Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Sem se chocar diante da tragédia, Brasil corre o risco de banalizar a morte

Freud propôs que a experiência de perda trazida pela morte nem sempre é tangível e pode coincidir com uma recusa inconsciente de que a morte signifique o aniquilamento da vida

Amanda Mont’Alvão Veloso*, Especial para o Estadão

19 de junho de 2021 | 05h00

Há uma cena na série The Looming Tower (2018), baseada em fatos reais, em que um homem adentra o quadro na medida em que os escombros do que foram as Torres Gêmeas abatidas no 11 de Setembro permitem ver algo diferente da destruição. Ele caminha por uma rua que se funde ao céu pela cor das ruínas, enquanto a câmera identifica em seus passos a vida e o movimento que não esperávamos de um acontecimento como aquele. Ele anda até chegar à casa de uma mulher conhecida, que com cuidados lhe devolve a feição que o identificava como humano e, agora, como sobrevivente. Na sequência, eles escutam na secretária eletrônica a fala exasperada de um homem a quem ambos amam e admiram. O bipe que encerra a mensagem trazia também as últimas palavras daquele que falava; marcava-se, ali, o fim de uma existência e o começo de um luto. A finitude que nos persegue como destino enquanto seres viventes é prontamente aceita apenas de modo racional; inconscientemente, cada um de nós está convencido de que é imortal. Freud propõe o exercício de imaginarmos a própria morte: o ato de imaginá-la em si já denota que ainda existimos, na condição de observadores daquele encerramento imaginário. 

Em 1915 ele havia escrito no pungente ensaio Considerações Atuais sobre a Guerra e a Morte que a experiência de perda trazida pela morte nem sempre é tangível. Há uma certa disposição psíquica primordial em cada um nós para admitir que pode ocorrer a morte de pessoas amadas, mas que coloca como contrapartida uma recusa inconsciente de que esta morte signifique o aniquilamento da vida. 

Sem espanto, há tempos que o término da vida puxa narrativas fundamentais para sua tolerância, seja via religião, arte ou outros caminhos. Presume-se um “depois” ou uma continuidade aqui e acolá, com diferentes matizes para o que se entende por morte. Mas universalmente somos atingidos por seus acontecimentos. 

Desde que 2020 se pronunciou como o ano que suspendeu o tempo e o colocou sob os caprichos do imponderável do horror, milhares de famílias brasileiras depositam lágrimas e desconsolos em suas tentativas de nomear o insuportável das mortes advindas da pandemia de coronavírus. Em paralelo, transcorrem as mortes provocadas por outras causas, não menos desesperadoras. Em comum, biografias particulares se perdem quando são submetidas à massividade dos números. Por algumas sensíveis iniciativas que rompem com a dimensão estatística das mortes, como a do projeto Inumeráveis, podemos pelo menos honrar alguns nomes: Wilma, Orlando, Ricardo, Irani, Erika. 

Mortes coletivas e tornadas “invisíveis” não são uma ocorrência atípica no Brasil que brutalmente asfixia vidas periféricas, reaviva os pesadelos da tortura e negligencia os avisos de catástrofes ecológicas e urbanas. Poupar é verbo direcionado não às vidas, mas à economia, ciência de Humanas que tem seu berço científico humano abertamente ignorado. Dia após dia, somos invadidos pela frequência das perdas, sistematizadas em gráficos e regionalizadas nos sotaques que, por sorte, pudermos conhecer nas despedidas. Essa mórbida constante, porém, ainda deixa ver uma anomalia: há quem não se envergonhe de confiscar o respeito e a dignidade das experiências de perda sofridas por tantas famílias. O pesar não recebe pronunciamentos oficiais, a morte é desdenhada com sadismo.

Sem se chocar com suas perdas, é como se parte do Brasil estivesse se acostumando a trivializar seus mortos mediante política pública. Incitados à frieza por algumas “lideranças”, alguns de nós esculpimos, via obediência, uma suposta normalidade, sem assombro diante dos absurdos. Obedece-se a um circuito de desumanidade, como advertiu Primo Levi sobre os numerosos homens ordinários que renunciam ao questionamento ético e, com isso, encarnam o perigo antes atribuído aos monstros. 

Faz-se necessário desobedecer à crueldade para manter a vida e o afeto, como propõem os filósofos Etienne de La Boétie e Frédéric Gros. Todos perdemos com mortes não reconhecidas e lutos violentamente subtraídos. Desagregamos cada vez que esgarçamos o laço comunitário do sofrimento, pois é preciso viver a experiência de assentamento da dor como forma de permitir que ela vá embora um dia. Existências findadas sem memória são como desaparições abruptas. Legam àqueles que ficam um rastro doloroso e angustiante que não remete a uma origem, em um padecimento assim descrito por Manuel Bandeira: “Morrer tão completamente / que um dia ao lerem o teu nome num papel / perguntem: “Quem foi?...” / Morrer mais completamente ainda, sem deixar sequer esse nome”. 

Que a “indesejada das gentes” seja, então, recebida sem silêncio covarde e com pudor, reconhecida em vez de amargurada, evitada por este mortífero Brasil em vez de acumulada. No país que enterra Paulo, Ismael, Alfredo, José Aparecido, Moraes, Zulmira, Vanessa, Naomi, Flávio e Aldir, entre quase 500 mil inesquecíveis, nunca esqueçamos que o apreço não tem preço. 

É PSICANALISTA, JORNALISTA E MESTRE EM LINGUÍSTICA APLICADA PELA PUC-SP

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