KCNA/Reuters
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'Ser influente é saber causar comoção'

O poder da Coreia do Norte é duvidoso, mas é capaz de chamar atenção. Mas para quê tanto barulho?

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2009 | 08h05

Há três anos, Kim Jong-il promoveu o primeiro teste nuclear da Coreia do Norte. Fracassou. Gerou um impacto de apenas 1 quiloton e levou o Conselho de Segurança da ONU a aprovar uma resolução que impunha sanções pesadas ao país. Mas Kim Jong-il, o Querido Líder, é persistente. Depois de provocar novas retaliações ao lançar, em abril, o que jurou ser apenas um satélite de comunicações, voltou a brincar com fogo. Fez novo teste nuclear, desta vez bem-sucedido, com uma potência estimada entre 10 e 20 quilotons - a mesma da bomba atômica que destruiu Hiroshima, na 2ª Guerra Mundial. Estaria o ditador norte-coreano testando, além de armas, a tolerância das grandes potências mundiais?

 

A reação ao ensaio atômico foi ruidosa. Os Estados Unidos e a Coreia do Sul, especialmente, mobilizaram-se para impedir mais movimentos beligerantes do líder de aparência bizarra do Norte. "Só diplomacia não adianta. É preciso mostrar a Kim Jong-il que o preço da insistência será alto", afirma o cientista político Robert Jervis, professor de relações internacionais na Universidade Colúmbia. Autor de Perception and Misperception in International Politics e The Meaning of Nuclear Revolution, Jervis acredita que o impasse com a Coreia do Norte não desencadeará um conflito de grandes proporções porque a China deve se posicionar mais duramente para evitar a consequência indireta dessa situação, que seria um Japão fortemente armado. Até lá, o jogo de hipocrisias, barganhas e chantagens vai continuar. "Por que os EUA aceitaram a Índia nuclear? Ou permitem a política armamentista israelense? A hipocrisia é enorme em política internacional." Confira trechos da entrevista que Jervis cedeu ao Aliás, de Nova York.

 

PEQUENO GRANDE PROBLEMA

"Países menores sempre foram capazes de desencadear grandes crises mundiais na esfera da política internacional. A 1ª Guerra Mundial, por exemplo, começou depois do assassinato do herdeiro austro-húngaro por um sérvio. Os EUA perderam uma sangrenta guerra no Vietnã e boa parte da política externa americana foi pautada por isso durante dez anos. É preciso lembrar que influência e poder não são a mesma coisa. Se olharmos para o número de tanques e tropas, talvez esses ‘nanicos’ nem sejam tão poderosos, mas você pode obter influência de várias formas e uma delas é pela habilidade de criar uma comoção, o que esses países têm.

 

CONDESCENDÊNCIA AMERICANA

"Por muito tempo, acreditamos que a Coreia do Norte queria chamar a atenção para que o governo americano desse algum tipo de garantia de que não tentaria enfraquecer o regime comunista. Se fizéssemos isso, pensávamos, eles desistiriam das armas nucleares. Isso até pode ter algum sentido, mas não é tudo. Primeiramente, acho que norte-coreanos e iranianos querem ser tratados com respeito. Muitas potências, especialmente os EUA, têm dificuldade em entender isso, porque estão acostumadas a ser respeitadas e assumem que isso seja um direito exclusivo seu. Os americanos são condescendentes com outros líderes. Mas tanto o Irã quanto a Coreia do Norte têm uma longa e importante história e querem ser reconhecidos como tal. Talvez a estratégia para obter o respeito não seja a melhor, mas esse é outro problema.

 

ENTRAVES INTERNOS

"O impasse é delicado, porque não se pode ditar o que deve ser feito nesses países. Ainda mais que as relações dos EUA com o Irã sejam ruins há 30 anos e com a Coreia do Norte desde sempre. Seria preciso mudar as relações num nível mais profundo. O problema é que isso demanda iniciativas dramáticas de um dos dois lados e essa virada pode ser complicada internamente, com entraves políticos. Barack Obama mandou aquele vídeo ao Irã (em março, quando enviou uma mensagem ao povo e aos líderes iranianos para retomar as conversas diplomáticas) e foi uma abertura, sem dúvida. Mas talvez sejam necessárias atitudes mais contundentes e isso é difícil, tanto por razões políticas internas quanto pela incerteza do resultado dessa ação.

 

OBJETIVOS CONCRETOS

"A Coreia do Norte pode até almejar garantias de que não será atacada, mas, acima de tudo, quer uma relação mais igual com a Coreia do Sul. Há 20 ou 30 anos, o Norte era muito mais poderoso que o Sul e esse quadro se inverteu. O Irã, por sua vez, parece buscar mais influência na região e, ao ter poder nuclear, ainda que para uso civil, manda uma mensagem de que o país tem tecnologia avançada e pode vir a ter uma força militar maior, o que certamente rende algum tipo de influência. Mas é difícil ter certeza do que Irã e Coreia do Norte querem de fato.

