena ilha chamada Bird Key, onde se passa uma cena climática em seu novo romance, Cari Mora (ainda sem tradução para o português). “Tudo aconteceu. Nada é inventado. Não preciso inventar nada nesse mundo.”

Harris, com 78 anos, repete essa ideia, ou uma variação dela, quase toda vez que pergunto sobre as origens de uma trama ou um personagem, e me ocorre que sua resposta é mais assustadora do que qualquer coisa que eu poderia ter antecipado. Não que Harris tenha uma imaginação abominável, mas ele é um observador atento e um cronista das pessoas e de seus mais sombrios impulsos.

Por quase 45 anos, Harris aterrorizou o público com seus romances apavorantes, que tiveram mais de 50 milhões de cópias vendidas, mas relativamente pouco se sabe sobre ele ou seu processo criativo. Ele não faz sessões de autógrafos nem se apresenta como autor. Ele não deu uma entrevista substancial desde meados da década de 1970 porque diz que prefere deixar seu trabalho falar por si.

Ao longo das décadas, seu silêncio apenas alimentou o fascínio público pelo homem esquivo por trás do monstro. Talvez a coisa mais surpreendente sobre Cari Mora, seu primeiro livro em 13 anos, seja que Harris está disposto a falar sobre ele. Cari Mora marca uma grande ruptura para Harris. Pela primeira vez desde seu livro de estreia de 1975, Domingo Negro, ele escreveu um romance que não apresenta Hannibal Lecter. É a primeira vez que Harris escreve extensivamente sobre Miami, seu lar nos últimos 30 anos, dando a ele uma chance de explorar o sofrimento de imigrantes e refugiados, assunto que vem pesando sobre ele.

A protagonista do romance, Cari Mora, é uma refugiada colombiana que trabalha como zeladora de uma mansão de Miami Beach que pertenceu ao chefão das drogas Pablo Escobar. Cari vive com temor constante de que as autoridades de imigração venham a revogar seu status de proteção temporária, e ela se encontra entre duas redes criminosas rivais que estão em conflito por rumores de riquezas enterradas sob a mansão. “O personagem de Hannibal ainda surge e às vezes me pergunto o que está acontecendo. Mas eu queria lidar com Miami, as pessoas daqui e sua luta, as dificuldades que vejo nas pessoas que vêm para cá”, diz.

Harris e eu nos conhecemos em uma manhã brilhante e abafada no estacionamento da Estação Pelican Harbour Seabird, um centro de resgate de animais em Biscayne Bay que aparece com destaque no novo romance. Cari trabalha lá como voluntária, cuidando de aves feridas. Harris, um amante da natureza, visita o centro regularmente há 20 anos. Ele levou esquilos órfãos e um íbis machucado para lá, e ele fez um workshop sobre reabilitação de animais selvagens, aprendendo como intubar um animal aflito praticando com um gambá morto. “Todos os outros tinham um pássaro”, diz.

Quando chegamos, ele cumprimentou o diretor e a equipe e perguntou sobre os animais que vira em sua última visita. “Havia um gambá dormindo aqui na minha última visita”, diz ele, antes de perguntar sobre algumas corujinhas que ele tinha visto empoleiradas em um armário. “Eu senti como se estivesse sendo observado, e estava mesmo”, diz ele sobre as corujas. Embora Harris esteja envolvido com o centro desde 1999, ninguém percebeu quem ele era até poucos anos atrás, disse-me o diretor executivo, Christopher Boykin. “Uma vez eu perguntei o que ele fazia, e ele disse que era um autor. Nós não tínhamos ideia.”

O fato de Harris, um criador de psicopatas e serial killers, mas ter um fraco por animais doentes pode parecer incongruente só quem o conhece apenas através de seu trabalho, mas não surpreenderia a ninguém que o conhecesse. Harris é profundamente reservado, mas não é um recluso nos moldes de J.D. Salinger ou Thomas Pynchon. Quando não está escrevendo, desenha, prepara refeições elaboradas e janta com os amigos. Ele costuma ficar do lado de fora em sua propriedade em frente à praia em Miami, de onde ele acompanha as íbis, os gambás, os iguanas e o ocasional golfinho ou peixe-boi. No verão, ele e seu parceiro, Pace Barnes, vão para sua casa em Sag Harbor, Nova York. 

“Se você não soubesse quem é ele, pensaria que é apenas um cara idoso do Mississippi. Ele não se impressiona consigo mesmo ou com qualquer outra pessoa.”, diz David Rivers, sargento aposentado no setor de homicídios do Departamento de Polícia de Miami-Dade, que conhece Harris há décadas e o ajudou em pesquisas para seus livros.

