Seria o Armagedon econômico?

Pacote do Tesouro americano prevê entrada de dinheiro nos cofres dos bancos na base da confiança, sem fiscalizar o setor

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2008 | 22h48

Setembro de 2008 entrará para a história como o mês em que o mundo esteve ameaçado de acabar duas vezes. A primeira, dia 10, consumido pelo buraco negro que o Colisor de Hádrons afinal não produziu; a segunda, amanhã, contaminado pela derrocada irreversível da economia norte-americana que afinal não se concretizará. Nem amanhã, nem na terça-feira.   Foto: ReutersBanalizando assim o apocalipse, quando ele de fato vier, seremos pegos despreparados, descrentes, mesmo, de sua efetiva chegada. E aí, babau. A banalização é um veneno. (Façam já um azulejo.) Bush banalizou tanto o susto apocalíptico e a mentira que seu alerta sobre o iminente Armagedon econômico (e os "sólidos fundamentos da economia norte-americana" enaltecidos, dia desses, pelo senador John McCain?) soou como uma reprise de sua prédica sobre a existência de armas de destruição em massa em poder de Saddam Hussein e a necessidade de uma invasão do Iraque, urgente e sem discussões, do contrário, a América sofreria novos e cada vez mais devastadores atentados terroristas. As armas de destruição em massa de agora são as ações de destruição em massa embutidas no Plano Paulson, caso típico do que o economista Joseph Schumpeter chamou de "destruição criativa", conforme bem lembrou Pam Martens, do alto dos seus 21 anos de experiência em Wall Street. Para Martens, a crise do sistema financeiro foi uma "necessidade" criada para permitir a sobrevivência do sistema financeiro. Recapitulando: o pacote de resgate bosquejado pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, só resgata (ou resgataria) o sistema bancário, aliviando bancos e outras instituições financeiras dos títulos podres que eles próprios fomentaram e derramando em seus cofres US$ 700 bilhões (ou US$ 2.300 para cada contribuinte). Tudo na base da confiança, sem fiscalização ampla do setor nem freio nos exorbitantes salários e bônus de seus executivos, sob irrestrita supervisão do Tesouro - como se os EUA tivessem regredido à monarquia e Paulson fosse um salvador acima de qualquer suspeita. Se o pacote é um prêmio do Tesouro e do Federal Reserve (Banco Central dos EUA) aos principais responsáveis pela crise, à "cleptocracia americana", no dizer curto e grosso do ex-economista do Chase Manhattan Bank Michael Hudson, aceitar Paulson como seu guardião e gestor é o mesmo que entregar a guarda do galinheiro a uma raposa, para usar a imagem mais corriqueira no currículo de traulitadas que o plano levou. Um ano antes de ser indicado por Bush para a Secretaria de Fazenda, Paulson ganhava US$ 16,4 milhões para dirigir uma das empresas (Goldman Sachs) responsáveis pelo caos instalado em Wall Street. O princípio do similia similibus curantur, que eu saiba, só tem sentido na homeopatia.Nem com as primeiras achegas sugeridas pelo Congresso (a liberação parcelada da erva, limitação de pagamento de bônus para executivos de instituições financeiras beneficiadas pelo pacote, maior fiscalização do programa de socorro), o plano melhorou o bastante para convencer a maioria dos republicanos e democratas de sua imperiosidade. Muito menos de sua eficácia, já que Paulson não explicou, de forma convincente, como ele deve funcionar. Sua execução depende da boa vontade de investidores estrangeiros para absorverem mais títulos do Tesouro norte-americano, que não dispõe dos US$ 700 bilhões para viabilizar o exorbitante "wishful thinking" (apud Paul Krugman) salvacionista de Paulson. Os EUA tornaram-se reféns financeiros de países árabes e asiáticos, que, se quisessem, poderiam levar o país à bancarrota. É dado como certo que não querem, mas, já credores de US$ 9,4 trilhões, podem perfeitamente relutar em financiar o pacote, cansados que estão, dizem, da ganância e falta de honestidade dos banqueiros e financistas de Wall Street. Parcelada, a dívida torna-se mais palatável. Sem, contudo, assegurar que, ao cabo dos US$ 700 bilhões, outros tantos não se tornem necessários e imperiosos, o manjado poço sem fundo. Que superpotência hegemônica é essa que não tem como se sustentar com os próprios recursos?, perguntou-se, entre constrangido e aflito, o ex-assistente do secretário do Tesouro do governo Reagan Paul Craig Roberts, num artigo para o Counterpunch.com. Aflitos, constrangidos e aturdidos parecem estar todos os norte-americanos. "É o 11 de Setembro financeiro", sentenciou Thomas L. Friedman. "Socializaram a dívida privada", protestaram alguns democratas, pegando na contramão a queixa de republicanos presos à ortodoxia do livre mercado, como Jim Bunning, senador por Kentucky, que qualificou o pacote de "socialismo financeiro", logo "antiamericano". Antiamericano, no duro, é, well, deixa pra lá, não vamos remoer os escândalos da era Bush. Bunning ignora ou fingiu ignorar que o socialismo prega a redistribuição da riqueza no andar de baixo, não no de cima, e tampouco notou que o pacote não propõe a nacionalização de empresas privadas, mas uma encampação corporativa do governo. Considerando-se a vocação autoritária do governo Bush e sua subordinação aos interesses de uma cotérie político-econômica, seria mais adequado falar em "fascismo financeiro". Ainda que sem os exageros dos que já andam comparando os EUA à República de Weimar.Compará-los ao Brasil não seria lá uma hipérbole, tendo em vista as semelhanças entre o pacote de Paulson e o Proer do governo FHC. Mas não apenas isso. A primeira reunião bipartidária para examinar o pacote, na Câmara dos Representantes, terminou em pizza. Literalmente. No Senado, onde as discussões também vararam a noite, o rango foi mais requintado: comida tailandesa. Em nenhuma das casas chegou-se a um consenso. Na sexta-feira, quando, pelos cálculos do governo, o pacote teria de estar aprovado pelo Congresso para que o mundo não acabasse amanhã, as negociações recomeçaram. Destruição criativa não é coisa para se sacramentar em apenas uma reunião.

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