JF Diorio/Estadão
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'Semana de 22 não confirmou narrativa de ruptura', diz o maestro Lívio Tragtenberg

Em seu livro 'O que se ouviu e o que não se ouviu na Semana de 22', o autor trata do papel da música no modernismo brasileiro

João Marcos Coelho*, Especial para o Estado

10 de outubro de 2020 | 16h00

Oitenta e oito páginas foram suficientes para o compositor paulistano Lívio Tragtenberg, 59 anos, sacudir os alicerces de um dos maiores ícones culturais brasileiros e apontar vigorosamente para ao menos um grave paradoxo da Semana de 22. Em vez de cantá-la em prosa e verso como glória nacional, concentra-se na análise da participação da música no evento de 1922 e desmonta o que chama de “lenda da ruptura” que se propagou em torno dela no último século. Afinal, “uma província elege os seus heróis e efemérides como pode”, diz em entrevista ao Aliás. Assim, curto e grosso, o que se ouviu de mais ou menos moderno de fato foi Villa-Lobos; e o que não se ouviu foi o escandaloso descarte da riquíssima música popular, àquela altura fenômeno poderoso no Rio de Janeiro, ao qual Lívio dedica análise acurada e parte significativa do livro.

O Que se Ouviu e o Que Não se Ouviu na Semana de 22, livro contemplado pelo Proac, está disponível gratuitamente a partir desta semana em versão digital no portal do Arquivo Público do Estado de São Paulo. O exemplar físico pode ser comprado por R$ 39,90 em freenote.com.br ou na loja (rua Teodoro Sampaio, 785). A seguir, leia trechos da entrevista: 

Ao menos em termos musicais, a conversa de ruptura não passa mesmo de conversa, ou lenda. Do jeito que você vai (des)montando o quebra-cabeças da música na Semana de 22, ‘o’ marco inicial do modernismo e da contemporaneidade no Brasil passou longe disso. É isso mesmo? A Semana teria sido apenas uma grande armação mercadológica comandada por um tarimbado intelectual (Graça Aranha) e um bando de jovens deslumbrados?

A Semana foi uma confluência de interesses. Na verdade, ela começou em 1917, com a critica feroz de Monteiro Lobato à pintura de Anita Malfatti. Havia de um lado uma burguesia ascendente buscando legitimidade cultural, que só mirava na Capital Federal. Em torno dela, encontrou alguns de seus filhos que estavam se informando sobre a modernidade. O grupo de artistas era muito heterogêneo, de Mário de Andrade a Luís Aranha, passando por Oswald. Não eram exatamente deslumbrados, mas viam na Semana uma oportunidade de exposição publica, citadina, de vivências ou no exterior ou em ciclos restritos dos saraus da elite. Graça Aranha tinha também pretensões pessoais, daí sua palestra na abertura. Ele também criou a ponte com o Rio.

A melhor coisa, em termos musicais na Semana, foi justamente o ‘estranho no ninho’ Villa-Lobos, que nada tinha a ver com os objetivos do evento? Havia algo paulista(no) de fato inovador que deveria ter sido mostrado, e acabou descartado? 

Como exponho no livro, a capital paulistana era ainda um reflexo do interior rural, com ingredientes de imigrantes paupérrimos em sua maioria. As ideias de ruptura ou modernidade, como nós as conhecemos historicamente, eram ainda totalmente estranhas a São Paulo de Piratininga. Não havia nada próximo à renovação que Villa-Lobos já promovia no Rio. Mário de Andrade deve muito a ele, tanto que o convidou a trabalhar no Departamento de Cultura que iria fundar num período posterior à Semana. Uma vida musical periférica, totalmente pautada pela música francesa e italiana do século 19.

“Elefante em loja de louças”, como você diz, Villa bagunçou o coreto modernista tanto assim? Ou teria ele mostrado um caminho que acabou não sendo depois seguido por Mário de Andrade, chefe de fila do movimento?

Bagunçou porque ele já havia ultrapassado certo provincianismo dos literatos modernistas em relação à cultura europeia. Mas também era indomável aos cânones estritos do nacionalismo de Mário. Veja a diferença de nivel dos compositores que se tornaram discípulos deste nacionalismo e Villa-Lobos.

As tuas análises das obras de Villa-Lobos mostram que sua música não pode ser analisada segundo a ótica europeia. Mesmo assim, um compositor francês como Olivier Messiaen o considerou ‘o melhor orquestrador de sua época’, enquanto no Brasil ele era até pouco tempo atrás visto como um sujeito de talento amazônico porém de formação musical clássica liliputiana. Faz sentido isso?

Depende de qual régua se usa para medir as coisas. Villa-Lobos já não estava mais estilizando a estética europeia, mas ainda mantinha fortes elos de linguagem com ela. A sua formulação poética já não cabia na exploração apenas da “cor local”, como ocorreu em diferentes culturas musicais do final do século 19. Messiaen compreendeu essa exploração plástica da matéria sonora em camadas, que caracterizava sua orquestração. É risível, ainda hoje, subestimar as capacidades técnicas de Villa. Pode-se considerar certas obras regressivas ou mesmo reacionárias em termos de linguagem, mas isso é parte de um contexto mais complexo da cultura no Brasil.

Mítica, ícone do modernismo nacionalista, mesmo assim a Semana de 22 acabou gerando uma herança basicamente conservadora para as gerações posteriores? Seu livro dá a entender isso.

Sim, estabeleceu-se ao longo do tempo uma narrativa de ruptura, que logo no momento seguinte à Semana não se confirmou. Apenas Oswald de Andrade aprofundou questões relativas à modernidade na poesia e na atuação cultural. Mário de Andrade, figura complexa, galvanizou as heranças mais conservadoras da província, pontificando para discípulos obedientes e que reproduziram uma falta de questionamento e autocrítica de uma metrópole ascendente, mas ainda dominada por uma elite quatrocentona.

Após 100 anos da Semana de 22, você alerta sombriamente que ‘precisamos ter distanciamento crítico e sentido de pertinência para que a efeméride por si mesma não ofereça uma ocasião e um ambiente para que antigos ressentimentos e fantasias frustradas voltem a ressoar e a nos assombrar’. Quais?

O ressurgimento de um certo discurso oficialesco de cultura, que pretenda “retomar velhos ideais” de nacionalidade e identidade cultural pré-modernas, ironicamente. Por trás dessa cortina de fumaça, irão pipocar os fogos-fátuos da efeméride, que certamente abrirão pouco espaço para uma revisão crítica e muito para uma reificação cultural provinciana, grudada com fita crepe.

*JOÃO MARCOS COELHO É CRITICO MUSICAL E AUTOR DE ‘PENSANDO AS MÚSICAS NO SÉCULO XXI’ (PERSPECTIVA)

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