Sem o glamour de Hollywood

Piratas somalis estão mais para trombadinhas e camelôs de DVD, apesar de usarem meios high tech

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 20h37

Vendo as fotos da ação dos piratas somalis, a gente não se lembra de Douglas Fairbanks, Errol Flynn, Tyrone Power e Burt Lancaster, muito menos de Gene Kelly, talvez os corsários mais memoráveis do cinema; nem de Johnny Depp, o mais recente da galeria. Os bucaneiros da Somália tampouco evocam a folclórica figura do vilão de perna de pau, olho de vidro, cara de mau, papagaio no ombro, barrica de rum na mão, mitificada pelo imaginário popular e entre nós glorificada por uma marchinha carnavalesca do Braguinha.

Marginais do século 21, seus parentes mais próximos são os trombadinhas das calçadas (camelôs de CDs e DVDs falsificados), os ventanistas da internet (hackers e crackers), os flibusteiros da radiofonia (1.252 rádios piratas foram fechadas no Brasil em 2008) e demais avatares contemporâneos do Barba Ruiva, do Barba Negra, de Henry Morgan, Francis Drake, Jean Lafitte, Captain Kidd, os patronos da espécie.

Eles não usam bandana, nem chapéu, mas boné de beisebol; no lugar do tapa-olho, óculos escuros. Nada de espadas, facões ou garruchas; suas armas são granadas e fuzis automáticos Kalashnikov. Suas galeras são lanchas motorizadas, orientadas por GPS e walkie-talkies. Agem mais como os piratas que antigamente atuavam no norte da África do que os que pilhavam embarcações no Caribe: não cobiçam ouro e riquezas que tais, cobram "tributos", pedágios marítimos e resgates, como uma "forma de ressarcimento" pela miséria a que todos os somalis foram condenados depois que os colonizadores europeus foram embora.

Bandidos sociais, no sentido que Eric Hobsbawm atribui ao termo, não são; e se com o mesmo propósito do Robin Hood surgiram, desse modelo já se desviaram, pois não há provas de que estejam distribuindo entre os somalis seu milionário butim. Mas, e se estiverem? Afinal, muito pouco ainda se sabe sobre eles. Bem conhecidos, porém, são os efeitos de suas ações sobre o comércio internacional, ferindo interesses graúdos, como as rapinagens dos corsários ingleses e escoceses do século 17 abalaram a economia espanhola, razão pela qual desde então a pirataria é mundialmente considerada uma atividade criminosa.

Rebeldes apátridas operando à margem da burocracia e acima da lei, os piratas do passado (que existem desde a antiga Grécia e tiveram seu apogeu entre os séculos 16 e 18) ganharam uma auréola de heroicidade anárquica, perigosamente sedutora. Metiam medo, mas fascinavam e divertiam com suas histórias de marinheiros, cheias de peripécias, lorotas, tufões e naufrágios. Eram cruéis, mas carismáticos, e até galantes, especialmente na literatura, na tela, nos quadrinhos e no palco. Desde pelo menos A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, que o corsário, plasmado na figura de Long John Silver, protótipo do Capitão Gancho e uma linhagem infindável de bucaneiros, do bem e do mal, se recusa a recolher sua bandeira negra, fincar âncora e sair de cena para sempre. Quando menos se espera, até num musical ele pode surgir, com músicas de Gilbert & Sullivan ou Cole Porter.

Delinquentes high tech, os neopiratas africanos aprenderam a lidar com a mídia de forma profissional. Sete meses atrás, um de seus porta-vozes foi entrevistado, por satélite, do passadiço de um cargueiro de armas ucraniano sequestrado poucas horas antes. "Não nos consideramos bandidos do mar", declarou. "Bandidos do mar são aqueles que pescam ilegalmente em nossas águas, nelas despejam detritos orgânicos, químicos e nucleares e por elas circulam mercadejando armas. Estamos apenas patrulhando nossas águas. Que nem uma guarda costeira."

Mesmo discordando da comparação com a guarda costeira, Nick Davis avalizou as palavras do pirata. Davis não é um palpiteiro qualquer. Ex-piloto britânico, fundou e dirige uma empresa que busca soluções para acabar com a pirataria, a APMSS (Anti-Piracy Maritime Security Solutions). Ao rosário de queixas dos corsários, acrescentou mais uma: por que só o Egito ganha dinheiro com as embarcações que cruzam suas águas (é a maior fonte de arrecadação do país depois do turismo) e a Somália, com uma área de pesca que é cinco vezes o tamanho do Golfo do México e por onde trafegam 20 mil navios mercantes por ano, não?

Em dezembro, deram 90 dias ao secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, para que ele traçasse uma estratégia de luta contra a pirataria somali. Daquela galera não saiu um tiro. Quinta-feira próxima, uma conferência internacional recomeçará a descascar o abacaxi em Bruxelas, com a presença da secretária de Estado Hillary Clinton, muito ativa na discussão sobre a melhor forma de se combater o que chama, com propriedade, de "gangues armadas no mar" e outros, ainda mais impacientes, de "terrorismo flutuante".

Durante uma década, a partir do governo Reagan, os Estados Unidos encheram o ditador Maxamed Siyyaad Barre de armamentos e US$ 100 milhões por ano em troca do controle absoluto do porto de Berbera, no Golfo de Áden, então de vital importância no Chifre da África. Derrubado em 1991, Barre ainda conseguiu sobreviver ao fim da Guerra Fria e à súbita desimportância do Chifre; a Somália, não. Bill Clinton tentou consertar os estragos adubados pela realpolitik de Kissinger, mas sua "invasão humanitária" da Somália, após a queda de Barre, saiu pela culatra, impedindo o desenvolvimento de instituições políticas estáveis e de condições mínimas para minorar a fome, o desespero e a atração pela violência naquele favelão à beira-mar plantado.

A opção militar, com uma possível invasão da Somália, conta, por enquanto, com menos adeptos que a alternativa diplomática. É fácil invadir a Somália; parece fácil ocupar a Somália; talvez seja fácil desmantelar a rede de pirataria, formada à sombra do vazio de poder e autoridade deixado por Barre; mas o que fazer depois de cumprida a missão?

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