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Serguei Dovlatov satiriza o jornalismo no romance 'O Compromisso'

Escritor russo radicado nos EUA exerceu a profissão na Bulgária

Aurora Bernardini*, Especial para o Estado

11 de maio de 2019 | 16h00

O Compromisso, de Serguei Dovlatov (1941-1990) que a editora Kalinka acaba de publicar, depois de Parque Cultural e O Ofício, terminou de ser escrito em 1981, em Nova York (para onde o escritor satirista havia emigrado em 1978). Poderia perfeitamente se chamar, acompanhando os novos tempos, Um Jornalista Às Voltas com Reportagens Ideologicamente Retificadas. De fato, trata-se de 12 episódios, que o autor chama de compromissos, um mais hilariante que o outro, apesar do cenário lacrimoso de uma Estônia (onde Dovlatov foi jornalista de 1972 a 1975, ainda sob regime ditatorial) cujas contradições era preciso expor, mas que deviam ser mascaradas, de uma maneira ou de outra. Vejam-se alguns apanhados:

Bella, uma operária exemplar, escreve, pelas mãos de Dovlatov, o repórter ficcional com o mesmo nome do autor que foi entrevistá-la, uma carta que irá ser encaminhada a Brejnev: “Caro e estimado Leonid Ilitch! Quero compartilhar um acontecimento feliz. No ano passado consegui atingir índices laborais sem precedentes. Ordenhei de uma única vaca uma quantidade recorde de leite!”

Finda a entrevista, Dovlatov volta para o alojamento. “Com o estalo do interruptor, as janelas escureceram. Peguei o fone. / – Recebemos a resposta – disse Liivak. / – De quem? – não compreendi. / – Do camarada Brejnev. / – Como é possível? A carta ainda não foi enviada... / – Significa que os consultores de Brejnev trabalham com um pouco mais de agilidade do que o senhor... do que nós – Liivak retratou por delicadeza.”

Outra série de incongruências, engraçadas se não fossem tristes, ocorrem quando Dovlatov vai para a maternidade do Hospital, na rua Karl Marx, para reportar o nascimento de algum bebê com peso e tamanho acima da média. Explica ao médico-chefe Dr. Teppe o cerne da questão: “O doutor não se espantou. Em geral, não importa o que dá de inventar a imprensa, é difícil surpreender o leitor comum. Estão acostumados com tudo...” Após uma breve conversa amigável com o médico, Dovlatov lhe pergunta: “– O senhor é casado? / – Claro / –Tem filhos? / – Um filho. / – E o senhor não pensa no que o aguarda? / – Para que pensar? Eu sei perfeitamente o que o aguarda. Um campo de prisioneiros de regime rigoroso. Conversei com um advogado. Inclusive ele já assinou a papelada que o proíbe de sair da cidade.” Logo depois, explica que seu filho “ é contrabandista e bêbado. Só consigo ficar relativamente tranquilo quando ele está preso...”

Então eles recebem a notícia do nascimento da criança em questão: “Toca o telefone. Avisam ao médico que acabou de nascer um menino de quatro quilos e duzentos e cinquenta, e oito centímetros. Informam também que a mãe é russa e o pai é etíope: Magabcha. / – É etíope, diz Dovlatov ao chefe da redação, Turonok. / – Você quer dizer que ele é negro? / – Chocolate. / – Ou seja, negro. / – Naturalmente. / – O que há de natural nisso? / – Então, para o senhor, um etíope não é um ser humano? / – Dovlatov – pronunciou Turónok com uma voz cheia de sofrimento – Dovlatov, eu vou colocá-lo no olho da rua... Pelas tentativas de desacreditar tudo o que é bom... Deixe seu etíope de m. em paz! Espere por um bebê normal, o senhor me escutou? Um bebê normal e humano...!”

E assim, o alter ego do escritor vai recriando as reportagens que, obviamente, guardam a devida distância das situações originárias, mas – vez ou outra – são semeadas de aforismos percucientes:“O homem corajoso guarda silêncio, o covarde, fecha o bico”; “Ford tem uma frase sensacional sobre jornalistas: ‘ Um jornalista honesto se vende uma única vez’ ” ( aqui, continua Dovlatov, a revenda é grande...). Ou, então: “A vida de um jornalista é cercada das mesmas benesses da vida de qualquer pessoa digna. / Sinceridade? O jornalista diz sinceramente o oposto do que acredita. / Criação? O jornalista cria sem parar, a ponto de seu desejo tomar o lugar da realidade. / Amor? O jornalista ama ternamente o que não merece ser amado.”

Dovlatov, ao ser despedido, não se poupa em suas “pseudomemórias” de verdades desconcertantes: “No jornalismo, cada pessoa é autorizada a fazer uma coisa. Violar um único princípio da moral corrente. Quer dizer, um sujeito pode beber, ser insolente. Um terceiro contar piadas políticas. Um quarto, se judeu. Um quinto, apartidário. Um sexto, levar uma vida imoral. E assim por diante. Mas cada um, repito, só tem permissão para uma coisa. Não se pode ser judeu e ao mesmo tempo ser bêbado. Insolente e apartidário...” E também não poupa a nossa realidade: “Eu tento despertar no leitor a sensação de normalidade... Um dos sentimentos mais sérios ligados ao nosso tempo é a sensação do absurdo iminente, quando a loucura se converte num fenômeno mais ou menos normal... Isso significa que o absurdo e a loucura se transformam em algo completamente natural e a norma, quer dizer, uma conduta normal, natural, generosa, tranquila, discreta, educada se torna, cada vez mais, um acontecimento fora do comum... Despertar no leitor a sensação de que isso é normal, talvez eu não me coloque de caso pensado diante dessa tarefa, mas é o meu tema, um tema que eu não inventei e ao qual eu não sou o único a dedicar algum tempo e esforço. Se palavras bonitas e, em geral, corretas e justas são necessárias, isso é uma tentativa de harmonizar o mundo.”

“As pessoas precisam de uma referência moral da época em que vivemos – diz Viktor Erofeiev, um dos críticos mais afiados da Rússia atual. É difícil encontrar isso e, nesse ponto, Dovlatov ajuda muito... Ele encontrou para si uma posição muito equilibrada: um observador um tanto cruel e, ao mesmo tempo, irônico e espirituoso. Como Chekhov, ele tinha a capacidade magnífica de misturar o importante e o insignificante.”

*AURORA BERNARDINI É PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA RUSSA NA USP

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