 

O QUEBRA-CABEÇA

"O território costumava ser o principal ponto de disputa entre países. Claro que a Coreia do Norte adoraria tomar o Sul, mas essa é uma meta irrealista. Pelo mundo afora, essas disputas por terra são raríssimas. Isso torna os conflitos muito confusos. Perguntei a especialistas no caso coreano: sobre o que é esse conflito, afinal? Ou o conflito é sobre o próprio conflito? Não há uma resposta consensual. Alguns afirmam que nem os norte-coreanos sabem. É um quebra-cabeça. O caso iraniano é mais claro, porque há uma evidente vontade de ter um papel regional maior e apoiar o terrorismo do Hezbollah e do Hamas. Mas ainda há uma corrente que diz que o Irã quer mesmo é conquistar um lugar legítimo no cenário internacional e no Oriente Médio.

 

DIPLOMACIA x AMEAÇAS

"Conversei com muitos negociadores que dialogam com a Coreia do Norte. Eles têm diferentes visões sobre como lidar com a situação, embora reconheçam a competência dos negociadores do outro lado da mesa e admitam que a barganha com eles não é tão diferente da feita com outros países. O fato é que as alternativas têm de ser combinadas. Para a diplomacia funcionar, ela tem de ser respaldada por sanções e ameaças. É preciso mostrar a esses países que, se continuarem nessa corrida nuclear, seus objetivos não serão alcançados e o preço será alto.

 

MOEDA DE TROCA

"Se a razão da chantagem não é clara, os meios para fazê-la são: o poderio nuclear se tornou a principal moeda de troca. A posição americana é muito definida no objetivo da não-proliferação desse tipo de arma. E, embora os EUA sejam o único país a já ter usado uma bomba atômica, não acho que isso enfraqueça o discurso americano. Não conheço nenhum caso em que líderes tenham usado esse fato para justificar seus programas nucleares. Eles são guiados pelas preocupações com a segurança nacional, prestígio e política doméstica. Mesmo o Japão, que obviamente poderia usar esse argumento, sempre apoiou a iniciativa dos EUA em evitar a proliferação de armas nucleares.

 

PESOS E MEDIDAS

"O que pode trazer questionamentos são os critérios nessa exigência. Por que, por exemplo, os EUA aceitaram a política nuclear da Índia? Ou sempre permitiram a política armamentista israelense? Recentemente, Obama até deu sinais de que tentaria convencer Israel a mudar sua política nesse aspecto, mas isso certamente não vai acontecer, embora fosse uma boa ideia. O ponto é que em relações internacionais é comum se ter dois pesos e duas medidas. Mesmo na vida pessoal de qualquer indivíduo, a hipocrisia é predominante em quase todas as sociedades. Pois a hipocrisia é ainda maior em política internacional e os líderes estão acostumados a isso. Houve um grande debate nos EUA na época do acordo com a Índia, sobre se o governo americano deveria ou não ceder, mas, até onde se sabe, outros países não têm usado esse acordo como um pretexto para seus programas. Talvez, daqui a cem anos, venhamos a descobrir que Kim Jong-il e Mahmoud Ahmadinejad conversaram: "Bom, se os EUA cederam à Índia, vamos continuar pressionando que eles vão ceder para nós também". Mas não acho que esse tenha sido um fator determinante na decisão de continuar nesse caminho.

 

O FATOR CHINA

"O governo chinês foi firme na oposição ao teste nuclear recente e apoiou a resolução da ONU depois do teste de 2006. Claro que a China não é tão incisiva quanto os EUA, mas já demonstrou sua posição. Para os chineses, o maior pesadelo seria se o Japão desenvolvesse um arsenal nuclear. E os japoneses têm condições de produzir essas armas rapidamente, embora relutem em fazê-lo. Aliás, a única coisa que fará o Japão seguir esse caminho será a Coreia do Norte insistir em seu programa nuclear de forma tão agressiva. A China entende que a real ameaça da iniciativa norte-coreana é a reação do Japão. Isso causaria uma insegurança tremenda na região. Os EUA fizeram, se não tudo, quase tudo que poderiam em termos de punições. Não restaram muitas alternativas, a não ser voltar às sanções econômicas. As outras opções precisam da participação da China.

 

O RESULTADO DA CHANTAGEM

"Não é certo que os países que não buscam armas nucleares tenham menos poder nas mesas de negociações internacionais. Aliás, se eu conseguisse fazer meus estudantes responderem a essa pergunta, seria uma grande pesquisa. Como acadêmico, quero deixar claro que vou responder com impressões, sem teorias para dar suporte a essa suposição. Mas pensemos na Índia e no Paquistão. Eles melhoraram suas condições nas relações internacionais por serem potências nucleares? Creio que não. Mesmo a França, que também desenvolveu seu arsenal, ainda é considerada uma potência de segundo escalão. Armas nucleares podem tornar um país mais seguro e o Irã e a Coreia do Norte não estão sendo tolos ao querer desenvolvê-las, embora eu preferisse que eles desistissem. Mas elas não trazem benefícios em outros campos, como alguns líderes gostariam.

