Angela Amarante
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Sérgio Medeiros usa mitologia ameríndia em dois livros de poemas

'Os Caminhos e o Rio' e 'Caligrafias Ameríndias' mesclam versos e artes visuais inspiradas na tradição indígena

André do Amaral*, Especial para o Estado

20 de julho de 2019 | 16h00

Desde Mais ou Menos do que Dois (Iluminuras, 2001), Sérgio Medeiros tem escrito uma poesia compósita de gêneros diversos e múltiplos intertextos, onde se imiscuem de Mallarmé a Jerónimo Tsawé. É a este último, aliás, que se deve o gesto escritural de que o poeta se apropriou no livro Trio Pagão (Iluminuras, 2018), desdobramento de uma pesquisa etnográfica iniciada em 1987, na reserva indígena do Sangradouro, quando lhe coube conhecer a persona e os grafismos do wamaritede’wa (o dono dos sonhos) xavante.

Tradutor do poema maia-quiché Popol Vuh, ele faz de sua poesia um eco da mitologia ameríndia, à procura da palavra antiga, dos inícios, da decifração dos mistérios de uma cosmogonia própria, reinventada pela escrita. Há, contudo, consciência de que essa possibilidade de recuperação irremediavelmente se perdeu. Por isso, os fragmentos e grifos dos textos destroem, pouco a pouco, as montanhas da linguagem, os excessos da narração em prol da experiência, para que algum rio se faça entrever, como na lenda maia de Kaab r Aqan, que ao menor golpe no chão derribava os montes. Desse húmus, dos detritos de uma realidade que se foi, uma nova linguagem caligráfica germina. 

Se em Trio Pagão havia 23 esculturas caligráficas, grifos totêmicos inspirados em Tsawé, nos dois novos livros do escritor sul-mato-grossense há uma expansão da experiência primeira. Os Caminhos e o Rio (Iluminuras, 2019) divide-se em duas partes, sendo a primeira intitulada Dez Caminhos e o Rio, sequência de descritos, como o poeta costuma denominar o seu procedimento, poemas em prosa imagéticos nos quais séries bastante distintas são aproximadas por relações de sentido imprevistas: “ – o inseto prateado aguarda em pé na borda de uma camélia como se ela fosse uma caverna rubra” ou “ – o inseto voa na direção da porta de vidro como uma pedra negra redonda”. Na segunda parte, 32 Caligramas Coloridos, a evocação de imagens cede lugar à visualidade, em diálogo com uma tradição de artistas que fizeram da escrita objeto plástico, pictórico e sonoro.

À recusa ao significado explícito, à linguagem comunicativa reduzida a mero signo verbal, o poeta-calígrafo contrapõe cromatismos, ruídos de palavras, rasuras, caligramas vegetais, enfim, nos quais tomam corpo as principais personagens imaginadas ao longo de toda a obra do poeta – folhas secas, ramos, galhos, rios. Em Caligrafias Ameríndias (Medusa, 2019), o apresentado é esteticamente diverso. Segundo Sérgio, o tema das caligrafias é o “elogio da prosopopeia, ao dar voz – e sobretudo escrita – às palmeiras míticas de Pindorama, que ‘refletem’ sobre a origem e o fim do Brasil. Portanto, é a caligrafia das palmas que o leitor verá/lerá nessas páginas”.

Novamente, a inspiração advém da escrita onírica de Jerónimo Tsawé, mas a forma de apresentação do texto visual prescinde da cor, e a figuratividade quase inexistente n’Os Caminhos, surge fantasmática no dorso de um urubu ou nas pernas de uma ema. Os textos dos dois livros são atribuídos ao “Jardineiro Do(u)do”, cultivador de palmas, personagem cuja origem remonta a outros livros do autor e que, segundo ele, tem a clarividência helênica de compreender que “as árvores são alfabetos”, em referência ao que disse, certa vez, o crítico francês Roland Barthes.

Em Florianópolis, onde leciona Literatura na UFSC, o poeta escreve o que vê na natureza, no jardim de casa, na ilha em que habita. Sua visada, porém, nunca é uma experiência unicamente subjetiva. O que vê se traduz naquilo que poderia chamado “imagem de pensamento”, conforme o filósofo alemão Walter Benjamin, para quem o bom escritor nunca diz mais que aquilo que pensou, o que se escreve não é apenas expressão, é a imagem realizada de um pensamento imaginado. É essa capacidade que faz de Medeiros um dos poetas mais importantes do País na atualidade, em qualquer registro possível, verbal, vocálico ou visual. 

Por falar em filósofos alemães, numa entrevista concedida a José Nunes, para o site Como Eu Escrevo, Medeiros diz ter um ritual diário que consiste em acordar cedo e ler Ludwig Wittgenstein, seu filósofo predileto. Sobre o autor de Investigações Filosóficas, Tratactus Logico-philosoficus e Anotações Sobre as Cores, Medeiros observa: “Ele disse que o espanto diante do mundo é ‘nonsense’, pois não posso imaginar que o mundo não existe. Então devo (é o meu ‘dever’ como poeta), segundo entendo, familiarizar-me com os outros (de todos os reinos) e dialogar cara a cara com eles, com as plantas, por exemplo”. Trata-se, então, de uma poesia que tenta reconstruir a alteridade no contato com o inumano para nos devolver humanidade. 

Sérgio Medeiros enxerga a existência ao modo do perspectivismo ameríndio, reconhecendo as múltiplas percepções que os elementos da natureza lançam sobre o mundo. Ele decodifica esse conhecimento ancestral e o recodifica numa caligrafia elíptica, como se diante de nós se inscrevesse uma língua mais pura, simultaneamente anterior e posterior a esta que conhecemos, como se de repente nos fosse compreensível – para citar Wittgenstein – a linguagem do leão ou como se a folha, num traço, pudesse descrever a si mesma.

*ANDRÉ DO AMARAL É DOUTOR EM LETRAS PELA UNESP, CRÍTICO LITERÁRIO, POETA E AUTOR DOS LIVROS ‘FIO NO PESCOÇO’ (KATARINA KARTONERA, 2009) E ‘PANAPANÁ: DESENHO PEDAGÓGICO’ (LEONELLA, 2019)

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