Apesar de sua aversão a entrevistas, Harris é um anfitrião gentil e impecavelmente educado. Ele é visto como um estudioso introvertido, citando F. Scott Fitzgerald, Horácio, Sócrates, Pablo Neruda, Ezra Pound e William Carlos Williams, como durante nossa conversa. Em público, Harris exibe uma vigilância e zelo que beira a suspeita. Ele às vezes usa a tela do celular como superfície reflexiva para ficar de olho no que está atrás dele. Durante o almoço, Harris ficou olhando por trás do ombro. A certa altura, um fã o reconheceu e pediu para tirar uma foto, e ele o fez cordialmente quando a mulher gritou: “Todos digam Clarice!” Depois disso, as pessoas sentadas próximas a nós ficaram em silêncio e de olho em nós. Harris foi cordial sobre a foto do fã, mas foi o tipo de intrusão que ele tenta evitar. A fama, diz ele, “é mais um estorvo do que qualquer outra coisa”.

Harris cresceu em uma pequena comunidade no Mississippi, onde sua família possuía uma fazenda de produção de algodão, soja e trigo perto do Rio Coldwater. “Meus companheiros, quando eu era criança, eram principalmente perus”, diz. Ele se formou em inglês na Baylor University e trabalhou como repórter em Waco, Texas. Tarefas de revistas o levaram para o norte do México, onde ele conheceu um médico da prisão que mais tarde se tornou uma inspiração para Hannibal Lecter.

Em 1968, ele conseguiu um emprego na Associated Press, em Nova York, cobrindo roubos, assassinatos e tumultos. Enquanto esteve lá, ele e dois outros repórteres delinearam o enredo de Domingo Negro, um romance sobre um plano terrorista para atacar o Super Bowl. (Eles dividiram o adiantamento e Harris escreveu a história.)

Harris escreveu seu segundo romance, Dragão Vermelho, que apresentou Hannibal, quando estava cuidando de seu pai doente no Mississippi. Stephen King comparou o livro a O Poderoso Chefão e mais tarde chamou Hannibal de “o grande monstro da ficção do nosso tempo”. O diretor Michael Mann adaptou a história em um longa-metragem.

Harris disse sentir-se irritado com seu carismático vilão. Uma vez escreveu que “não ficaria à vontade na presença de Lecter, sem ter certeza de que o médico não o poderia ver”. Mas a partir de então, Harris não conseguiu escapar de sua criação.

Hannibal tornou-se um inconcebível fenômeno da cultura pop com o romance de 1988 de Harris, O Silêncio dos Inocentes, sobre uma estagiária do FBI chamada Clarice Starling que visita Hannibal na prisão e busca seu conselho enquanto procura um serial killer. O romance foi transformado em um filme de 1991 estrelado por Jodie Foster e Anthony Hopkins, recebendo cinco estatuetas do Oscar.

Com o sucesso do filme, Hannibal Lecter se tornou uma peça lucrativa de propriedade intelectual. Harris seguiu com mais dois romances, Hannibal e A Origem do Mal. “Hannibal Lecter é como a Coca-Cola ou Kleenex ou alguma outra marca incrível”, diz Ben Sevier, editor de Harris. “Chega a representar mais do que o personagem fictício que Tom inventou.”

Mas como a franquia cresceu, os fãs começaram a se cansar do canibal. A Origem do Mal foi uma decepção comercial e crítica. O produtor Dino De Laurentiis, que adaptou o livro para o cinema, disse à Entertainment Weekly que Harris não estava interessado em fazer um livro que se passava antes de O Silêncio dos Inocentes e só concordou depois que De Laurentiis disse a Harris que ele possuía os direitos de personagem e que iria conseguir outra pessoa para escrever caso Harris se recusasse. 

Harris não questiona totalmente esse relato, mas a reformula como uma persuasão cordial por De Laurentiis, que morreu em 2010. “Ele realmente tinha os direitos de continuidade para o personagem e poderia ter feito o que quisesse”, diz Harris. “Ele era muito entusiasmado pelo filme, e isso foi contagioso, suponho.”

Ao longo dos anos, jornalistas e biógrafos vieram com várias teorias sobre os motivos pelos quais Harris parou de falar publicamente sobre seu trabalho.

Um mito difundido é que insistentes repórteres continuaram tentando descobrir de onde vinham suas perversas ideias, e Harris se irritou com a implicação de que ele nutria tendências psicopáticas.

Essa conjetura não é bem verdade, ele diz. Ele parou de dar entrevistas porque não gostava nem precisava delas. “Tive a sorte de meus livros terem encontrado leitores sem que eu os promovesse, e eu prefiro assim”, diz ele.

Às vezes, os conhecidos perguntam como ele inventa tais histórias sinistras. Quando perguntei como ele responde a essa dúvida, Harris me encarou como se a resposta fosse óbvia. “Eu respondo que não faço nada. Apenas olhe ao seu redor”, diz ele. “Porque tudo aconteceu.” 

Então Harris me deu um sorriso cerrado, selando seus lábios como se para sinalizar, educadamente, que isso é tudo que ele tinha a dizer sobre o assunto. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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