 

INTERMEDIÁRIOS DISCRETOS

"Intermediários nas negociações internacionais podem ajudar muito, mas a ONU não tem de ser a única instituição a desempenhar esse papel. Sua utilidade é mais no sentido de que os diplomatas estejam sempre dialogando ali e, sem atrair tanta atenção, conduzam negociações mais discretas. Porém, quando falamos da ONU, normalmente nos referimos ao secretário-geral. Kofi Annan criou uma persona no ambiente político internacional que poucos conseguirão copiar, por sua dignidade e até pelo respeito imposto por sua aparência física. Ban Ki-moon não tem o mesmo carisma e está numa posição delicada: não pode se manifestar duramente porque é sul-coreano e os vizinhos ficariam enfurecidos se ele dissesse algo errado. Outra instituição que poderia pressionar a Coreia do Norte e o Irã é a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), mas seu secretário, Mohamed el-Baradei tem, entre algumas virtudes, o defeito de ter um ego enorme e uma necessidade de mostrar que ele esteve ou está certo em impasses. De fato, ele já acertou em muitas coisas, mas ficou queimado por algumas atitudes (como em 2007, quando disse que não tinha provas de que o Irã estava se armando e causou polêmica com o Conselho de Segurança da ONU). Seu substituto talvez faça mais diferença como interlocutor. Fiz um estudo com intermediários no Oriente Médio e ficou claro que o maior progresso na região ocorreu quando os EUA se envolveram menos. Então, acho que cada vez mais a ONU se transformará numa plataforma de diálogo e menos de ação.

 

GAROTOS MIMADOS

"É tentador rotular Kim Jong-il e Mahmoud Ahmadinejad de garotos mimados, e fazemos isso quase instintivamente. Mas esse é um perigo, porque mesmo em países como a Coreia do Norte, em que o líder tem um poder enorme, os governantes não agem sozinhos. No Irã isso é ainda mais delicado, porque entre as lideranças há dissidências e desacordos. Podemos, de fato, estabelecer paralelos entre o ‘comportamento’ dos Estados e o dos indivíduos. A questão de buscar respeito, por exemplo, é comum no nível individual, nacional e internacional. Mas, de forma geral, devemos tentar resistir a essa tentação. Kim Jong-il pode parecer uma criança mimada, especialmente por sua aparência bizarra, mas essa análise não é produtiva. Claro que tentamos entender o que esse homem quer, pensa e sente, porém, a questão é maior do que ele.

 

A NOVA GERAÇÃO

"A transição no regime comunista norte-coreano parece estar sendo preparada, mas não acho que haja uma crise nesse sentido. Alguns especialistas admitem que há poucas certezas sobre quanto essa transição está afetando as decisões da cúpula. Boa parte dos assessores de Kim Jong-il está na faixa dos 70 anos e eventualmente sairá de cena, mas não todos ao mesmo tempo. Haverá uma mudança geracional no comando e há esperanças de que os novos líderes sejam mais abertos. Mas isso vai levar anos e os líderes atuais terão muita influência na formação da nova geração e se dedicarão a manter os princípios do regime.

 

CICLO DE INSEGURANÇA

"Os militares são o principal pilar do Estado norte-coreano. Os suprimentos que o Sul manda para o Norte e o dinheiro obtido com ameaças no passado são absorvidos pela própria estrutura militar. Seria um exagero dizer que o poderio militar é tudo que o país tem, mas é bem próximo disso. Mudar esse cenário implicaria convencer os militares a diminuir seu papel e essa é uma possibilidade muito remota. Além disso, mesmo os civis têm amigos e parentes alistados e relutariam. A situação é parecida no Irã, com sua Guarda Revolucionária. Muitos países sul-americanos conseguiram reduzir drasticamente o papel dos militares em seus Estados. Essa é uma conquista e tanto e prova que é possível ter um poderio militar limitado e ainda se sentir seguro, coisa em que eu mesmo não acreditava há alguns anos. O paradoxo é que a Coreia do Norte e o Irã são de fato países inseguros e tomam medidas que atraem ainda mais perigo. Os EUA deram algumas demonstrações de que não pretendem invadir esses países, mas não há certeza alguma de que isso será verdade daqui a algum tempo. Não se sabe se a próxima administração será como a de George W. Bush e esses líderes tentam se proteger dessa possibilidade. Tenho esperanças, embora pequenas, de que a necessidade de investimento em segurança diminuirá com o tempo. Até lá, não acredito que o impasse com a Coreia do Norte chegue a deflagrar um conflito maior - mundial ou mesmo regional. Não excluo a possibilidade de um confronto localizado com o Sul, mas não creio que vá além disso."

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